Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

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Realeza
A vitória do amor

Aos 56 anos, o príncipe Charles finalmente vai
fazer o que sempre quis: casar-se com Camilla

 
Jeff Mitchell/Reuters
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Coração valente: com Camilla, o amor verdadeiro; com Diana, o falso conto de fadas; e a sombra do tio-avô, o patético duque de Windsor


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Em Dia: A Morte de Diana

O que Camilla Parker Bowles tem que Diana não tinha? A pergunta, carregada de julgamentos preconcebidos, voltou a circular depois que Charles, o herdeiro do trono britânico, fez o anúncio longamente prorrogado de que, aos 56 anos, vai por fim se casar com Camilla, de 57. A idade, a aparência e o histórico dos noivos não autorizam, nem por um instante, que se fale em casamento de "conto de fadas", o clichê inúmeras vezes repetido quando Diana subiu ao altar, bela, virginal e inelutavelmente fadada a ser infeliz para sempre. Quando a ruína do casamento real começou a vir a público, as reações foram quase unânimes. Como Charles poderia rejeitar aquela doce beldade em flor? Pior ainda, voltar aos braços de Camilla, a amante mais velha, mais enrugada e definitivamente menos esbelta do que a princesa que tinha o mundo a seus pés?

O tempo se encarregou de provar que a verdadeira história de amor, no entanto, era a de Charles e Camilla. Uma história feita de elementos prosaicos, como é quase obrigatório numa ligação que já dura trinta anos. Amizade, interesses em comum, risadas compartilhadas. Uma boa tensão sexual também – em gravações famosamente constrangedoras na época, e que hoje parecem apenas tolas como são as bobagens sussurradas em momentos de empolgação, o herdeiro do trono dizia que: 1) na próxima encarnação, gostaria de voltar como as calcinhas de Camilla; 2) gostaria, igualmente, de ser o seu absorvente íntimo. Psicólogos de botequim (ou de pub, no caso) também não resistem a apontar conotações mais profundas. Charles foi criado para ser rei por um pai severo e exigente, o príncipe Philip, e uma mãe, a rainha Elizabeth II, que o via duas vezes por dia: meia hora de manhã, uma à tarde, quando já devia encarar a iniciação nos deveres dinásticos. À mesa, as conversas eram sobre cavalos, assunto em que só a irmã, Anne, sobressaía. A única história de amor na história recente da família era um pesadelo: a de seu tio-avô, que renunciou ao trono para se casar com a americana divorciada Wallis Simpson, tornando-se um patético duque de Windsor. Em Camilla, parece, Charles encontrou afeto, apoio, calor humano, admiração incondicional – tudo o que a mãe rainha nunca pôde lhe dar.

Os dois se conheceram no começo dos anos 70, namoraram. Ele era jovem, tinha de prosseguir a formação de herdeiro – dizem que foi advertido de que ela não era virgem, o que impossibilitaria um casamento. Perdeu a chance de ficar com Camilla, disse depois. Quando voltou de uma longa viagem, ela já estava casada. Nenhum problema. No ambiente das classes superiores, era perfeitamente admissível que o príncipe tivesse uma amante casada – e que o marido dela aquiescesse. A fidelidade do príncipe a sua amada sobreviveu a tudo: o casamento dela, o casamento dele, o divórcio de ambos, a extrema impopularidade em que incorreu quando Diana expôs suas misérias conjugais ao mundo. Sobreviveu, dizem os supersticiosos, até à maldição pós-túmulo de Diana. A cada vez que a situação parecia acalmada, com os profissionais de relações públicas preparando pacientemente o anúncio do casamento com Camilla, lá vinha mais uma bomba. Ora era o escândalo do mordomo preso que depois contou detalhes das desgraças (e dos amantes) de Diana, ora a incrível carta em que ela dizia temer ser morta, e num acidente de carro ainda por cima, para abrir caminho à união de Charles e Camilla.

A maldição, de alguma maneira, persiste. O príncipe vai se casar com a mulher que sempre amou, mas ela não será rainha. Com o casamento, no dia 8 de abril, ela receberá um título honorífico importante, concessão de Elizabeth: será chamada de Sua Alteza Real, a duquesa da Cornualha (o equivalente feminino a um dos diversos títulos de Charles). Quando ele se tornar rei, Camilla será a princesa consorte. A diferença pode parecer uma tolice (rainha ou princesa, ela será sempre a mulher do monarca), mas para muitos ingleses essas coisas têm importância. Para uma monarquia que tem 1.000 anos de continuidade, com uma formidável história de reis loucos, rainhas decapitadas, cismas religiosos provocados por casamentos indesejados e mais um longo cortejo de aberrações, um príncipe que se casa por amor, com o tempo, acabará sendo visto como mais uma excentricidade real.

 
 
 
 
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