Edição 1 636 - 16/2/2000

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A Arisco é vendida por meio bilhão de dólares
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Empresas

Beijinho e tchau

Empresário goiano vende Arisco a
americanos por meio bilhão de dólares

César Nogueira

Na semana passada, o empresário goiano João Alves de Queiroz Filho fechou o maior negócio da história da indústria de alimentos no Brasil. Vendeu a Arisco, uma potência do setor, aos controladores americanos de sua concorrente Refinações de Milho Brasil, a Bestfoods. Com essa transação, no valor de 490 milhões de dólares, Júnior, como é conhecido no meio empresarial, estufou a carteira e fechou com louvor uma trajetória que deixava boquiabertos os especialistas em negócios. Embora seja o personagem principal desta reportagem, o leitor não vai encontrar nestas páginas nenhuma foto de João Alves de Queiroz Filho. Em nome da segurança, ele é avesso à exposição pública. Não esconde, porém, o breviário que usou para fazer bons negócios vendendo tempero para comida. Uma de suas máximas: "Paredes e máquinas não valem nada. O que vale é a marca e a distribuição", afirma.

Com idéias desse tipo e muito dinheiro no bolso, Júnior não vai ficar parado. Está de olho nas privatizações dos setores de energia e telefonia. "Tudo que for serviços me interessa", diz. Mas, enquanto não se aventurar por outras áreas, o empresário continuará dando expediente no escritório da Arisco, como consultor dos novos controladores da empresa. "Ele vai nos assessorar nos próximos três anos", diz Bráulio Marchio, executivo da Bestfoods que vai presidir a Arisco daqui para a frente. A Bestfoods é uma potência. Fatura quase 9 bilhões de dólares por ano, dos quais 6 bilhões vêm de operações fora dos Estados Unidos, onde está sediada. Por intermédio de sua subsidiária no Brasil, a Refinações de Milho Brasil, ela opera com marcas fortíssimas, como Hellmann's, Knorr, Mazola e Maizena. Vendeu 700 milhões de reais em 1999. Tem muito a aprender com o criador da Arisco. A especialidade da Arisco, com arsenal de mais de 200 produtos e faturamento de 1 bilhão de reais, é justamente a banda do consumo popular. "Rico faz regime. Quem enche o pratão de comida é o pobre", diz Júnior.

É por essas e outras idéias que a Arisco teve a trajetória de um foguete. O valor pago pela Bestfoods é um recibo do sucesso da gestão de Júnior, que tem 46 anos e dirige a empresa desde os 18. A bolada de dólares que recebeu dos americanos poderia ter sido ainda maior, não fossem algumas seqüelas da desvalorização cambial que pegou a empresa desprevenida no início do ano passado e inchou suas dívidas em dólar. Além dos 490 milhões de dólares pagos pela Arisco – 100 milhões vão para o banco Goldman Sachs, sócio da empresa –, a Bestfoods está assumindo outros 262 milhões de dólares em papagaios internacionais que estarão vencendo nos próximos cinco anos. O valor total da transação, portanto, é de 752 milhões de dólares. Para se ter uma idéia do que isso significa, a venda das empresas Lacta, Batavo, Peixe, Etti e Cica, que ocorreram desde 1993, somaram cerca de 500 milhões de dólares.

O produto final fica mais espantoso quando se olha a origem da Arisco. Há trinta anos, a empresa vendia sal e arame farpado no interior de Goiás. Chamava-se Produtos Cometa e valia quase zero. A sorte grande começou a brilhar no início dos anos 70, quando o pai de Júnior, João Alves de Queiroz, comprou as máquinas de um cliente em dificuldades, um pequeno fabricante de temperos à base de sal, vendidos sob o nome Arisco. Os Queiroz perceberam que, depois de temperado com alho, salsinha, cebola e colocado em copinhos, o mesmo sal podia ser posto no mercado por preço dez vezes maior. Outras circunstâncias ajudaram a empurrar os negócios. Nos anos 80, Júnior e o pai convenceram o governador de Goiás, Iris Rezende, a dar incentivos à Arisco para que montasse uma fábrica de concentrados de tomate no Estado. Conseguiram cinco anos de prazo para pagar o ICMS, juros baixos e quase nenhuma correção monetária. Uma vantagem e tanto. Na seqüência, a Cica entrou em concordata e a Arisco, que lhe fornecia o concentrado de tomate, pôde lançar o produto com sua própria marca.

A Arisco é o resultado de uma estratégia empresarial muito precisa. A empresa cresceu muito, abrindo a cotoveladas mercados dominados por gigantes da indústria de alimentos. Havia nisso um cálculo. A Arisco trabalhava para ser a segunda do país no setor de alimentos, lançando para os consumidores uma opção barata de produtos consagrados. Foi assim que desafiou companhias bem maiores que ela. Criou o achocolatado Mágico para enfrentar o Nescau, da Nestlé, e hoje tem 6,5% do mercado. Os caldos de carne e frango da Arisco, que entraram na dividida com Knorr, da Refinações de Milho Brasil, e Maggi, da Nestlé, respondem por 18,4% do consumo. O refresco em pó Frisco, que surgiu para bater chapa com o Tang, da Kraft-Suchard, divisão da Philip Morris, conquistou 19% das vendas. Nos atomatados, concorrendo com a Cica, que foi adquirida em 1993 pela Gessy Lever, a Arisco hoje responde por quase 30%.

A receita deu certo porque foi preparada com dois ingredientes essenciais. Primeiro, preços baixos. Para fazer isso, a Arisco, sob o comando de Júnior, terceirizou boa parte de sua produção, quando ninguém falava em estratagemas desse tipo para reduzir custos. Segundo, investiu sem dó em propaganda. Em média, algo como 10% do faturamento. De todos os artistas e personalidades contratadas, o tiro mais certeiro foi a apresentadora Xuxa. Ela colocou o boné da Arisco em 1992 e, em dois anos, as vendas da empresa tinham dobrado. Foi a imagem de Xuxa também que abriu para a Arisco as portas do Mercosul, tornando-a uma marca forte na Argentina e no Uruguai. "O que hoje é considerado modernésimo, a Arisco vem fazendo há vinte anos", diz Walter Appel, sócio do banco Fator.

A empresa cresceu tanto que se tornou ela própria um prato muito suculento. Foi esse prato que a Bestfoods, uma companhia americana que tem por lema "Satisfazer o apetite global", começou a saborear na semana passada. "A indústria de alimentos no Brasil será cada vez menos pulverizada", diz o consultor André Castello Branco, da KPMG. Desde 1993 é na área de alimentos que vem ocorrendo o maior número de compra e venda de empresas. Foram, ao todo, 221 negócios, num frenesi de incorporações de pequenas indústrias familiares por empresas maiores, em geral estrangeiras. Na semana passada, a Aymoré, uma fabricante de biscoitos mineira tradicional como o ipsilon que leva no nome, foi comprada pelos franceses da Danone. A Arisco era uma empresinha familiar até poucos anos atrás. É espantoso que tenha chegado aonde chegou e que, tendo realizado essa proeza, se deixasse seduzir pela oferta da concorrência.

Na verdade, a Arisco defrontou-se com o dilema colocado para muitas das empresas brasileiras. "Atingimos o ponto máximo a que poderíamos chegar. A partir daqui precisaríamos dobrar de tamanho, e rapidamente. Como não tínhamos cacife para comprar uma grande companhia, vendemos a nossa", diz Júnior. O tamanho tornou-se vital na onda da globalização econômica. É difícil para a indústria sobreviver tendo de negociar com cadeias de varejo cada vez mais gigantescas, com força suficiente para impor preços e condições de pagamento. Para enfrentar grandes competidores em pé de igualdade é preciso ter grandes volumes de produção e muita musculatura financeira. É esse o nó da AmBev, a megaempresa nascida da junção das cervejarias Brahma e Antarctica que pode enroscar em leis de defesa do consumidor, que restringem operações desse tamanho, e na oposição da concorrente Kaiser, associada à Coca-Cola. Na defesa do direito à fusão, o presidente da AmBev, Magim Rodriguez, fez um pronunciamento divulgado pela televisão em horário nobre. "O que está em discussão é se queremos ser um país que só vende empresas ou que também pode comprar e crescer", disse. Como se está vendo, o Brasil pode fazer as duas coisas. E lucrar.