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André
Petry
O país do desamparo
"Um jovem tem a vida destruída
num
hospital público, sua família conhece
a tragédia da deficiência mental, a
Justiça age com a consciência social
dos eremitas e o Estado
atua com a
solidariedade dos ególatras"
Saiu nos jornais: finalmente, a Justiça
brasileira concedeu a um rapaz o direito de receber uma indenização
do estado de São Paulo por ter sido equivocadamente submetido
a um tratamento de choque num hospital psiquiátrico, tendo
ficado com graves seqüelas. A indenização deverá
cobrir todos os gastos com tratamentos médicos nos últimos
dezesseis anos e lhe renderá pensão mensal vitalícia.
Foi o que deu nos jornais e, apresentada assim, a notícia
parece boa.
Será?
Em 1981, na flor de seus 21 anos, Sérgio
Ricardo Junior, caçula de cinco irmãos, foi internado
no Juqueri, hospital psiquiátrico público em Franco
da Rocha, São Paulo. Devia ter recebido tratamento contra
dependência química. Em vez disso, foi submetido a
uma terapia de choque, tomou tanto remédio que beirou o envenenamento
e entrou em estado de coma prolongado. Quando recobrou a consciência,
Sérgio Ricardo Junior tinha uma atrofia cerebral irreversível.
"Era como se ele tivesse nascido naquele momento", diz uma de suas
irmãs, Sônia Maria Ricardo Roessle. Os pais do rapaz
iniciaram a dolorosa maratona de cuidar de um filho com deficiência
mental, particularmente árdua para famílias humildes
como a de Sérgio Ricardo.
Antes da fatídica internação
no Juqueri, ele sofria com o drama das drogas, mas ainda estudava
cursava a 8ª série e trabalhava como office-boy
numa empresa. Se superasse a dependência, teria uma vida inteira
pela frente. No hospital psiquiátrico, ceifaram sua vida.
Passou por várias casas psiquiátricas. Numa delas,
seu par de tênis, com o uso prolongado, chegou a apodrecer
nos seus próprios pés. Em 1989, seus pais entraram
na Justiça pedindo indenização. Tinham a imensa
esperança de que tal assistência financeira garantisse
a vida do filho. Em 1992, a mãe de Sérgio Ricardo
morreu. Oito anos mais tarde, seu pai também morreu.
Só agora, dezesseis anos depois, a
ação foi concluída. Em termos. A Justiça
entendeu que, sim, ele tem direito à indenização,
mas resta uma dúvida: qual será o valor? "É
possível que a definição do valor ainda leve
uns cinco ou seis anos", calcula Thiago d'Aurea Cioffi Santoro Biazotti,
um dos advogados de Sérgio Ricardo. Hoje, Sérgio Ricardo
tem 45 anos. Terá 50 ou 51, quando finalmente receberá
o que merece? Não é bem assim. Quando as partes chegarem
a um consenso sobre o valor, o governo de São Paulo terá
de pagar o chamado precatório, mas o governo de São
Paulo não paga um precatório há anos...
Sérgio Ricardo tem idade mental de
5 anos. Adora ir a churrascarias, tomar sorvete e comer chocolate,
como qualquer criança. Graças ao convênio médico
de outra irmã, Sérgio Ricardo vive internado num bom
hospital psiquiátrico em Itapira, em São Paulo. Mas
a irmã está para se aposentar e, quando isso acontecer,
Sérgio Ricardo perderá o convênio e a
família não tem como pagar ao hospital.
Em resumo: um jovem tem a vida destruída
num hospital público, sua família conhece de perto
a tragédia da deficiência mental, a Justiça
age com a consciência social dos eremitas, o Estado atua com
a solidariedade dos ególatras e nada muda substancialmente.
À exceção da família, alguma instituição
que cruzou a vida de Sérgio Ricardo merece o nome que tem?
Hospital? Justiça? Estado?
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