Yes, nós temos
Banespa
A participação
de estrangeiros no leilão do
banco paulista pode elevar o preço em 1
bilhão de reais, mas ainda há quem prefira
que eles sejam mantidos fora do negócio
Eliana Simonetti
O debate em torno do
risco de desnacionalização do sistema financeiro
no Brasil voltou a esquentar. Foi forte a reação,
na semana passada, quando se encerrou o prazo para a qualificação
dos bancos interessados em participar do leilão de
privatização do Banespa. Procuradores entraram
na Justiça tentando impedir a venda do banco, deputados
e senadores se alvoroçaram e, na quarta-feira, o
presidente Fernando Henrique Cardoso mandou o secretário-geral
da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, avisar aos
interessados: "Não podemos entregar o patrimônio
público a preço de banana para ninguém,
nem mesmo para os banqueiros nacionais. O governo quer o
melhor preço e não vai impedir o acesso de
investidores estrangeiros".
Dos nove bancos que
se inscreveram para o leilão, cinco são estrangeiros:
o Citibank e o BankBoston, americanos, o HSBC, inglês,
e os espanhóis Santander e Bilbao Vizcaya. São
bancões que têm operações no
mundo inteiro e querem crescer no Brasil. Também
há quatro nacionais na parada: Bradesco e Itaú,
que brigam para manter-se na liderança entre os bancos
privados brasileiros, Unibanco, que precisa expandir-se
para não ser engolido, e Safra, que é forte
com empresas e há tempos procura uma oportunidade
de crescer no varejo. Na próxima etapa caberá
ao Banco Central certificar-se de que os inscritos têm
porte para a concorrência. Os aprovados nessa sabatina
poderão, durante 45 dias, vasculhar as entranhas
do Banespa e confirmar sua disposição de entrar
na disputa para comprá-lo. No leilão, marcado
para 16 de maio, cada um dos concorrentes apresentará
sua proposta num envelope fechado. O preço mínimo
estabelecido pelo Banco Central deverá ficar um pouco
acima de 2 bilhões de reais. O banco que oferecer
o melhor preço e todos que tiverem chegado a pelo
menos 90% desse valor participarão então de
um leilão aberto. Calcula-se que
nessa briga de lances o governo possa receber até
4 bilhões de reais pelo Banespa. Sem os estrangeiros,
a disputa seria bem menos agressiva. Segundo quem lida com
leilões de privatização, os cofres
públicos perderiam cerca de 1 bilhão de reais.
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Esse é um argumento
concreto a favor da participação dos estrangeiros
no leilão. Há outros. Bancos estrangeiros
dominam o mercado em vários países da América
Latina sem que haja prejuízos para os correntistas
ou para a administração da economia. Dos 21
bancos do Uruguai, dezoito são estrangeiros. Na Argentina,
quase metade do sistema financeiro está sob controle
alienígena. Os argentinos não se queixam.
"A internacionalização é vista como
garantia de solidez do mercado financeiro e de tranqüilidade
para os clientes", diz o economista Fabio Rodriguez, da
Fundação Capital, empresa de consultoria da
Argentina. Depois da crise mexicana de dezembro de 1994,
só as agências dos bancos Boston e Citi não
foram alvo de corridas de saques. Bancos provinciais e instituições
privadas argentinas quebraram nessa época.
Os que defendem a idéia
de que o governo deve resguardar o mercado financeiro nacional
contra o ataque estrangeiro argumentam que países
desenvolvidos não escancaram suas portas como os
mais pobres andam fazendo. Nos Estados Unidos existem mais
de 8.000 bancos há instituições
com uma única agência em cidadezinhas do interior.
Nesse universo, o volume de bancos estrangeiros é
muito pequeno. Eles são apenas 246. Mas Joseph Safra,
um dos irmãos donos do Banco Safra, que se estabeleceu
em Nova York com a bandeira brasileira, garante que não
enfrenta dificuldades. Ao contrário, vem crescendo
sem incomodar o governo americano ou os concorrentes. "Banco
é banco, não importa a nacionalidade. Por
toda a parte já se percebeu que a abertura para o
mercado mundial é o único caminho para o crescimento.
Não podemos querer que o Brasil seja uma Cuba ou
uma Albânia", diz o banqueiro.
Na semana passada surgiu
outro argumento interessante. O de que a desnacionalização
seria um risco para um governo como o brasileiro, que tem
de vender títulos no mercado para rolar sua dívida.
E se os estrangeiros simplesmente resolverem não
comprar mais os papéis? O governo poderia quebrar?
A perspectiva não se sustenta. O governo brasileiro
paga juros tão altos para que os bancos engulam seus
títulos que eles jogam quase todo o dinheiro de que
dispõem nesses papéis para não perder
um bom negócio. É tamanha a força de
atração dos títulos públicos
que os bancos praticamente se privam de exercer a tarefa
básica de sua existência: emprestar dinheiro
a empresas e pessoas. A oferta de crédito no Brasil
representa menos de 30% do PIB. O crédito disponível
nos Estados Unidos é, proporcionalmente, mais do
que o dobro: corresponde a 71% do PIB.
Também não
pára de pé a idéia segundo a qual nos
momentos de crise os bancos brasileiros se sacrificam em
benefício do interesse nacional. Examine-se a última
grande crise pela qual o Brasil passou. Entre os bancos
que apostaram contra o real comprando dólares, no
início do ano passado, e lucraram quando o câmbio
foi liberado havia tanto estrangeiros quanto brasileiros.
Uma das razões do lucro recorde registrado pelo banco
Itaú, brasileiríssimo, em 1999, foi sua forte
reserva em dólares. "Não existe banco patriota.
Negócio de banqueiro é ganhar dinheiro e proteger
os interesses dos clientes, tenham eles a nacionalidade
que tiverem", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.
Os bancos de qualquer
bandeira querem comprar o Banespa porque é uma ótima
oportunidade de ganhar dinheiro. O banco é o último
dos grandes estatais a ser privatizado. Em matéria
de eficiência das agências e de capacidade de
geração de negócios sempre esteve entre
os melhores do país. Quebrou há cinco anos
e mesmo assim manteve sua clientela e está ganhando
dinheiro sem que ninguém faça força
para isso. Para o governo, livrar-se do banco será
um alívio. Segundo cálculos de quem opera
no mercado financeiro, computados os desvios, as perdas
por má administração, os abusos de
governos, a inflação e as crises econômicas
pelas quais o país passou, o Banespa acumulou, nos
últimos trinta anos, perdas correspondentes a 250
bilhões de dólares. É um terço
do PIB brasileiro. Sobreviveu porque foi socorrido, como
outros bancos estatais, pelo governo federal, pelos Estados
e por empresas públicas. Só na última
operação de saneamento de bancos públicos,
promovida na gestão Fernando Henrique, que ainda
não foi encerrada, estão sendo gastos cerca
de 100 bilhões de reais. Uma boa parte da dívida
que o país carrega nasceu no Banespa e em seus congêneres.
Será muito bom para o Brasil ter esse banco longe
dos políticos, administrado pelo setor privado. Seja
ele nacional ou estrangeiro.
Com
reportagem de Raul
Juste Lores