Edição 1 636 - 16/2/2000

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Ele conseguiu

Pasme: Guilherme Fontes pode
gastar mais dinheiro público

Celso Masson

A novela Guilherme Fontes teve, na semana passada, um desfecho do tipo morde-e-assopra. Na terça-feira 8, o Ministério da Cultura emitiu um comunicado dizendo que o diretor não precisa de mais nenhuma tomada para concluir Chatô. Do jeito que está, o filme pode ser perfeitamente entendido. Falta apenas a "finalização", como é chamado o processo técnico que o torna apto a ser exibido nos cinemas. Aparentemente, é tudo o que Guilherme não queria ouvir. Ele declarou em entrevistas que ainda faltava filmar 15% das cenas, e com isso pleiteava mais 3 milhões de reais. O ministério, no entanto, deu uma alternativa a Guilherme. Caso ele queira arranjar mais dinheiro, poderá fazê-lo por meio de outra empresa. O diretor está impedido de captar dinheiro público, em seu nome, por duas razões: o prazo que tinha para isso venceu em dezembro e, pior, Fontes está sendo investigado pela Comissão de Valores Mobiliários, que suspeita das contas de Chatô.

A solução é perfeitamente legal. Um decreto de 1993, sancionado pelo então presidente Itamar Franco, permite que um projeto audiovisual não entregue no prazo possa ser concluído por outro produtor, a ser escolhido por quem colocou dinheiro na empreitada. A história, no entanto, deixa a nu a precariedade da Lei do Audiovisual, que neste episódio premia, mais uma vez, a prodigalidade e a incompetência. Guilherme Fontes captou quase 9 milhões de reais, cifra altíssima para um filme nacional. Segundo parte de sua equipe, ele administrou mal o dinheiro. Para filmar a cena do baile de Chatô na embaixada brasileira em Londres, por exemplo, Fontes conseguiu, de graça, uma locação de primeira: um castelo na França. Em vez de filmar lá dentro, no entanto, preferiu fazer uma festa ao ar livre. Construiu todo o cenário nos jardins do castelo.

O Ministério da Cultura tenta minimizar a farra com dinheiro público brandindo uma estatística segundo a qual o cinema brasileiro teria tido um crescimento de público de 100% entre 1998 e 1999. Trata-se de uma manipulação. É verdade que o cinema nacional vendeu 5,4 milhões de ingressos em 1999, mas, desse total, 3,5 milhões de espectadores correspondem a produções que não precisariam de auxílio do governo para chegar às telas, como as de Xuxa, Angélica e Renato Aragão. O mais sensato no caso de Guilherme Fontes seria que o diretor fosse obrigado a conseguir a quantia que falta por conta própria, assumindo os riscos daí decorrentes. O governo, no entanto, achou uma brecha para que ele continuasse gastando o seu, o meu, o nosso dinheiro em Chatô. Torça para que o filme seja muito bom. Você está pagando caríssimo por ele.