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Cinema O
direito à morte Como um tetraplégico
que quer a eutanásia, Javier Bardem é a força de Mar
Adentro  Isabela
Boscov
Fotos
divulgação
 | | Bardem,
como Sampedro: 28 anos de batalha para morrer |
Depois de
dirigir Javier Bardem em Carne Trêmula, o espanhol Pedro Almodóvar
disse que o ator tem duas qualidades que, seja qual for o papel, a câmera
sempre capta nele: sua vulnerabilidade e uma certa nobreza viril. Ambas as características
se mostram muito úteis decisivas, aliás para Mar
Adentro (Espanha/França/Itália, 2004), que estréia
nesta sexta-feira no país. No novo filme do cineasta Alejandro Amenábar,
de Os Outros, Bardem interpreta Ramón Sampedro, um marinheiro da
região da Galícia que, na juventude, saiu tetraplégico de
um mergulho no raso. Durante os 28 anos seguintes, Sampedro travou uma batalha
pública, que se desenrolou em parte nos tribunais, pelo direito de se matar.
Ou, mais precisamente, pelo direito à eutanásia, já que sua
deficiência o impedia de suicidar-se sem o auxílio de terceiros,
que ficariam então sujeitos à acusação de homicídio.
Derrotado em todas as tentativas e instâncias, em 1998 ele planejou um suicídio
em que cada etapa seria legal e executada por uma pessoa diferente, de forma que
todos os envolvidos dez, ao todo permanecessem inimputáveis.
É uma história forte, mas arriscada, já que traz consigo
todas aquelas armadilhas dos filmes que a televisão americana apelidou
de "doença da semana": um grande sofrimento, uma luta solitária
e um exemplo de vida. Bardem, de 35 anos, escapa dessas armadilhas por meio da
discrição e do controle com que encarna Sampedro. Nem quando, num
devaneio provocado pela belíssima ária Nessun Dorma, de Puccini,
o doente se imagina levantando da cama e voando através da janela pelas
paisagens que não pode ver mais o ator deixa que a cena deslize para a
extorsão emocional. De Amenábar, porém, não se pode
dizer o mesmo: empenhado em provar que é capaz de conduzir uma narrativa
convencional, o diretor recorre a lugares-comuns sem pudor nem imaginação.
 | | Amenábar,
com o ator: lugar-comum |
O verdadeiro
Sampedro, ao que consta, era de fato uma personalidade magnética, capaz
de seduzir quem o conhecesse pela força e pela serenidade de suas convicções.
No filme, nem sua cunhada (a excelente Mabel Rivera), que passou toda a vida adulta
sem alternativa a não ser servir como enfermeira de um inválido,
mistura ressentimento à afeição. Ao contrário: sua
única demonstração de rancor é destinada a um padre
que diz que o desejo de morte de Sampedro se deve à indiferença
de sua família. Como ela, todos os personagens dão mostras mais
de devoção do que propriamente de compreensão ou solidariedade.
O protagonista vai se construindo, assim, como um santo em martírio. E,
quanto menos humano e falível ele parece, mais Mar Adentro desperdiça
a oportunidade de examinar o que essa história tem de profundamente abrasivo
e doloroso o momento em que a balança pende para o outro lado e
viver passa a ser mais dever do que direito. |