Por favor, sem essa
de "cidadania"
De como o uso abusivo e pedante de uma palavra
só contribui para a algaravia geral
É crueldade o que se tem feito com certas palavras. Tome-se
a palavra "criatividade". Tudo é criatividade
hoje em dia. Se num desfile de moda o costureiro enrola
a modelo num saco de farinha, é "criatividade".
Se um comerciante institui um prêmio para atrair clientes
a seu estabelecimento, é "criatividade". Um repórter
de TV, descrevendo a rotina tediosa dos atletas na concentração,
às vésperas da competição, dizia recentemente que eles precisavam
ser "criativos" para matar o tempo. E então mostrava
o recurso de que um deles se socorria: comia uma rapadura.
Eis a explosão de criatividade que tinha lugar naquele momento
roía-se uma rapadura. Se criatividade é isso, a pintura
de Picasso o que é? A mesma palavra não pode designar o
impulso que leva a comer rapadura e a pintar as Demoiselles
d'Avignon.
E a palavra "tradição", com sua derivada "tradicional"?
E a palavra "revolução", com a derivada "revolucionário"?
Tudo é "tradicional". Bar que passa dos três anos
de vida é "tradicional". Butique que passa dos
cinco é "tradicional". O locutor esportivo anuncia
que o público nas arquibancadas, naquele momento, faz a
"tradicional" ola. Ora, a ola, aquele movimento
de levantar e logo sentar de novo, todos juntos, imitando
onda do mar, foi inventada no México e exportada para o
mundo via TV por ocasião da Copa do Mundo de 1986. Não completou
catorze anos. Se a "ola" é tradicional, a monarquia
britânica o que é?
"Revolucionários", se fossem tantos quantos são
anunciados à nossa volta, viveríamos num mundo sem sossego,
só de solavancos. Fulano, elogia-se, "revolucionou"
a crônica social. Sicrano "revolucionou" a telenovela.
Outro revolucionou o Carnaval, sem falar na literatura,
na música, nas ciências e aqui cabe um desvio para sugerir
que tanto o uso abusivo de "revolução" quanto
o de "tradição" revelariam duas faces da mesma
moeda. Com a tradição, procura-se a continuidade, a justificação
do presente pelo passado. Com a revolução, a superação pelo
futuro. Nos dois casos presume-se mal-estar com o presente.
Tudo o que foi dito até aqui teve por objetivo introduzir
o triste caso de uma palavra que, submetida de algum tempo
a esta parte a um massacre cotidiano, está a reclamar um
gesto de piedade. A palavra em questão é "cidadania".
O oposicionista enche a boca e denuncia o desrespeito à
"cidadania". O governista estufa o peito e reitera
o compromisso com a "cidadania". A ONG, do alto
de sua neutralidade, convida à adesão à causa da "cidadania".
É a palavra mais pomposa em circulação no território nacional.
Freqüentemente se faz acompanhar de "resgate"
"resgate da cidadania", se diz, e "resgate"
é outro caso sério, mas fica para outra oportunidade.
A palavra "cidadania" está em um entre dois temas
de redação nos vestibulares: "cidadania e sociedade",
"cidadania e educação", "cidadania e...".
É sempre cidadania e alguma coisa. Também é muito cotada
para título de conferências e seminários. Acharam bonita,
caiu no gosto não do povo, que o gosto do povo é outro,
mas daqueles que no tempo de Molière eram chamados de "preciosos"
, e agora? Qual a saída?
Um bom começo seria pedir, a quem a usa, que explique o
sentido da palavra. "Cidadania", entre os gregos
e os romanos, que inventaram o conceito, era a soma dos
direitos dos mais privilegiados dos nobres, por oposição
aos plebeus, dos livres, por oposição aos escravos, dos
nacionais, por oposição aos estrangeiros. Com um pouco de
licença, mas só um pouco, pode-se concluir que "cidadão"
era quem tinha licença para oprimir o outro. Na Revolução
Francesa "cidadão" virou forma de as pessoas se
tratarem umas às outras, assim como no comunismo se tratarão
por "camarada". É um signo de igualdade. No mundo
contemporâneo, significa em primeiro lugar nacionalidade,
ou seja, cidadão brasileiro é quem pode ter passaporte brasileiro,
e em segundo o gozo de direitos políticos, ou seja, votar
e ser votado.
Já no sentido precioso de hoje em dia os significados,
ao que parece nunca se sabe bem se multiplicam. A
palavra ainda tem a ver com votar e ser votado, mas também
com participação nos negócios públicos. Tem algo com nacionalidade
e outro tanto com igualdade, mas também com dignidade, altivez,
integridade, respeito aos direitos humanos, atenção ao consumidor,
apreço ao contribuinte e, talvez mesmo, liberdade. A palavra
partiu-se em mil significados, o que equivale dizer que
não tem mais nenhum.
E daí?, dirá o leitor. Não se trataria, tudo isso, questão
apenas de gosto literário? Questão de estilo, sem efeito
prático? Desconfia-se que não. O recurso à palavra pomposa,
o palavrão bonito da moda, é sintomático da velha doença
brasileira da retórica. Pronuncia-se a palavra mágica, e
vai-se dormir em paz. O trabalho de identificar precisamente
o problema, e bem descrevê-lo, para ser atacado com êxito,
é dispensado. Vira silêncio, abafado pelo som e a fúria
da discurseira.