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Diogo
Mainardi Carnaval é só Carnaval
"Ficam
tentando interpretar o verdadeiro significado do Carnaval. Um dia alguém precisa
acabar com essa empulhação toda. Alguém precisa contar
para a velharia que suas idéias foram enterradas 100 anos atrás"
A gente gosta de uma velharia. Arnaldo Jabor tem
idéias velhas. Roberto DaMatta tem idéias velhas. Affonso Romano
Sant'Anna tem idéias velhas. Eles todos ficam fazendo elucubrações
sobre o Carnaval. Eles todos ficam tentando interpretar o verdadeiro significado
do Carnaval. Como se o Carnaval tivesse algum significado. Como se revelasse o
que realmente somos. Um dia alguém precisa acabar com essa empulhação
toda. Alguém precisa contar para a velharia que suas idéias foram
enterradas 100 anos atrás. O Carnaval é
só o Carnaval. Não revela a alma do brasileiro, o espírito
do brasileiro, o caráter do brasileiro. Alma não existe. Espírito
não existe. Caráter nacional não existe. Está na hora
de parar com essas baboseiras. A velharia deve entender que não somos abstrações.
Até quando teremos de ouvir, por exemplo, que o Carnaval representa o triunfo
de nossa utopia sexual? Sexo é igual em todo lugar. O que se faz aqui em
matéria de sexo não é diferente do que se faz no resto do
mundo. Exceto pela prostituição. Exceto pela cafetinagem. Arnaldo
Jabor continua a repetir aquela velha balela sobre o estupro colonial de que o
sexo, no Brasil, é sem culpa e santificado, enquanto nos Estados Unidos
é puritano e doentio, tanto que descambou, segundo ele, na aids. A aids,
que eu saiba, não surgiu nos Estados Unidos, e sim na África, porque
o pessoal de lá comia macacos. Não tenho nada contra quem come macacos,
mas é melhor evitar confusões. A
antropologia arruinou o Brasil. Até hoje os brasileiros são vistos
como índios. A velharia descreve o Carnaval exatamente como Lévi-Strauss
descreveria um rito de puberdade nambiquara. Com o futebol acontece a mesma coisa.
Todos os cacoetes antropológicos são aplicados em sua análise.
O problema é que em nenhuma hipótese o futebol deve ser analisado.
Ele não significa nada. É um esporte. Só um esporte. Merece,
no máximo, uma mesa-redonda na televisão, no domingo à noite,
para discutir o impedimento do lateral direito do União São João.
Claro que não há nenhum problema em gostar de futebol. Eu gosto
muito. Não perco um jogo. Chego a acordar mais cedo para assistir a uma
pelada da seleção brasileira contra o time de Hong Kong. Admito
que alguém brigue por causa de uma partida. Admito até mesmo que
uma partida possa desencadear uma guerra civil, como ocorreu na Iugoslávia.
É um motivo tão válido como qualquer outro. Dá para
matar por causa do futebol. O que não dá para fazer é usá-lo
como metáfora da nacionalidade. Eu passaria
o dia todo vendo o Robinho bater bola. Só não aceito que ele seja
transformado num símbolo da mistura racial brasileira, da capacidade de
improvisação brasileira, da ousadia brasileira. Robinho não
é símbolo de nada. Não é emblema de nada. Até
porque sempre demonstramos ser o contrário disso tudo: somos preconceituosos,
conformistas e reverentes. A velharia tem o vício fascistóide de
folclorizar o país. Eu não quero ser folclorizado. O passo seguinte
à folclorização é o óleo de rícino.
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