Edição 1 636 - 16/2/2000

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Dona de casa e... com orgulho

Por que algumas mulheres preferem cuidar da casa, do marido, dos filhos e delas próprias a trabalhar

Tatiana Chiari

 
Antonio Milena

Erica e sua filha Camila: medo no começo


Enquanto era solteira, a paulista Erica Lolli Domingues dava expediente como gerente de loja num shopping center da capital. Morava sozinha, bancava as próprias despesas e não dependia dos pais. Quando se casou, há dois anos, decidiu mudar de vida e parou de trabalhar. Virou dona de casa. É ela quem administra as contas a pagar, coordena o trabalho da empregada, cuida da horta e do jardim e dedica a maior parte do tempo a sua filha, Camila, de 8 meses. A idéia foi discutida com o marido, dono de um depósito de material de construção, e num primeiro momento assustou Erica. Virar uma mulher "do lar"? Repetir o que fizeram sua avó e sua mãe? "Tive medo no começo, imaginei o que as pessoas iriam dizer", conta. "Hoje estou realizada, gosto do meu novo cotidiano e não sinto falta do trabalho."

A mineira Fabiana Pacheco de Souza Silva passou por um processo de adaptação semelhante. Casada com um empresário do ramo de comércio exterior, ela resolveu entregar-se com mais intensidade ao que define como "papel de esposa" e também não trabalha mais. A decisão foi tomada sem a interferência do marido. Quando deixou seu emprego em uma escola em Belo Horizonte, depois de se formar em letras e fazer pós-graduação em literatura brasileira e psicopedagogia, Fabiana se espantou com o tempo livre. Antes, não tinha um minuto para nada. De repente, sua agenda estava vazia. Em poucas semanas, no entanto, aprendeu a preencher seus horários com algo muito precioso: ela mesma. Como estava acima do peso, matriculou-se numa academia de ginástica e perdeu 15 quilos. Passou a dedicar horas de seu dia a leituras e ao hobby de assistir a vídeos na TV. Se ela sente falta da época na escola? Não. "Hoje posso pensar muito mais em mim e em meu casamento", conta Fabiana.

Choque feminista – Erica e Fabiana seriam expulsas de qualquer reunião com feministas radicais. O comportamento das duas é o oposto do que o movimento espera da chamada mulher moderna, aquela que convive com os homens, mas não depende deles – ou pelo menos luta para romper essa relação de dependência. Desde o início do século XX, as mulheres têm colecionado vitórias no campo sexual, familiar e profissional. Depois de conquistar o direito ao voto (em 1932, no caso do Brasil) e ao trabalho, o feminismo passou a pregar nos anos 60 a igualdade de direitos entre homens e mulheres. A imagem da dona de casa ficou associada a uma condição de vida inferior. E o mínimo que se espera da mulher é que ela vá disputar com os homens os postos de chefia nas empresas.

Nesse cenário, como entender que algumas mulheres decidam "abandonar a luta" e trilhar o caminho de volta? Em primeiro lugar, é preciso fazer uma diferenciação. Seria injusto dizer que essas mulheres estão fazendo o mesmo que suas avós e mães. Antigamente, elas não trabalhavam ou porque eram proibidas pelos pais ou marido ou porque não tinham formação profissional adequada. Hoje em dia, é inimaginável que uma mulher esclarecida se sujeite a receber ordens desse tipo. Quanto à capacitação profissional, entre as que optam por não trabalhar estão publicitárias, advogadas, professoras universitárias. Ou seja, não trabalham porque não querem – não porque não podem.

A compreensão que se dá ao movimento de volta ao lar é dupla. Uma ala feminista atenta aos sinais que a decisão pode passar para as futuras gerações de mulheres está muito preocupada. "Voltar para casa representa uma acomodação momentânea, mas pode ser o retorno a um modelo que já se mostrou falido", afirma a historiadora e antropóloga Norma Telles, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Outra ala, a que pertence a psicóloga Maria da Conceição Uvaldo, professora da área de orientação profissional do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, notou que as novas donas de casa não estão muito preocupadas em passar mensagens para as futuras gerações. Querem sobretudo uma qualidade de vida melhor hoje. Elas teriam concluído que um emprego e um salário no final do mês nem sempre trazem felicidade. É a mesma conclusão a que chegam os homens, seguida do mesmo desejo, de parar de trabalhar. Ocorre que o histórico cultural da sociedade só admite que elas façam isso. "Essas mulheres sofrem preconceito, mas são muito invejadas", afirma Maria da Conceição.

 

A vez do dono de casa

Ele acorda cedo, faz o café da manhã, arruma os filhos para a escola, lava a louça, passa a roupa, corta a grama do jardim e prepara o jantar. A última novidade familiar dos Estados Unidos é o dono de casa, aquele que cuida do lar enquanto a mulher trabalha. As revistas femininas americanas dedicaram algumas reportagens ao assunto.

Uma delas, a Fit Pregnancy, discutiu em sua edição deste mês como essa configuração familiar influencia a educação dos filhos. São várias as razões que mantêm esses homens em casa. Alguns estão desempregados. Outros não têm ambição profissional. Como suas mulheres estão bem colocadas no mercado, aproveitam a oportunidade para fazer o que gostam.