Gato por lebre
O Talentoso Ripley seduz,
mas falsifica o personagem
Isabela Boscov
Em 1955, na década mais moralista do século XX, a escritora
americana Patricia Highsmith concebeu um personagem que,
até hoje, passaria com nota máxima num teste de amoralidade:
Tom Ripley, um zé-ninguém com excepcional talento para imitar,
forjar e fingir. Graças a esses dons, e à sua visão pragmática
do homicídio, ele poderá afinal abandonar a vida medíocre
que tanto detesta e se reinventar. Agora Ripley retorna
ao cinema, onde esteve antes na pele de Alain Delon e de
Dennis Hopper. Mas volta diferente. Primeiro, porque ostenta
o sorriso impecável de Matt Damon, um bom ator, mas cuja
fachada não combina com um sujeito tão sub-reptício. Depois,
porque em O Talentoso Ripley (The Talented Mr.
Ripley, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira
em circuito nacional, o protagonista sofre com um sentimento
que sua criadora nunca atribuiu a ele: culpa. Até pesadelos
ele tem. "No cinema o espectador é refém do diretor,
por isso a nossa responsabilidade moral é maior", justificou
a VEJA o diretor Anthony Minghella, que ganhou nove Oscar
com O Paciente Inglês e assina esta adaptação.
No geral, a trama é fiel ao original. Um milionário envia
Tom à Itália para convencer seu filho a voltar para casa,
em vez de ficar esbanjando a fortuna da família. Tom, porém,
se fascina com a boa vida do rapaz e de sua namorada (vividos
por Jude Law e Gwyneth Paltrow). Quer ser igual a eles.
Quer tanto que mata para assumir uma nova identidade, submergindo
numa rede de intrigas que demanda cada vez mais falsificações.
Novamente, Minghella exibe desenvoltura atrás da câmara,
filmando uma Itália gloriosamente sedutora. É pouco em troca
de uma grande perda: a da premeditação e impunidade que
tornavam o personagem tão subversivo. Ripley, agora, apenas
finge ser Ripley.