Edição 1 636 - 16/2/2000

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O país da vergonha

A reedição de dois livros de Joaquim Nabuco
traz de volta a nódoa escabrosa da escravidão

Roberto Pompeu de Toledo

 

Navio Negreiro, de Rugendas: um país cercado de opróbrio, como seria depois a África do Sul

Triste 1882. No final do ano anterior Joaquim Nabuco perdera a reeleição para a Câmara dos Deputados, ele que, cheio do entusiasmo do político iniciante, inteligente e idealista, fizera de sua cadeira parlamentar o centro nervoso de uma campanha contra a escravidão que prometia incendiar o país. Assumia agora a presidência do Conselho, cargo equivalente ao de primeiro-ministro, um político mineiro, Martinho Campos, que, como ensaio do que seria sua gestão, se declarou de saída, com muito orgulho, "escravocrata da gema". A reação escravista dava as cartas. Nesse ambiente desfavorável, desgostoso, Nabuco, aos 32 anos, opta pelo auto-exílio. Estabelece-se em Londres. E ali escreve o livro que se tornará um clássico brasileiro sobre a escravidão, O Abolicionismo, meio panfleto, meio ciência social e, por inteiro, retrato impiedoso da sociedade brasileira.

Aos 150 anos de seu nascimento, comemorados no ano passado, Nabuco tem sido bem tratado pelos editores. Recentemente suas obras máximas, Um Estadista do Império e Minha Formação, mereceram edições bem-cuidadas, ambas pela Topbooks. Agora a Nova Fronteira lança não só O Abolicionismo (240 páginas, 24 reais) como outro livrinho de Nabuco sobre o assunto, A Escravidão (132 páginas, 21 reais), escrito doze anos antes, quando era ainda estudante de direito, e jamais publicado em sua vida. A lamentar que nenhum dos dois livros seja enriquecido por notas de pé de página que ajudem a situar pessoas e eventos referidos no texto. A comemorar que sejam edições bem-feitas, em formato elegante, papel bom e capa dura. De regra, os clássicos brasileiros, mesmo os de ficção, desprezados pelas melhores editoras, não são encontráveis senão na roupagem deplorável que, por estas bandas, é a marca registrada das edições com fins didáticos.

A Escravidão, livro inacabado, só tirado da gaveta, pelos herdeiros, quase quarenta anos depois da morte do autor, mostra que as idéias que seriam desenvolvidas mais maduramente em O Abolicionismo já estavam em sua cabeça. Ainda estudante, Nabuco defendera um negro, acusado de matar o homem que o açoitara. A causa dos escravos desde então se impôs como um norte, para uma carreira política e intelectual pautada pela denúncia de um país que não podia ser, país impossível, sem futuro e sem presente, que era o país da escravidão. Nabuco percebia, e nisso era sobremodo lúcido, que a perversidade da escravidão não se exercia apenas sobre o escravo, nem sobre a relação senhor-escravo, nem mesmo sobre o atraso a que condenava a economia brasileira. Exercia-se sobre tudo. A escravidão, escreve em O Abolicionismo, "impediu o aparecimento regular da família nas camadas fundamentais do país", entre outras coisas, e "reduziu a procriação humana a um interesse venal dos senhores". Ela tomou conta de todo o corpo social. Com sua "profunda ação psicológica", "criou uma atmosfera que nos envolve e abafa a todos".

Até o idioma a escravidão contaminou. Os anúncios nos jornais, de compra e venda, aluguel, leilões ou fuga de negros, reveladores da sinistra realidade, faziam-se acompanhar do vexaminoso vocabulário correspondente: "cria", para designar o bebê escravo, "peça", para designar o escravo, "moleque", "mucama", "pardinho". Pode-se imaginar como Nabuco, nascido de família patrícia de Pernambuco, filho e neto de senadores, lido, ilustrado, viajado, já com experiências na carreira diplomática à qual voltaria a dedicar-se no fim da vida, sentia-se pessoalmente envergonhado de um país réprobo, um país bandido, objeto de censura e boicotes internacionais, como viria a ser a África do Sul, em tempos mais próximos de nós. Ao opróbrio respondia-se com o cinismo. Vendeu-se ao mundo a idéia de que com a lei de 28 de setembro de 1871, a chamada Lei do Ventre Livre, a escravidão recebera seu golpe definitivo. Agora era apenas questão de tempo. A morte acabaria com os escravos remanescentes. Não fosse a crueldade de não ter levado em conta os escravos já nascidos, a verdade é que a lei, ao libertar os bebês, dali em diante chamados "ingênuos", estabeleceu ao mesmo tempo que até os 21 anos eles permaneceriam em poder e às ordens do senhor. Na prática, até essa data, continuavam escravos. Até vendidos podiam ser. Nabuco fez as contas. Imaginou uma mulher nascida a 27 de setembro de 1871, véspera da promulgação da lei, e portanto sem se beneficiar dela, que tivesse um filho aos 40 anos, em 1911. Esse filho, ingênuo, seria na prática um escravo até os 21 anos. Portanto, até 1932 o Brasil teria escravos.

Nabuco já foi, e continua a ser, criticado por vários motivos. Foi acusado de ter uma sensibilidade européia, aristocrática e superior, o que o fazia por vezes sentir-se estrangeiro em seu próprio país, como ele próprio confessa em Minha Formação. Há laivos racistas em A Escravidão e O Abolicionismo. Numa das mais célebres passagens deste último livro, ele afirma que a "africanização do Brasil" é "uma nódoa" que Portugal imprimiu "na sua própria face, na sua língua e na única obra nacional verdadeiramente duradoura que conseguiu fundar". Seu sonho era um país como o Canadá ou a Austrália, irrigado pelo "sangue caucásio", "enérgico e sadio". Diga-se a seu favor que virtualmente todos os intelectuais brasileiros da época eram racistas, e nem todos contrabalançavam tal traço pela generosidade com que Nabuco se lançou à causa dos escravos. Nabuco continua um farol, na História brasileira. Um farol do fim do século XIX, assim como José Bonifácio foi um farol do início do mesmo século, este mais forte ainda por ter defendido muito antes, quando ninguém defendia, a idéia de que, com a escravidão, o país não daria certo. Os dois foram derrotados. José Bonifácio, a quem Nabuco presta diversas homenagens, nos livros aqui referidos, foi exilado, proscrito, afastado da vida pública. Nabuco foi cercado de glórias até o fim, mas a Abolição veio muito mais tarde do que ele desejaria, vergonhosamente tarde, e desacompanhada da distribuição de terra que, como José Bonifácio, preconizava. Perderam os dois, e o Brasil com eles.

 

Trechos de O Abolicionismo

 

Nabuco: um farol que honra o Brasil, no fim do século XIX, como José Bonifácio no começo

"Tudo o que significa luta do homem com a natureza, conquista do solo para habitação e cultura, estradas e edifícios, canaviais e cafezais (...), tudo, o que existe no país, como resultado do trabalho manual, como emprego de capital, como acumulação de riqueza, não passa de uma doação gratuita da raça que trabalha à que faz trabalhar."

"A lei de um país só poderia, em tese, sancionar a escravidão de seus nacionais, não a de estrangeiros. (...) Se [a lei brasileira] o pode fazer com africanos, pode fazê-lo com ingleses, franceses, alemães."

"Em regra o senhor pode tudo. Se quiser ter o escravo fechado perpetuamente dentro de casa, pode fazê-lo; se quiser privá-lo de formar família, pode fazê-lo; se, tendo ele mulher e filhos, quiser que eles não se vejam e não se falem, se quiser mandar que o filho açoite a mãe, apropriar-se da filha para fins imorais, pode fazê-lo."

"Qualquer indivíduo que saia da Casa de Correção ou esteja dentro dela, por mais perverso que seja, brasileiro ou estrangeiro, pode possuir ou comprar uma família de escravos respeitáveis e honestos, e sujeitá-los aos seus caprichos."

"Diz-se que entre nós a escravidão é suave. (...) Ela só pode ser administrada com brandura relativa quando os escravos obedecem cegamente e sujeitam-se a tudo; a menor reflexão destes, porém, desperta em toda a sua ferocidade o monstro adormecido. É que a escravidão só pode existir pelo terror absoluto infundido na alma do homem."