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O país da vergonha
A reedição de dois livros
de Joaquim Nabuco
traz de volta a nódoa escabrosa da escravidão
Roberto Pompeu de Toledo
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Navio Negreiro,
de Rugendas: um
país cercado de opróbrio, como seria
depois a África do Sul
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Triste 1882. No final do ano anterior Joaquim Nabuco perdera
a reeleição para a Câmara dos Deputados,
ele que, cheio do entusiasmo do político iniciante,
inteligente e idealista, fizera de sua cadeira parlamentar
o centro nervoso de uma campanha contra a escravidão
que prometia incendiar o país. Assumia agora a presidência
do Conselho, cargo equivalente ao de primeiro-ministro,
um político mineiro, Martinho Campos, que, como ensaio
do que seria sua gestão, se declarou de saída,
com muito orgulho, "escravocrata da gema". A reação
escravista dava as cartas. Nesse ambiente desfavorável,
desgostoso, Nabuco, aos 32 anos, opta pelo auto-exílio.
Estabelece-se em Londres. E ali escreve o livro que se tornará
um clássico brasileiro sobre a escravidão,
O Abolicionismo, meio panfleto, meio ciência
social e, por inteiro, retrato impiedoso da sociedade brasileira.
Aos
150 anos de seu nascimento, comemorados no ano passado,
Nabuco tem sido bem tratado pelos editores. Recentemente
suas obras máximas, Um Estadista do Império
e Minha Formação, mereceram edições
bem-cuidadas, ambas pela Topbooks. Agora a Nova Fronteira
lança não só O Abolicionismo
(240 páginas, 24 reais) como outro livrinho
de Nabuco sobre o assunto, A Escravidão (132
páginas, 21 reais), escrito doze anos antes, quando
era ainda estudante de direito, e jamais publicado em sua
vida. A lamentar que nenhum dos dois livros seja enriquecido
por notas de pé de página que ajudem a situar
pessoas e eventos referidos no texto. A comemorar que sejam
edições bem-feitas, em formato elegante, papel
bom e capa dura. De regra, os clássicos brasileiros,
mesmo os de ficção, desprezados pelas melhores
editoras, não são encontráveis senão
na roupagem deplorável que, por estas bandas, é
a marca registrada das edições com fins didáticos.
A
Escravidão, livro inacabado, só tirado
da gaveta, pelos herdeiros, quase quarenta anos depois da
morte do autor, mostra que as idéias que seriam desenvolvidas
mais maduramente em O Abolicionismo já estavam
em sua cabeça. Ainda estudante, Nabuco defendera
um negro, acusado de matar o homem que o açoitara.
A causa dos escravos desde então se impôs como
um norte, para uma carreira política e intelectual
pautada pela denúncia de um país que não
podia ser, país impossível, sem futuro e sem
presente, que era o país da escravidão. Nabuco
percebia, e nisso era sobremodo lúcido, que a perversidade
da escravidão não se exercia apenas sobre
o escravo, nem sobre a relação senhor-escravo,
nem mesmo sobre o atraso a que condenava a economia brasileira.
Exercia-se sobre tudo. A escravidão, escreve em O
Abolicionismo, "impediu o aparecimento regular da família
nas camadas fundamentais do país", entre outras coisas,
e "reduziu a procriação humana a um interesse
venal dos senhores". Ela tomou conta de todo o corpo social.
Com sua "profunda ação psicológica",
"criou uma atmosfera que nos envolve e abafa a todos".
Até o idioma a escravidão contaminou. Os
anúncios nos jornais, de compra e venda, aluguel,
leilões ou fuga de negros, reveladores da sinistra
realidade, faziam-se acompanhar do vexaminoso vocabulário
correspondente: "cria", para designar o bebê escravo,
"peça", para designar o escravo, "moleque", "mucama",
"pardinho". Pode-se imaginar como Nabuco, nascido de família
patrícia de Pernambuco, filho e neto de senadores,
lido, ilustrado, viajado, já com experiências
na carreira diplomática à qual voltaria a
dedicar-se no fim da vida, sentia-se pessoalmente envergonhado
de um país réprobo, um país bandido,
objeto de censura e boicotes internacionais, como viria
a ser a África do Sul, em tempos mais próximos
de nós. Ao opróbrio respondia-se com o cinismo.
Vendeu-se ao mundo a idéia de que com a lei de 28
de setembro de 1871, a chamada Lei do Ventre Livre, a escravidão
recebera seu golpe definitivo. Agora era apenas questão
de tempo. A morte acabaria com os escravos remanescentes.
Não fosse a crueldade de não ter levado em
conta os escravos já nascidos, a verdade é
que a lei, ao libertar os bebês, dali em diante chamados
"ingênuos", estabeleceu ao mesmo tempo que até
os 21 anos eles permaneceriam em poder e às ordens
do senhor. Na prática, até essa data, continuavam
escravos. Até vendidos podiam ser. Nabuco fez as
contas. Imaginou uma mulher nascida a 27 de setembro de
1871, véspera da promulgação da lei,
e portanto sem se beneficiar dela, que tivesse um filho
aos 40 anos, em 1911. Esse filho, ingênuo, seria na
prática um escravo até os 21 anos. Portanto,
até 1932 o Brasil teria escravos.
Nabuco já foi, e continua a ser, criticado por
vários motivos. Foi acusado de ter uma sensibilidade
européia, aristocrática e superior, o que
o fazia por vezes sentir-se estrangeiro em seu próprio
país, como ele próprio confessa em Minha
Formação. Há laivos racistas em
A Escravidão e O Abolicionismo. Numa
das mais célebres passagens deste último livro,
ele afirma que a "africanização do Brasil"
é "uma nódoa" que Portugal imprimiu "na sua
própria face, na sua língua e na única
obra nacional verdadeiramente duradoura que conseguiu fundar".
Seu sonho era um país como o Canadá ou a Austrália,
irrigado pelo "sangue caucásio", "enérgico
e sadio". Diga-se a seu favor que virtualmente todos os
intelectuais brasileiros da época eram racistas,
e nem todos contrabalançavam tal traço pela
generosidade com que Nabuco se lançou à causa
dos escravos. Nabuco continua um farol, na História
brasileira. Um farol do fim do século XIX, assim
como José Bonifácio foi um farol do início
do mesmo século, este mais forte ainda por ter defendido
muito antes, quando ninguém defendia, a idéia
de que, com a escravidão, o país não
daria certo. Os dois foram derrotados. José Bonifácio,
a quem Nabuco presta diversas homenagens, nos livros aqui
referidos, foi exilado, proscrito, afastado da vida pública.
Nabuco foi cercado de glórias até o fim, mas
a Abolição veio muito mais tarde do que ele
desejaria, vergonhosamente tarde, e desacompanhada da distribuição
de terra que, como José Bonifácio, preconizava.
Perderam os dois, e o Brasil com eles.
Trechos de O Abolicionismo
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Nabuco: um farol
que honra o Brasil, no fim do século
XIX, como José Bonifácio no começo
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"Tudo o que significa luta do homem com a natureza,
conquista do solo para habitação e cultura,
estradas e edifícios, canaviais e cafezais
(...), tudo, o que existe no país, como resultado
do trabalho manual, como emprego de capital, como
acumulação de riqueza, não passa
de uma doação gratuita da raça
que trabalha à que faz trabalhar."
"A lei de um país só poderia, em tese,
sancionar a escravidão de seus nacionais, não
a de estrangeiros. (...) Se [a lei brasileira] o pode
fazer com africanos, pode fazê-lo com ingleses,
franceses, alemães."
"Em regra o senhor pode tudo. Se quiser ter o escravo
fechado perpetuamente dentro de casa, pode fazê-lo;
se quiser privá-lo de formar família,
pode fazê-lo; se, tendo ele mulher e filhos,
quiser que eles não se vejam e não se
falem, se quiser mandar que o filho açoite
a mãe, apropriar-se da filha para fins imorais,
pode fazê-lo."
"Qualquer indivíduo que saia da Casa de Correção
ou esteja dentro dela, por mais perverso que seja,
brasileiro ou estrangeiro, pode possuir ou comprar
uma família de escravos respeitáveis
e honestos, e sujeitá-los aos seus caprichos."
"Diz-se que entre nós a escravidão
é suave. (...) Ela só pode ser administrada
com brandura relativa quando os escravos obedecem
cegamente e sujeitam-se a tudo; a menor reflexão
destes, porém, desperta em toda a sua ferocidade
o monstro adormecido. É que a escravidão
só pode existir pelo terror absoluto infundido
na alma do homem."
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