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Em
foco: Gustavo Franco A
revolta da jabuticaba
"Dentre
os obstáculos ao crescimento,
um dos mais importantes está nas finanças públicas,
área em que é forte a síndrome da jabuticaba, segundo
a qual o Brasil não obedece às leis econômicas
do Hemisfério Norte" O
crescimento econômico não é um processo ordenado por um hormônio
específico tratável com uma política focada. A economia se
transforma, cresce, encolhe ou se deteriora como o resultado agregado de uma infinidade
de processos descoordenados. Não se deve pensar no crescimento como um
número, pois a economia se modifica de múltiplas formas, e o tamanho
está longe de ser a única métrica. O
crescimento não obedece necessariamente à liderança em Brasília
e pode acontecer sem que esta entenda muito bem seus motivos, especialmente no
momento em que vivemos, no qual o setor privado comanda o processo e ventos internacionais
favoráveis disseminam a enganosa sensação de que nosso destino
está inteiramente sob nosso controle. É
claro que as limitações cada vez mais evidentes às ações
dos governos não os condenam à inutilidade por favor, não
vamos chafurdar nesse velho e conhecido pântano. São os governos
que conduzem mudanças paradigmáticas, como foi o fim da hiperinflação,
uma condição necessária para o crescimento, mas não
suficiente, o mesmo valendo para as outras reformas empreendidas nos últimos
anos. Dentre os obstáculos
ao crescimento ainda existentes, talvez o mais importante esteja nas finanças
públicas, área em que é especialmente forte a velha síndrome
da jabuticaba, segundo a qual o Brasil não obedece às leis econômicas
do Hemisfério Norte. Na verdade, o Fórum de Porto Alegre serviu
para desmontar essa falácia por um ângulo novo: ficou demonstrada
a existência de muitas variedades de jabuticaba por todo o Terceiro Mundo.
Vale uma reflexão sobre a contribuição da jabuticaba para
o subdesenvolvimento. A hipótese a testar é a de que todo país
que acha que tem leis econômicas próprias é subdesenvolvido.
Mas vamos aos fatos: o sistema tributário
brasileiro é uma tragédia, o nível de gasto público
é alto demais, sufoca o setor privado via juros necessariamente elevadíssimos,
e o governo precisa de inflação ou de acréscimos sucessivos
à dívida pública para pagar suas contas. Nosso sistema orçamentário
é primitivo, sujeito a influências espúrias, e reproduz continuamente
o "rombo" e a pressão sobre a dívida, que já está
grande demais. E, como a dívida de hoje é o imposto de amanhã,
estamos tributando nossos filhos e netos, e iludidos ao achar que isso não
tem efeito nos dias de hoje. A aflição
com esse estado de coisas se torna ainda maior quando se nota a força do
ponto de vista segundo o qual esses fatos não são fatos, mas a expressão
de uma "lógica neoliberal", ou do "financismo-rentismo", e que, de alguma
forma que ainda precisa ser mais bem elaborada, a jabuticaba continua existindo
no Brasil. Sim, o Fórum de Porto Alegre está correto em afirmar
que "um outro mundo é possível", o Terceiro, o Quarto e o Quinto.
Enquanto alimentarmos jabuticabas, vale dizer, idéias terceiro-mundistas
exóticas sobre finanças públicas, vamos ter juros de Terceiro
Mundo e nele vamos permanecer soberana e orgulhosamente.
É certo dizer que existem dois eixos de revolta contra
a jabuticaba. O primeiro é o que se manifesta por meio da informalidade.
É o indivíduo que se exclui do sistema, que se afasta do abuso e
passa a ter uma existência paralela, contando que o flagelo nunca vai alcançá-lo.
Não se discute a dimensão moral desse tipo de escolha. O fato que
não podemos ignorar é que essa "desobediência civil tolerada",
essa "resistência pela hipocrisia", está ficando grande demais e
apenas será agravada com mais imposto e mais "administração
tributária". O segundo caminho
é o das reformas, o da organização de forças políticas
em torno do combate à jabuticaba e da reorganização das finanças
públicas brasileiras em harmonia com os paradigmas internacionais. Os progressos
existem, mas têm sido muito lentos. Tal como no caso da inflação,
cujo desaparecimento poderia ter ocorrido muito antes, não há partido
que adote o fim da jabuticaba no terreno das finanças públicas,
o nosso maior desafio econômico, como o centro de seu programa. Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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