Edição 1 636 - 16/2/2000

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Panteras da tinta

As pintoras chiques que fazem sucesso com seus
quadros que combinam com o sofá e a cortina

Okky de Souza

 

Antônio Milena

T.T. Marques: exposições e festas na Flórida

Elas são bonitas, charmosas e ricas. Freqüentam festas badaladas, aparecem nas colunas sociais e driblam os contratempos do dia-a-dia no shopping center e no cabeleireiro. Suas vidas poderiam ser, como define a socialite carioca Narcisa Tamborindeguy, "uma loucuuura". Por trás da militância como madames, no entanto, elas têm também uma profissão: são artistas. Integram o grupo das pintoras chiques. Suas telas, que causam arrepios nos críticos mais respeitados e passam ao largo das bienais, são consumidas aos lotes por decoradores e por quem vai às galerias em busca de um quadro que combine com o sofá e a cortina da sala. Como essas artistas são bem relacionadas, em suas exposições quase todas as obras são vendidas na noite do vernissage. Os compradores incluem amigos endinheirados e parceiros de negócios de seus maridos. Elas também vão parar em clínicas particulares e quartos de hotéis. Com uma demanda que não pára de aumentar, essas artistas podem se gabar de fazer muito mais sucesso do que os pintores que buscam romper fronteiras e inovar com seu trabalho.

 

Antônio Milena

Katia Matias: agenda cheia de encomendas de decoradores

"O mercado de pintura decorativa foi dominado por artistas com um perfil definido: donas de casa que, depois que os filhos crescem, escolhem a pintura para se ocupar", diz a decoradora Marina Pitanguy, que trabalha regularmente com uma dúzia de profissionais desse tipo. A paulista Leslie Amaral, 42 anos, é uma das que fazem mais sucesso nesse circuito. Ela pinta apenas peixes, que considera "símbolos da vida". Começou a pintar profissionalmente em 1994, incentivada pelo marido, empresário do ramo publicitário e diretor de comerciais de TV. Desde então, segundo seus cálculos, já vendeu 250 quadros. Os preços das obras são calculados pelo tamanho: 1.600 reais o metro quadrado. Na exposição que montou recentemente numa cervejaria, pendurou 26 telas e vendeu 22 no mesmo dia. "Só um grande banqueiro ficou com dezessete", conta. A exposição mereceu reportagem no programa de TV Flash, do crítico de arte Amaury Jr., especialista naquela escola pictórica chamada jabasismo. Foi um arranjo entre amigos: o marido da pintora fez a nova vinheta de abertura do programa e ela, em troca, ganhou a cobertura da mostra. Leslie gosta tanto de peixes que tem uma criação de carpas num viveiro que corta seu jardim. Um de seus quadros virou símbolo da regata Whitbread, uma das mais importantes de volta ao mundo, que há dois anos fez uma escala em São Sebastião, no litoral paulista. De quebra, a prefeitura de São Sebastião transformou a tela, batizada de Peixe Whitbread, no símbolo oficial da cidade. É a glória.

 

Ricardo Benichio

Leslie Amaral: 250 telas vendidas em seis anos, todas com peixes como tema

Leslie não se cansa de vender seu peixe, mas há quem procure diversificar ao máximo os temas de suas telas. "Sempre fui contra essa coisa de o artista ter um estilo. Isso limita sua criação", proclama a mineira T.T. Marques, 51 anos, que já vendeu 100 telas desde que começou a pintar profissionalmente, em 1997. T.T. possui em casa obras de pintores famosos, como Pancetti e Cícero Dias, mas prefere buscar inspiração em outras paragens. Como nos frascos de perfume do costureiro italiano Franco Moschino. Atrás de suas telas, vendidas a 1.000 reais o metro quadrado, T.T. gosta de escrever mensagens para o futuro proprietário da obra. No verso de uma natureza-morta pintada no ano passado, escreveu: "Armazene nos frascos, garrafas e copos seus segredos. Nas xícaras, deixe exalar sua paz". T.T., além de vender nas galerias, costuma mostrar suas obras em espaços culturais de clubes e hotéis. Mas suas exposições favoritas são feitas nos condomínios de Boca Raton, na Flórida, onde possui uma casa. "Vendo todas as obras que levo para lá, seja para os brasileiros, seja para os americanos que gostam das festas alegres que eu e minha turma de Boca promovemos", ela conta.

Katia Matias, 47 anos, também tem vários decoradores e galerias de São Paulo entre seus clientes, mas já galgou alguns degraus na carreira de artista chique. Ela se tornou professora de pintura. Mantém uma turma de quinze alunas, que pagam 400 reais por mês para aprender sua técnica e ouvir seus conselhos. "Procuro fazer com que cada uma encontre seu próprio caminho na arte", ela diz. No Rio de Janeiro, os chamados emergentes da Barra da Tijuca criaram um mercado inesgotável para esse tipo de pintura. Suas casas e apartamentos são amplos e têm muitas paredes para ser enfeitadas. Uma das artistas mais conhecidas no bairro é Maria Augusta Sena, 47 anos, pintora há quatro. Ela já foi premiada em exposições que organizou na própria Barra e atualmente se prepara para montar uma mostra num banco. Vende de três a quatro telas por mês, a 500 reais o metro quadrado, em galerias e também num site da internet. "Não me envergonho de fazer quadros de encomenda que combinem com o sofá do cliente", afirma. O decorador Eder Meneghine, um dos favoritos dos emergentes da Barra, conta que um curioso vínculo já se formou entre artistas e moradores da região. "Há gente que compra um quadro por ano de determinado pintor apenas para continuar a ser convidada para a casa de veraneio dele", diz Meneghine.

Naturalmente, os quadros das pintoras chiques são alvo de desprezo e ironia por parte dos artistas considerados sérios, aqueles que cobram mais de 10.000 reais por uma tela e vendem apenas duas por ano. Mas é preciso entender que um mercado nada tem a ver com o outro. Essas pintoras trabalham para um segmento específico de público, que deseja somente enfeitar suas paredes e não tem necessidade de "fruição estética" ou de uma assinatura famosa. "Você vai a uma bienal e vê aquelas telas e instalações impressionantes", comenta Malvina Gelleni, dona da galeria Portal, em São Paulo, especializada em pintoras chiques. "Mas quantos gostariam de levar aquilo para casa?"