Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Cinema
O direito à morte

Como um tetraplégico que quer a eutanásia,
Javier Bardem é a força de Mar Adentro


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Bardem, como Sampedro: 28 anos de batalha para morrer


EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos

DA INTERNET
Trailer

Depois de dirigir Javier Bardem em Carne Trêmula, o espanhol Pedro Almodóvar disse que o ator tem duas qualidades que, seja qual for o papel, a câmera sempre capta nele: sua vulnerabilidade e uma certa nobreza viril. Ambas as características se mostram muito úteis – decisivas, aliás – para Mar Adentro (Espanha/França/Itália, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país. No novo filme do cineasta Alejandro Amenábar, de Os Outros, Bardem interpreta Ramón Sampedro, um marinheiro da região da Galícia que, na juventude, saiu tetraplégico de um mergulho no raso. Durante os 28 anos seguintes, Sampedro travou uma batalha pública, que se desenrolou em parte nos tribunais, pelo direito de se matar. Ou, mais precisamente, pelo direito à eutanásia, já que sua deficiência o impedia de suicidar-se sem o auxílio de terceiros, que ficariam então sujeitos à acusação de homicídio. Derrotado em todas as tentativas e instâncias, em 1998 ele planejou um suicídio em que cada etapa seria legal e executada por uma pessoa diferente, de forma que todos os envolvidos – dez, ao todo – permanecessem inimputáveis. É uma história forte, mas arriscada, já que traz consigo todas aquelas armadilhas dos filmes que a televisão americana apelidou de "doença da semana": um grande sofrimento, uma luta solitária e um exemplo de vida. Bardem, de 35 anos, escapa dessas armadilhas por meio da discrição e do controle com que encarna Sampedro. Nem quando, num devaneio provocado pela belíssima ária Nessun Dorma, de Puccini, o doente se imagina levantando da cama e voando através da janela pelas paisagens que não pode ver mais o ator deixa que a cena deslize para a extorsão emocional. De Amenábar, porém, não se pode dizer o mesmo: empenhado em provar que é capaz de conduzir uma narrativa convencional, o diretor recorre a lugares-comuns sem pudor nem imaginação.

 
Amenábar, com o ator: lugar-comum

O verdadeiro Sampedro, ao que consta, era de fato uma personalidade magnética, capaz de seduzir quem o conhecesse pela força e pela serenidade de suas convicções. No filme, nem sua cunhada (a excelente Mabel Rivera), que passou toda a vida adulta sem alternativa a não ser servir como enfermeira de um inválido, mistura ressentimento à afeição. Ao contrário: sua única demonstração de rancor é destinada a um padre que diz que o desejo de morte de Sampedro se deve à indiferença de sua família. Como ela, todos os personagens dão mostras mais de devoção do que propriamente de compreensão ou solidariedade. O protagonista vai se construindo, assim, como um santo em martírio. E, quanto menos humano e falível ele parece, mais Mar Adentro desperdiça a oportunidade de examinar o que essa história tem de profundamente abrasivo e doloroso – o momento em que a balança pende para o outro lado e viver passa a ser mais dever do que direito.

 
 
 
 
topovoltar