Edição 1 636 - 16/2/2000

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Por favor, sem essa
de "cidadania"

De como o uso abusivo e pedante de uma palavra
só contribui para a algaravia geral

É crueldade o que se tem feito com certas palavras. Tome-se a palavra "criatividade". Tudo é criatividade hoje em dia. Se num desfile de moda o costureiro enrola a modelo num saco de farinha, é "criatividade". Se um comerciante institui um prêmio para atrair clientes a seu estabelecimento, é "criatividade". Um repórter de TV, descrevendo a rotina tediosa dos atletas na concentração, às vésperas da competição, dizia recentemente que eles precisavam ser "criativos" para matar o tempo. E então mostrava o recurso de que um deles se socorria: comia uma rapadura. Eis a explosão de criatividade que tinha lugar naquele momento – roía-se uma rapadura. Se criatividade é isso, a pintura de Picasso o que é? A mesma palavra não pode designar o impulso que leva a comer rapadura e a pintar as Demoiselles d'Avignon.

E a palavra "tradição", com sua derivada "tradicional"? E a palavra "revolução", com a derivada "revolucionário"? Tudo é "tradicional". Bar que passa dos três anos de vida é "tradicional". Butique que passa dos cinco é "tradicional". O locutor esportivo anuncia que o público nas arquibancadas, naquele momento, faz a "tradicional" ola. Ora, a ola, aquele movimento de levantar e logo sentar de novo, todos juntos, imitando onda do mar, foi inventada no México e exportada para o mundo via TV por ocasião da Copa do Mundo de 1986. Não completou catorze anos. Se a "ola" é tradicional, a monarquia britânica o que é?

"Revolucionários", se fossem tantos quantos são anunciados à nossa volta, viveríamos num mundo sem sossego, só de solavancos. Fulano, elogia-se, "revolucionou" a crônica social. Sicrano "revolucionou" a telenovela. Outro revolucionou o Carnaval, sem falar na literatura, na música, nas ciências – e aqui cabe um desvio para sugerir que tanto o uso abusivo de "revolução" quanto o de "tradição" revelariam duas faces da mesma moeda. Com a tradição, procura-se a continuidade, a justificação do presente pelo passado. Com a revolução, a superação pelo futuro. Nos dois casos presume-se mal-estar com o presente.

Tudo o que foi dito até aqui teve por objetivo introduzir o triste caso de uma palavra que, submetida de algum tempo a esta parte a um massacre cotidiano, está a reclamar um gesto de piedade. A palavra em questão é "cidadania". O oposicionista enche a boca e denuncia o desrespeito à "cidadania". O governista estufa o peito e reitera o compromisso com a "cidadania". A ONG, do alto de sua neutralidade, convida à adesão à causa da "cidadania". É a palavra mais pomposa em circulação no território nacional. Freqüentemente se faz acompanhar de "resgate" –"resgate da cidadania", se diz, e "resgate" é outro caso sério, mas fica para outra oportunidade.

A palavra "cidadania" está em um entre dois temas de redação nos vestibulares: "cidadania e sociedade", "cidadania e educação", "cidadania e...". É sempre cidadania e alguma coisa. Também é muito cotada para título de conferências e seminários. Acharam bonita, caiu no gosto – não do povo, que o gosto do povo é outro, mas daqueles que no tempo de Molière eram chamados de "preciosos" –, e agora? Qual a saída?

Um bom começo seria pedir, a quem a usa, que explique o sentido da palavra. "Cidadania", entre os gregos e os romanos, que inventaram o conceito, era a soma dos direitos dos mais privilegiados – dos nobres, por oposição aos plebeus, dos livres, por oposição aos escravos, dos nacionais, por oposição aos estrangeiros. Com um pouco de licença, mas só um pouco, pode-se concluir que "cidadão" era quem tinha licença para oprimir o outro. Na Revolução Francesa "cidadão" virou forma de as pessoas se tratarem umas às outras, assim como no comunismo se tratarão por "camarada". É um signo de igualdade. No mundo contemporâneo, significa em primeiro lugar nacionalidade, ou seja, cidadão brasileiro é quem pode ter passaporte brasileiro, e em segundo o gozo de direitos políticos, ou seja, votar e ser votado.

Já no sentido precioso de hoje em dia os significados, ao que parece – nunca se sabe bem – se multiplicam. A palavra ainda tem a ver com votar e ser votado, mas também com participação nos negócios públicos. Tem algo com nacionalidade e outro tanto com igualdade, mas também com dignidade, altivez, integridade, respeito aos direitos humanos, atenção ao consumidor, apreço ao contribuinte e, talvez mesmo, liberdade. A palavra partiu-se em mil significados, o que equivale dizer que não tem mais nenhum.

E daí?, dirá o leitor. Não se trataria, tudo isso, questão apenas de gosto literário? Questão de estilo, sem efeito prático? Desconfia-se que não. O recurso à palavra pomposa, o palavrão bonito da moda, é sintomático da velha doença brasileira da retórica. Pronuncia-se a palavra mágica, e vai-se dormir em paz. O trabalho de identificar precisamente o problema, e bem descrevê-lo, para ser atacado com êxito, é dispensado. Vira silêncio, abafado pelo som e a fúria da discurseira.