Dona de casa e... com orgulho
Por que algumas mulheres preferem cuidar
da casa, do marido, dos filhos e delas próprias a
trabalhar
Tatiana Chiari
Antonio Milena
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Erica e sua filha Camila: medo
no começo
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Enquanto era solteira, a paulista Erica Lolli Domingues
dava expediente como gerente de loja num shopping center
da capital. Morava sozinha, bancava as próprias despesas
e não dependia dos pais. Quando se casou, há
dois anos, decidiu mudar de vida e parou de trabalhar. Virou
dona de casa. É ela quem administra as contas a pagar,
coordena o trabalho da empregada, cuida da horta e do jardim
e dedica a maior parte do tempo a sua filha, Camila, de
8 meses. A idéia foi discutida com o marido, dono
de um depósito de material de construção,
e num primeiro momento assustou Erica. Virar uma mulher
"do lar"? Repetir o que fizeram sua avó e sua mãe?
"Tive medo no começo, imaginei o que as pessoas iriam
dizer", conta. "Hoje estou realizada, gosto do meu novo
cotidiano e não sinto falta do trabalho."
A
mineira Fabiana Pacheco de Souza Silva passou por um processo
de adaptação semelhante. Casada com um empresário
do ramo de comércio exterior, ela resolveu entregar-se
com mais intensidade ao que define como "papel de esposa"
e também não trabalha mais. A decisão
foi tomada sem a interferência do marido. Quando deixou
seu emprego em uma escola em Belo Horizonte, depois de se
formar em letras e fazer pós-graduação
em literatura brasileira e psicopedagogia, Fabiana se espantou
com o tempo livre. Antes, não tinha um minuto para
nada. De repente, sua agenda estava vazia. Em poucas semanas,
no entanto, aprendeu a preencher seus horários com
algo muito precioso: ela mesma. Como estava acima do peso,
matriculou-se numa academia de ginástica e perdeu
15 quilos. Passou a dedicar horas de seu dia a leituras
e ao hobby de assistir a vídeos na TV. Se ela sente
falta da época na escola? Não. "Hoje posso
pensar muito mais em mim e em meu casamento", conta Fabiana.
Choque feminista Erica e Fabiana seriam expulsas
de qualquer reunião com feministas radicais. O comportamento
das duas é o oposto do que o movimento espera da
chamada mulher moderna, aquela que convive com os homens,
mas não depende deles ou pelo menos luta para
romper essa relação de dependência.
Desde o início do século XX, as mulheres têm
colecionado vitórias no campo sexual, familiar e
profissional. Depois de conquistar o direito ao voto (em
1932, no caso do Brasil) e ao trabalho, o feminismo passou
a pregar nos anos 60 a igualdade de direitos entre homens
e mulheres. A imagem da dona de casa ficou associada a uma
condição de vida inferior. E o mínimo
que se espera da mulher é que ela vá disputar
com os homens os postos de chefia nas empresas.
Nesse cenário, como entender que algumas mulheres
decidam "abandonar a luta" e trilhar o caminho de volta?
Em primeiro lugar, é preciso fazer uma diferenciação.
Seria injusto dizer que essas mulheres estão fazendo
o mesmo que suas avós e mães. Antigamente,
elas não trabalhavam ou porque eram proibidas pelos
pais ou marido ou porque não tinham formação
profissional adequada. Hoje em dia, é inimaginável
que uma mulher esclarecida se sujeite a receber ordens desse
tipo. Quanto à capacitação profissional,
entre as que optam por não trabalhar estão
publicitárias, advogadas, professoras universitárias.
Ou seja, não trabalham porque não querem
não porque não podem.
A compreensão que se dá ao movimento de
volta ao lar é dupla. Uma ala feminista atenta aos
sinais que a decisão pode passar para as futuras
gerações de mulheres está muito preocupada.
"Voltar para casa representa uma acomodação
momentânea, mas pode ser o retorno a um modelo que
já se mostrou falido", afirma a historiadora e antropóloga
Norma Telles, da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. Outra ala, a que pertence a psicóloga
Maria da Conceição Uvaldo, professora da área
de orientação profissional do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo, notou que
as novas donas de casa não estão muito preocupadas
em passar mensagens para as futuras gerações.
Querem sobretudo uma qualidade de vida melhor hoje. Elas
teriam concluído que um emprego e um salário
no final do mês nem sempre trazem felicidade. É
a mesma conclusão a que chegam os homens, seguida
do mesmo desejo, de parar de trabalhar. Ocorre que o histórico
cultural da sociedade só admite que elas façam
isso. "Essas mulheres sofrem preconceito, mas são
muito invejadas", afirma Maria da Conceição.
A vez do dono de casa
Ele acorda cedo, faz o café da manhã,
arruma os filhos para a escola, lava a louça,
passa a roupa, corta a grama do jardim e prepara o
jantar. A última novidade familiar dos Estados
Unidos é o dono de casa, aquele que cuida do
lar enquanto a mulher trabalha. As revistas femininas
americanas dedicaram algumas reportagens ao assunto.
Uma delas, a Fit Pregnancy, discutiu em sua
edição deste mês como essa configuração
familiar influencia a educação dos filhos.
São várias as razões que mantêm
esses homens em casa. Alguns estão desempregados.
Outros não têm ambição
profissional. Como suas mulheres estão bem
colocadas no mercado, aproveitam a oportunidade para
fazer o que gostam.
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