Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Diogo Mainardi
Carnaval é só Carnaval

"Ficam tentando interpretar o verdadeiro
significado do Carnaval. Um dia alguém
precisa acabar com essa empulhação toda.
Alguém precisa contar para a velharia que
suas idéias foram enterradas 100 anos atrás"

A gente gosta de uma velharia. Arnaldo Jabor tem idéias velhas. Roberto DaMatta tem idéias velhas. Affonso Romano Sant'Anna tem idéias velhas. Eles todos ficam fazendo elucubrações sobre o Carnaval. Eles todos ficam tentando interpretar o verdadeiro significado do Carnaval. Como se o Carnaval tivesse algum significado. Como se revelasse o que realmente somos. Um dia alguém precisa acabar com essa empulhação toda. Alguém precisa contar para a velharia que suas idéias foram enterradas 100 anos atrás.

O Carnaval é só o Carnaval. Não revela a alma do brasileiro, o espírito do brasileiro, o caráter do brasileiro. Alma não existe. Espírito não existe. Caráter nacional não existe. Está na hora de parar com essas baboseiras. A velharia deve entender que não somos abstrações. Até quando teremos de ouvir, por exemplo, que o Carnaval representa o triunfo de nossa utopia sexual? Sexo é igual em todo lugar. O que se faz aqui em matéria de sexo não é diferente do que se faz no resto do mundo. Exceto pela prostituição. Exceto pela cafetinagem. Arnaldo Jabor continua a repetir aquela velha balela sobre o estupro colonial de que o sexo, no Brasil, é sem culpa e santificado, enquanto nos Estados Unidos é puritano e doentio, tanto que descambou, segundo ele, na aids. A aids, que eu saiba, não surgiu nos Estados Unidos, e sim na África, porque o pessoal de lá comia macacos. Não tenho nada contra quem come macacos, mas é melhor evitar confusões.

A antropologia arruinou o Brasil. Até hoje os brasileiros são vistos como índios. A velharia descreve o Carnaval exatamente como Lévi-Strauss descreveria um rito de puberdade nambiquara. Com o futebol acontece a mesma coisa. Todos os cacoetes antropológicos são aplicados em sua análise. O problema é que em nenhuma hipótese o futebol deve ser analisado. Ele não significa nada. É um esporte. Só um esporte. Merece, no máximo, uma mesa-redonda na televisão, no domingo à noite, para discutir o impedimento do lateral direito do União São João. Claro que não há nenhum problema em gostar de futebol. Eu gosto muito. Não perco um jogo. Chego a acordar mais cedo para assistir a uma pelada da seleção brasileira contra o time de Hong Kong. Admito que alguém brigue por causa de uma partida. Admito até mesmo que uma partida possa desencadear uma guerra civil, como ocorreu na Iugoslávia. É um motivo tão válido como qualquer outro. Dá para matar por causa do futebol. O que não dá para fazer é usá-lo como metáfora da nacionalidade.

Eu passaria o dia todo vendo o Robinho bater bola. Só não aceito que ele seja transformado num símbolo da mistura racial brasileira, da capacidade de improvisação brasileira, da ousadia brasileira. Robinho não é símbolo de nada. Não é emblema de nada. Até porque sempre demonstramos ser o contrário disso tudo: somos preconceituosos, conformistas e reverentes. A velharia tem o vício fascistóide de folclorizar o país. Eu não quero ser folclorizado. O passo seguinte à folclorização é o óleo de rícino.

 
 
 
 
topovoltar