Edição 1 636 - 16/2/2000

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Meio minuto para morrer

Dezoito jovens da gangue Carecas do ABC são acusados de assassinar a pancadas homossexual em São Paulo

De repente, um deles gritou: "Sujou! Vamos embora". Os cerca de trinta rapazes e moças cumpriram a ordem. Menos um, o segurança Vanderlei Cardoso de Sá, de 33 anos. Em mais um acesso irracional de ódio, chutou a cabeça e pulou sobre o peito daquele corpo já exangue na Praça da República, em pleno centro da capital paulista. Depois dos golpes de misericórdia contra Edson Neris da Silva, Vanderlei juntou-se ao grupo. Todos partiram rindo. Em aproximadamente trinta segundos, cercaram, espancaram e mataram Edson na madrugada de domingo 6. As causas do óbito: hemorragia interna e fraturas múltiplas. A violência do ataque foi tão grande que, ao vestir o filho para o sepultamento, João Gabriel Raulino ouviu e sentiu o estalar dos ossos quebrados. Três horas depois da barbárie, 23 pessoas foram presas no bar Recanto dos Amigos, a menos de 2 quilômetros do local do crime. Dezoito foram reconhecidas como participantes do assassinato. Metidas em roupas pretas, calças camufladas e pesados coturnos, são integrantes da gangue Carecas do ABC, um movimento de jovens ultraconservadores.

Edson tinha 35 anos e trabalhava como adestrador de cães. Desde os 18, freqüentava a Igreja Mórmon. Foi casado por duas vezes e havia dez anos, segundo a cunhada Liliane Fraga, era portador do vírus da Aids. Na noite de sua morte, saiu de casa por volta de 8 horas. Às 11 e meia, ele telefonou para a família e avisou que dormiria fora. Edson estava com o amigo Dario Pereira Netto, de 34 anos, homossexual assumido. Eles haviam se conhecido dez dias antes e aquele era o segundo encontro dos dois. Quando cruzaram a Praça da República, reduto gay da cidade, Edson e Dario chamaram a atenção dos Carecas: estavam de mãos dadas. Foi o bastante para despertar a fúria da gangue. "Percebemos que os Carecas marchavam ostensivamente em nossa direção", contou Dario à polícia. "Gritei para meu amigo: 'Corre' e levei um chute pelas costas." Ele conseguiu escapar.

Os agressores foram presos sob a acusação de formação de quadrilha e de homicídio doloso. Dos dezoito, três tinham passagem pela polícia — dois por porte ilegal de arma e um por disparo de arma de fogo. Quatro estavam com as mãos marcadas pelo uso de soco-inglês, anéis de aço usados para potencializar os golpes. Atrás das grades, dizem que nem sequer passaram pela Praça da República naquela noite. "Estávamos no barzinho bebendo e, de repente, a polícia chegou", afirma Juliano Filipini Sabino, de 28 anos, apontado pelo delegado Jorge Carrasco como líder do grupo. Um dos presos, o barman desempregado Fernando Azadinho, de 19 anos, no entanto, afirmou à polícia que sabia da morte de Edson. Juliano garante que o movimento Carecas do ABC não é pautado pela violência e intolerância contra homossexuais. É mentira. Na semana passada, três deles foram reconhecidos por Marcos Daniel Braga, de 31 anos. Em 7 de fevereiro de 1999, ele foi espancado na mesma praça quando conversava com um amigo.

Os Carecas do ABC surgiram no início da década de 80, inspirados nos violentos Skinheads europeus e americanos. "Eles são uma versão tupiniquim dos neonazistas", define o sociólogo Tulio Kahn. "Mas não têm nenhuma consistência ideológica." Os Carecas dizem inspirar-se no integralismo de Plínio Salgado, cujas teorias tinham identificação com o fascismo italiano e o nazismo alemão. A maioria deles, no entanto, apenas repete bordões ouvidos de terceiros ou lidos em publicações populares. Os integrantes da gangue são jovens da classe média baixa. Trabalham, em geral, como office-boy, segurança e auxiliar de escritório. Diferentemente dos White Power, a corrente que levanta a bandeira da supremacia branca, os Carecas do ABC admitem negros e nordestinos no grupo. Abominam roqueiros cabeludos, estrangeiros e homossexuais. Têm como lema: "Deus, pátria e família".

Para a psicóloga Sueli Damergian, da Universidade de São Paulo, esses jovens precisam do grupo para se afirmar socialmente. "Quando entram para uma dessas gangues, eles deixam de ser um nada, e a sociedade passa a reconhecê-los, ainda que seja da pior forma possível, por causa do uso da violência", afirma. Nos últimos oito anos, a ação desses grupos resultou na morte de nove pessoas. Destas, cinco morreram porque eram gays ou negros. O número de óbitos pode parecer pequeno se considerada, por exemplo, a quantidade de homicídios cometidos em um único final de semana na capital paulista. "O que torna essas gangues potencialmente perigosas é que elas são herdeiras de um movimento que no passado exterminou 50 milhões de pessoas", explica o sociólogo Kahn. Os Carecas podem não ter estofo intelectual para ser apontados como representantes de qualquer corrente ideológica. Mas eles são baderneiros, violentos e estúpidos o suficiente para representar um perigo à solta.

 
Ricardo Benichio
O líder da gangue, Juliano, com o baiano José Nilson (ao fundo): "Os homossexuais não têm nada a ver com a gente, nem a gente com eles. Se eles estão por aí espalhando doenças, o problema é deles"





O adestrador de cachorros Edson Neris da Silva, de 35 anos, com o pastor alemão Trupy: passeio com amigo na Praça da República, o cerco do grupo de Carecas, os socos, os pontapés e a morte por hemorragia interna e fraturas múltiplas

Com reportagem de Eduardo Nunomura,
Fabio Schivartche e Gisela Sekeff