Edição 1892 . 16 de fevereiro de 2005

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IMANENTES E TRANSCENDENTES

CERTAS COISAS SÃO IMANENTES NO CARNAVAL: CARROS QUEBRANDO, VELHA-GUARDA CHORANDO, LUMA DE OLIVEIRA DESFILANDO, FAMOSOS DANDO ESCÂNDALO. AQUI E ALI, NESTE ANO PIPOCARAM MOMENTOS TRANSCENDENTES. POR EXEMPLO, UM BISPO DE VERDADE (NA PAULISTANA ÁGUIA DE OURO) E UM CRISTO DE MENTIRA (NA BEIJA-FLOR, A VENCEDORA CARIOCA). E AINDA UMA SENHORA DE MAIS DE 60 ANOS QUE FEZ A SAPUCAÍ VIR ABAIXO. MAIS UM JUNIOR LIMA TOTALMENTE SEM JUÍZO.

Oscar Cabral
Suzana desfila, com pouca roupa e nenhuma modéstia: "A vitória do talento"


Senhora do destino, do público e da Sapucaí, Suzana Vieira subiu no salto – e deixou as sandálias da humildade trancafiadas. "Não preciso de novela para ser reconhecida", dizia, enquanto era amplamente reconhecida, aplaudida e paparicada por sua participação na novela. Além do sucesso televisivo, as pernas de vedete e o fôlego de menina, aos 62 anos, contribuíram para os momentos de ego ligeiramente inflado. No meio da euforia, a atriz deixou pelo menos uma frase engraçada, ao se proclamar a prova viva da vitória do talento sobre a, como diremos...

 

 

 

Marcia Foletto/Ag. Globo
Paulo Araujo/AE
Juliana, brilhando de frente e de costas: madrinha linda, mas gastadeira

...bem, aquela parte da anatomia feminina espetacularmente desfilada pela divina Juliana Paes. Cinco quilos mais magra, mas sem nenhum grama faltando na área em questão, ela deu uma ajeitadinha na sandália de abalar a República. Parece incrível, mas aqueles fiozinhos quase invisíveis criaram problemas: Juliana reclamou de pagar a metade dos 30.000 reais despendidos na fantasia, e a escola, Viradouro, está "reavaliando" se ela continua como madrinha da bateria.



Cacau Mangabeira
Junior com Ivete, em cima do trio: o efeito Bahia


Todo mundo volta da Bahia com alguma história de Carnaval daquelas para contar, mas ninguém mais do que Junior Lima. Sem Sandy, sem camisa, sem sapato, sem inibições, ele se acabou em Salvador, guiado pelas mãos experientes de Ivete Sangalo, que é amicíssima da família ("Carreguei ele no colo", exagera) e o hospedou na cidade. Junior foi para um dia e passou três. "Fiquei enlouquecido. Amei, amei", vibra. "Do trio de Ivete, ainda fomos pular em outro. A mulher é um absurdo de forte. Eu, que dormia duas a três horas por noite, quando acordava não conseguia nem mexer o corpo", lembra. Já Ivete...

 

 

Fabio Rossi/Ag. Globo
Carvalho: Jesus de cinema com sangue de chocolate

Santo Cristo, tem Mel Gibson na avenida? Com uma coroa de espinhos e uma maquiagem apavorante, à la Paixão de Cristo, Cléber Carvalho enfrentou um verdadeiro calvário para abrir o desfile da Beija-Flor. Foram duas horas e meia só de maquiagem, um composto de verniz e "sangue" feito em casa – mistura secretíssima do diretor teatral da escola, Hildon Castro, que "leva até chocolate em pó". Carvalho, 23 anos, gerente de um supermercado em São Lourenço, em Minas Gerais, foi descoberto por Castro ao fazer um curso de ator no Rio de Janeiro. Inspirou-se declaradamente na Paixão de Cristo para as expressões de sofrimento: "Vi o filme seis vezes".



Helvio Romero/AE
Fábia: "ilusão de ótica" instalada por um amigo eletricista


Que tal chamar o eletricista para fazer uma fantasia de arrasar a concorrência? A idéia luminosa foi de Fábia Borges, madrinha da bateria da Unidos da Tijuca. Depois de desfilar com botas que soltavam fogo em 2004, ela surgiu com 2.500 microlâmpadas enroladas nas pouquíssimas partes sólidas da fantasia, acionadas por um pequeno circuito eletrônico escondido nos penachos de faisão. "Queria que parecesse ilusão de ótica", explica a inventiva Fábia, que mora na Espanha, mas migra anualmente para a Sapucaí.

 

 

 

 

Wagner Santos/Contigo
Dado: vaias, latas e remoção à força da Sapucaí

Sem nenhuma surpresa, a confusão mais comentada do Carnaval carioca foi protagonizada por Dado Dolabella. Na madrugada de terça-feira, em estado de pé na jaca grau III, não acompanhou sua ala no tumultuado desfile da Portela, destratou integrantes da escola e ainda fez gestos obscenos para o público, que revidou com vaia e lançamento de lata. Levado ao pronto-socorro, escapou e voltou; acabou sendo removido da avenida por seguranças e levado para o QG da TV Globo no Sambódromo. Na emissora, a reação foi de dentes estoicamente cerrados. "As cenas do Plínio no Carnaval foram gravadas em estúdio. Ele só atrapalhou o desfile da Portela", diz o diretor Wolf Maya.



Marizilda Cruppe/Ag. Globo
A inglesa Naomi: mimetismo perfeito com as brasileiras


Nas passarelas, ela é a mitológica Naomi Campbell. Já na avenida, a modelo inglesa ficou igualzinha às incontáveis beldades mulatas que brotam do chão no Carnaval. Num biquininho de lantejoulas, sem as lentes de contato verdes, ela mimetizou-se quase irreconhecível na Portela. A roupa foi presente do deputado e amigo Julio Lopes, que desembolsou 50.000 reais pelo mimo. Naomi gostou tanto que até chorou. "Ela disse que queria dormir e acordar com a fantasia", conta o carnavalesco Amarildo de Mello.

 

 

 

 
Evelson de Freitas/AE
Dom Mauro cai no samba da solidariedade: "Criança com fome, Deus chora"

Politicamente corretíssimo, dom Mauro Morelli, bispo de Duque de Caxias, não apenas ajudou a elaborar o enredo – O Pão Nosso de Cada Dia, louvando a solidariedade – como desfilou ao vivo na escola de samba Águia de Ouro, em São Paulo. "Convidamos por educação e deixamos ele bem à vontade. Quando disse que iria participar, não levamos muito a sério", conta o presidente da escola, Sidnei Carriuolo. Pois dom Mauro compareceu e prestigiou, bem animado, o último carro, "Celebração da Vida". Tirou de letra: "Sou bispo há quarenta anos e sempre estive no meio do povo".



Fred Pontes
Thiago e Vanessa em Salvador: beijo de cartão-postal


Carnaval é época de acabar namoros, ou de dar aquele famoso tempo, mas Thiago Lacerda e Vanessa Lóes escolheram justamente a hora da farra para reatar. Em Salvador, aonde chegaram separados (ele, vindo das gravações de América nos Estados Unidos; ela, do Rio de Janeiro, onde produz uma peça de teatro), mas de onde regressaram juntos, os dois protagonizaram várias versões tropicais do Beijo no Hôtel de Ville, a famosa foto dos anos 50 de Robert Doisneau.

 

 

 


Me seqüestra que eu gosto

 
Rodrigo Queiroz/Contigo
Oscar Cabral
Luma, com Moraes e com algemas: amigos institucionais

O gosto de Luma de Oliveira por, digamos, interlocutores institucionais subiu um patamar durante a folia. À frente da bateria da Caprichosos de Pilares, aos 40 anos bem esculpidos, ela ressurgiu no samba, do qual esteve ausente no seu annus horribilis, com uma gargantilha com um par de algemas pendurado. Quem deu? O que quer dizer? Versão Luma: "As algemas foram presente de um amigo e representam liberdade, não compromisso". Seria esse amigo o delegado Fernando Moraes, da Divisão Anti-Seqüestro (DAS), diretor social da Caprichosos, que praticamente a seqüestrou a noite toda? Não. Moraes é outro amigo – "Um grande amigo, que cuida muito de mim".

 

Editado por Lizia Bydlowski.
Colaboraram Bel Moherdaui, Roberta Salomone e Simone Seara

 
 
 
 
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