Ele conseguiu
Pasme: Guilherme Fontes pode
gastar mais dinheiro público
Celso Masson
A novela Guilherme Fontes teve, na semana passada, um desfecho
do tipo morde-e-assopra. Na terça-feira 8, o Ministério
da Cultura emitiu um comunicado dizendo que o diretor não
precisa de mais nenhuma tomada para concluir Chatô.
Do jeito que está, o filme pode ser perfeitamente entendido.
Falta apenas a "finalização", como é chamado o
processo técnico que o torna apto a ser exibido nos cinemas.
Aparentemente, é tudo o que Guilherme não queria ouvir.
Ele declarou em entrevistas que ainda faltava filmar 15%
das cenas, e com isso pleiteava mais 3 milhões de reais.
O ministério, no entanto, deu uma alternativa a Guilherme.
Caso ele queira arranjar mais dinheiro, poderá fazê-lo por
meio de outra empresa. O diretor está impedido de captar
dinheiro público, em seu nome, por duas razões: o prazo
que tinha para isso venceu em dezembro e, pior, Fontes está
sendo investigado pela Comissão de Valores Mobiliários,
que suspeita das contas de Chatô.
A solução é perfeitamente legal. Um decreto de 1993, sancionado
pelo então presidente Itamar Franco, permite que um projeto
audiovisual não entregue no prazo possa ser concluído por
outro produtor, a ser escolhido por quem colocou dinheiro
na empreitada. A história, no entanto, deixa a nu a precariedade
da Lei do Audiovisual, que neste episódio premia, mais uma
vez, a prodigalidade e a incompetência. Guilherme Fontes
captou quase 9 milhões de reais, cifra altíssima para um
filme nacional. Segundo parte de sua equipe, ele administrou
mal o dinheiro. Para filmar a cena do baile de Chatô na
embaixada brasileira em Londres, por exemplo, Fontes conseguiu,
de graça, uma locação de primeira: um castelo na França.
Em vez de filmar lá dentro, no entanto, preferiu fazer uma
festa ao ar livre. Construiu todo o cenário nos jardins
do castelo.
O Ministério da Cultura tenta minimizar a farra com dinheiro
público brandindo uma estatística segundo a qual o cinema
brasileiro teria tido um crescimento de público de 100%
entre 1998 e 1999. Trata-se de uma manipulação. É verdade
que o cinema nacional vendeu 5,4 milhões de ingressos em
1999, mas, desse total, 3,5 milhões de espectadores correspondem
a produções que não precisariam de auxílio do governo para
chegar às telas, como as de Xuxa, Angélica e Renato Aragão.
O mais sensato no caso de Guilherme Fontes seria que o diretor
fosse obrigado a conseguir a quantia que falta por conta
própria, assumindo os riscos daí decorrentes. O governo,
no entanto, achou uma brecha para que ele continuasse gastando
o seu, o meu, o nosso dinheiro em Chatô. Torça para
que o filme seja muito bom. Você está pagando caríssimo
por ele.