Meio minuto para morrer
Dezoito
jovens da gangue Carecas do ABC são
acusados de assassinar a pancadas homossexual em São
Paulo
De repente, um deles
gritou: "Sujou! Vamos embora". Os cerca de trinta rapazes
e moças cumpriram a ordem. Menos um, o segurança
Vanderlei Cardoso de Sá, de 33 anos. Em mais um acesso
irracional de ódio, chutou a cabeça e pulou
sobre o peito daquele corpo já exangue na Praça
da República, em pleno centro da capital paulista.
Depois dos golpes de misericórdia contra Edson Neris
da Silva, Vanderlei juntou-se ao grupo. Todos partiram rindo.
Em aproximadamente trinta segundos, cercaram, espancaram
e mataram Edson na madrugada de domingo 6. As causas do
óbito: hemorragia interna e fraturas múltiplas.
A violência do ataque foi tão grande que, ao
vestir o filho para o sepultamento, João Gabriel
Raulino ouviu e sentiu o estalar dos ossos quebrados. Três
horas depois da barbárie, 23 pessoas foram presas
no bar Recanto dos Amigos, a menos de 2 quilômetros
do local do crime. Dezoito foram reconhecidas como participantes
do assassinato. Metidas em roupas pretas, calças
camufladas e pesados coturnos, são integrantes da
gangue Carecas do ABC, um movimento de jovens ultraconservadores.
Edson tinha 35 anos
e trabalhava como adestrador de cães. Desde os 18,
freqüentava a Igreja Mórmon. Foi casado por
duas vezes e havia dez anos, segundo a cunhada Liliane Fraga,
era portador do vírus da Aids. Na noite de sua morte,
saiu de casa por volta de 8 horas. Às 11 e meia,
ele telefonou para a família e avisou que dormiria
fora. Edson estava com o amigo Dario Pereira Netto, de 34
anos, homossexual assumido. Eles haviam se conhecido dez
dias antes e aquele era o segundo encontro dos dois. Quando
cruzaram a Praça da República, reduto gay
da cidade, Edson e Dario chamaram a atenção
dos Carecas: estavam de mãos dadas. Foi o bastante
para despertar a fúria da gangue. "Percebemos que
os Carecas marchavam ostensivamente em nossa direção",
contou Dario à polícia. "Gritei para meu amigo:
'Corre' e levei um chute pelas costas." Ele conseguiu escapar.
Os agressores foram
presos sob a acusação de formação
de quadrilha e de homicídio doloso. Dos dezoito,
três tinham passagem pela polícia dois
por porte ilegal de arma e um por disparo de arma de fogo.
Quatro estavam com as mãos marcadas pelo uso de soco-inglês,
anéis de aço usados para potencializar os
golpes. Atrás das grades, dizem que nem sequer passaram
pela Praça da República naquela noite. "Estávamos
no barzinho bebendo e, de repente, a polícia chegou",
afirma Juliano Filipini Sabino, de 28 anos, apontado pelo
delegado Jorge Carrasco como líder do grupo. Um dos
presos, o barman desempregado Fernando Azadinho, de 19 anos,
no entanto, afirmou à polícia que sabia da
morte de Edson. Juliano garante que o movimento Carecas
do ABC não é pautado pela violência
e intolerância contra homossexuais. É mentira.
Na semana passada, três deles foram reconhecidos por
Marcos Daniel Braga, de 31 anos. Em 7 de fevereiro de 1999,
ele foi espancado na mesma praça quando conversava
com um amigo.
Os Carecas do ABC surgiram
no início da década de 80, inspirados nos
violentos Skinheads europeus e americanos. "Eles são
uma versão tupiniquim dos neonazistas", define o
sociólogo Tulio Kahn. "Mas não têm nenhuma
consistência ideológica." Os Carecas dizem
inspirar-se no integralismo de Plínio Salgado, cujas
teorias tinham identificação com o fascismo
italiano e o nazismo alemão. A maioria deles, no
entanto, apenas repete bordões ouvidos de terceiros
ou lidos em publicações populares. Os integrantes
da gangue são jovens da classe média baixa.
Trabalham, em geral, como office-boy, segurança e
auxiliar de escritório. Diferentemente dos White
Power, a corrente que levanta a bandeira da supremacia branca,
os Carecas do ABC admitem negros e nordestinos no grupo.
Abominam roqueiros cabeludos, estrangeiros e homossexuais.
Têm como lema: "Deus, pátria e família".
Para a psicóloga
Sueli Damergian, da Universidade de São Paulo, esses
jovens precisam do grupo para se afirmar socialmente. "Quando
entram para uma dessas gangues, eles deixam de ser um nada,
e a sociedade passa a reconhecê-los, ainda que seja
da pior forma possível, por causa do uso da violência",
afirma. Nos últimos oito anos, a ação
desses grupos resultou na morte de nove pessoas. Destas,
cinco morreram porque eram gays ou negros. O número
de óbitos pode parecer pequeno se considerada, por
exemplo, a quantidade de homicídios cometidos em
um único final de semana na capital paulista. "O
que torna essas gangues potencialmente perigosas é
que elas são herdeiras de um movimento que no passado
exterminou 50 milhões de pessoas", explica o sociólogo
Kahn. Os Carecas podem não ter estofo intelectual
para ser apontados como representantes de qualquer corrente
ideológica. Mas eles são baderneiros, violentos
e estúpidos o suficiente para representar um perigo
à solta.
Ricardo
Benichio
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O
líder da gangue, Juliano, com
o baiano José Nilson (ao fundo):
"Os homossexuais não têm nada
a ver com a gente, nem a gente com eles.
Se eles estão por aí espalhando
doenças, o problema é deles"
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O
adestrador de cachorros Edson
Neris da Silva, de 35 anos, com o pastor alemão
Trupy: passeio com amigo na Praça da
República, o cerco do grupo de Carecas,
os socos, os pontapés e a morte por
hemorragia interna e fraturas múltiplas
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Com reportagem
de Eduardo Nunomura,
Fabio Schivartche e Gisela Sekeff