|
|
Realeza A
vitória do amor Aos 56 anos,
o príncipe Charles finalmente vai fazer o que sempre quis: casar-se
com Camilla Jeff
Mitchell/Reuters  | AP
 |
AP
 | Coração
valente: com Camilla, o amor verdadeiro; com Diana, o falso conto de fadas; e
a sombra do tio-avô, o patético duque de Windsor |
O que Camilla Parker
Bowles tem que Diana não tinha? A pergunta, carregada de julgamentos preconcebidos,
voltou a circular depois que Charles, o herdeiro do trono britânico, fez
o anúncio longamente prorrogado de que, aos 56 anos, vai por fim se casar
com Camilla, de 57. A idade, a aparência e o histórico dos noivos
não autorizam, nem por um instante, que se fale em casamento de "conto
de fadas", o clichê inúmeras vezes repetido quando Diana subiu ao
altar, bela, virginal e inelutavelmente fadada a ser infeliz para sempre. Quando
a ruína do casamento real começou a vir a público, as reações
foram quase unânimes. Como Charles poderia rejeitar aquela doce beldade
em flor? Pior ainda, voltar aos braços de Camilla, a amante mais velha,
mais enrugada e definitivamente menos esbelta do que a princesa que tinha o mundo
a seus pés? O tempo se encarregou
de provar que a verdadeira história de amor, no entanto, era a de Charles
e Camilla. Uma história feita de elementos prosaicos, como é quase
obrigatório numa ligação que já dura trinta anos.
Amizade, interesses em comum, risadas compartilhadas. Uma boa tensão sexual
também em gravações famosamente constrangedoras na
época, e que hoje parecem apenas tolas como são as bobagens sussurradas
em momentos de empolgação, o herdeiro do trono dizia que: 1) na
próxima encarnação, gostaria de voltar como as calcinhas
de Camilla; 2) gostaria, igualmente, de ser o seu absorvente íntimo. Psicólogos
de botequim (ou de pub, no caso) também não resistem a apontar conotações
mais profundas. Charles foi criado para ser rei por um pai severo e exigente,
o príncipe Philip, e uma mãe, a rainha Elizabeth II, que o via duas
vezes por dia: meia hora de manhã, uma à tarde, quando já
devia encarar a iniciação nos deveres dinásticos. À
mesa, as conversas eram sobre cavalos, assunto em que só a irmã,
Anne, sobressaía. A única história de amor na história
recente da família era um pesadelo: a de seu tio-avô, que renunciou
ao trono para se casar com a americana divorciada Wallis Simpson, tornando-se
um patético duque de Windsor. Em Camilla, parece, Charles encontrou afeto,
apoio, calor humano, admiração incondicional tudo o que a
mãe rainha nunca pôde lhe dar.
Os dois se conheceram no começo dos anos 70, namoraram. Ele era jovem,
tinha de prosseguir a formação de herdeiro dizem que foi
advertido de que ela não era virgem, o que impossibilitaria um casamento.
Perdeu a chance de ficar com Camilla, disse depois. Quando voltou de uma longa
viagem, ela já estava casada. Nenhum problema. No ambiente das classes
superiores, era perfeitamente admissível que o príncipe tivesse
uma amante casada e que o marido dela aquiescesse. A fidelidade do príncipe
a sua amada sobreviveu a tudo: o casamento dela, o casamento dele, o divórcio
de ambos, a extrema impopularidade em que incorreu quando Diana expôs suas
misérias conjugais ao mundo. Sobreviveu, dizem os supersticiosos, até
à maldição pós-túmulo de Diana. A cada vez
que a situação parecia acalmada, com os profissionais de relações
públicas preparando pacientemente o anúncio do casamento com Camilla,
lá vinha mais uma bomba. Ora era o escândalo do mordomo preso que
depois contou detalhes das desgraças (e dos amantes) de Diana, ora a incrível
carta em que ela dizia temer ser morta, e num acidente de carro ainda por cima,
para abrir caminho à união de Charles e Camilla.
A maldição, de alguma maneira, persiste. O príncipe vai se
casar com a mulher que sempre amou, mas ela não será rainha. Com
o casamento, no dia 8 de abril, ela receberá um título honorífico
importante, concessão de Elizabeth: será chamada de Sua Alteza Real,
a duquesa da Cornualha (o equivalente feminino a um dos diversos títulos
de Charles). Quando ele se tornar rei, Camilla será a princesa consorte.
A diferença pode parecer uma tolice (rainha ou princesa, ela será
sempre a mulher do monarca), mas para muitos ingleses essas coisas têm importância.
Para uma monarquia que tem 1.000 anos de continuidade, com uma formidável
história de reis loucos, rainhas decapitadas, cismas religiosos provocados
por casamentos indesejados e mais um longo cortejo de aberrações,
um príncipe que se casa por amor, com o tempo, acabará sendo visto
como mais uma excentricidade real. |