Panteras da tinta
As pintoras chiques que fazem sucesso com
seus
quadros que combinam com o sofá e a cortina
Okky de Souza
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Antônio Milena

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T.T. Marques: exposições
e festas na Flórida
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Elas são bonitas, charmosas e ricas. Freqüentam
festas badaladas, aparecem nas colunas sociais e driblam
os contratempos do dia-a-dia no shopping center e no cabeleireiro.
Suas vidas poderiam ser, como define a socialite carioca
Narcisa Tamborindeguy, "uma loucuuura". Por trás
da militância como madames, no entanto, elas têm
também uma profissão: são artistas.
Integram o grupo das pintoras chiques. Suas telas, que causam
arrepios nos críticos mais respeitados e passam ao
largo das bienais, são consumidas aos lotes por decoradores
e por quem vai às galerias em busca de um quadro
que combine com o sofá e a cortina da sala. Como
essas artistas são bem relacionadas, em suas exposições
quase todas as obras são vendidas na noite do vernissage.
Os compradores incluem amigos endinheirados e parceiros
de negócios de seus maridos. Elas também vão
parar em clínicas particulares e quartos de hotéis.
Com uma demanda que não pára de aumentar,
essas artistas podem se gabar de fazer muito mais sucesso
do que os pintores que buscam romper fronteiras e inovar
com seu trabalho.
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Antônio Milena

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Katia Matias: agenda cheia de encomendas
de decoradores
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"O mercado de pintura decorativa foi dominado por artistas
com um perfil definido: donas de casa que, depois que os
filhos crescem, escolhem a pintura para se ocupar", diz
a decoradora Marina Pitanguy, que trabalha regularmente
com uma dúzia de profissionais desse tipo. A paulista
Leslie Amaral, 42 anos, é uma das que fazem mais
sucesso nesse circuito. Ela pinta apenas peixes, que considera
"símbolos da vida". Começou a pintar profissionalmente
em 1994, incentivada pelo marido, empresário do ramo
publicitário e diretor de comerciais de TV. Desde
então, segundo seus cálculos, já vendeu
250 quadros. Os preços das obras são calculados
pelo tamanho: 1.600 reais o metro
quadrado. Na exposição que montou recentemente
numa cervejaria, pendurou 26 telas e vendeu 22 no mesmo
dia. "Só um grande banqueiro ficou com dezessete",
conta. A exposição mereceu reportagem no programa
de TV Flash, do crítico de arte Amaury Jr.,
especialista naquela escola pictórica chamada jabasismo.
Foi um arranjo entre amigos: o marido da pintora fez a nova
vinheta de abertura do programa e ela, em troca, ganhou
a cobertura da mostra. Leslie gosta tanto de peixes que
tem uma criação de carpas num viveiro que
corta seu jardim. Um de seus quadros virou símbolo
da regata Whitbread, uma das mais importantes de volta ao
mundo, que há dois anos fez uma escala em São
Sebastião, no litoral paulista. De quebra, a prefeitura
de São Sebastião transformou a tela, batizada
de Peixe Whitbread, no símbolo oficial da
cidade. É a glória.
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Ricardo Benichio

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Leslie Amaral: 250 telas vendidas
em seis anos, todas com peixes como tema
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Leslie não se cansa de vender seu peixe, mas há
quem procure diversificar ao máximo os temas de suas
telas. "Sempre fui contra essa coisa de o artista ter um
estilo. Isso limita sua criação", proclama
a mineira T.T. Marques, 51 anos, que já vendeu 100
telas desde que começou a pintar profissionalmente,
em 1997. T.T. possui em casa obras de pintores famosos,
como Pancetti e Cícero Dias, mas prefere buscar inspiração
em outras paragens. Como nos frascos de perfume do costureiro
italiano Franco Moschino. Atrás de suas telas, vendidas
a 1.000 reais o metro quadrado,
T.T. gosta de escrever mensagens para o futuro proprietário
da obra. No verso de uma natureza-morta pintada no ano passado,
escreveu: "Armazene nos frascos, garrafas e copos seus segredos.
Nas xícaras, deixe exalar sua paz". T.T., além
de vender nas galerias, costuma mostrar suas obras em espaços
culturais de clubes e hotéis. Mas suas exposições
favoritas são feitas nos condomínios de Boca
Raton, na Flórida, onde possui uma casa. "Vendo todas
as obras que levo para lá, seja para os brasileiros,
seja para os americanos que gostam das festas alegres que
eu e minha turma de Boca promovemos", ela conta.
Katia Matias, 47 anos, também tem vários
decoradores e galerias de São Paulo entre seus clientes,
mas já galgou alguns degraus na carreira de artista
chique. Ela se tornou professora de pintura. Mantém
uma turma de quinze alunas, que pagam 400 reais por mês
para aprender sua técnica e ouvir seus conselhos.
"Procuro fazer com que cada uma encontre seu próprio
caminho na arte", ela diz. No Rio de Janeiro, os chamados
emergentes da Barra da Tijuca criaram um mercado inesgotável
para esse tipo de pintura. Suas casas e apartamentos são
amplos e têm muitas paredes para ser enfeitadas. Uma
das artistas mais conhecidas no bairro é Maria Augusta
Sena, 47 anos, pintora há quatro. Ela já foi
premiada em exposições que organizou na própria
Barra e atualmente se prepara para montar uma mostra num
banco. Vende de três a quatro telas por mês,
a 500 reais o metro quadrado, em galerias e também
num site da internet. "Não me envergonho de fazer
quadros de encomenda que combinem com o sofá do cliente",
afirma. O decorador Eder Meneghine, um dos favoritos dos
emergentes da Barra, conta que um curioso vínculo
já se formou entre artistas e moradores da região.
"Há gente que compra um quadro por ano de determinado
pintor apenas para continuar a ser convidada para a casa
de veraneio dele", diz Meneghine.
Naturalmente, os quadros das pintoras chiques são
alvo de desprezo e ironia por parte dos artistas considerados
sérios, aqueles que cobram mais de 10.000
reais por uma tela e vendem apenas duas por ano. Mas é
preciso entender que um mercado nada tem a ver com o outro.
Essas pintoras trabalham para um segmento específico
de público, que deseja somente enfeitar suas paredes
e não tem necessidade de "fruição estética"
ou de uma assinatura famosa. "Você vai a uma bienal
e vê aquelas telas e instalações impressionantes",
comenta Malvina Gelleni, dona da galeria Portal, em São
Paulo, especializada em pintoras chiques. "Mas quantos gostariam
de levar aquilo para casa?"