"Pai, eu sou gay"
Ouvir essa frase pode ser um pesadelo, mas
dizê-la
é quase sempre um momento de alívio na vida
de quem não quer mais esconder da família e
dos amigos sua verdadeira opção sexual
Daniela Pinheiro
Montagem sobre foto de Ricardo Benichio
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Luiz Paulo Marinho rodeado pela
família:
o pai ficou chocado com a revelação |
"Não vejo a minha vida de
outro jeito. Eu amo uma mulher e só porque eu sou mulher
não posso? Quero saber que regra é essa", diz Fabiana Flávia
Ferreira, de 23 anos, estudante de engenharia de São Vicente,
litoral paulista, e assumida desde os 17.
"Eu já tinha os meus casos, os meus
rolos e minha cabeça era homossexual. Mas via meu pai falando
que preferia um filho aleijado a um gay", lembra o empresário
carioca Luiz Paulo Marinho, 32 anos, homossexual assumido
há cinco.
"Ele me disse na caradura: 'Mãe,
eu sou homossexual'. Fiquei com ódio. Senti meu sangue subindo
à cabeça. Peguei a primeira coisa que vi e corri atrás dele
para machucá-lo. Passamos seis meses sem nos falar morando
na mesma casa", diz a operária paulista Cleusa Amaral, mãe
de César Marchia, hoje com 28 anos. A revelação ocorreu
há doze anos.
Ricardo Benichio
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| Namoradas há três anos, Cristiane
Lorca e Fabiana Ferreira (à esquerda) participam
de festas de parentes como um casal convencional. "Nossas
famílias já estão tão acostumadas a nos ver juntas que,
quando uma não aparece, já querem saber se houve alguma
coisa", contam |
Houve um tempo em que só de pensar que os pais desconfiavam
de sua preferência amorosa os jovens tremiam. Muitos optavam
por sair de casa para viver uma vida afastada, em que a
sexualidade poderia ser exercida em sua plenitude. Não há
estatísticas sobre a quantidade de gays que decidem "sair
do armário", a gíria usada entre eles para designar
a revelação da própria preferência sexual. Na opinião dos
especialistas de alguma forma ligados ao fenômeno, no entanto,
a sensação é de que nunca houve tanta gente fazendo isso
como nos dias de hoje. A lista de motivos para compreender
a mudança de comportamento é extensa. Um deles é que, morando
mais tempo na casa dos pais, os filhos ficam vulneráveis
à vigilância dos mais velhos. O telefone toca e a voz pertence
sempre a alguém do mesmo sexo, a filha só sai com amigas
e o filho nunca apresenta a namorada. Mentir ficou mais
complicado. Outra razão é que nunca se teve tanta abertura
para falar sobre sexo em casa. São novelas, filmes, propagandas,
um bombardeio de informações que viabilizam um diálogo mais
franco.
"É difícil achar um lado bom da Aids, mas a doença
levou as famílias a tratar da sexualidade com mais clareza",
comenta a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto
Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo. Na avaliação da psiquiatra, além das mudanças
na estrutura familiar, a sociedade está mais evoluída para
aceitar os gays. Há boates, restaurantes, bares, livrarias,
locadoras de vídeo, agências de turismo, hotéis, tudo destinado
a homossexuais. A comunidade gay está crescendo tanto que
já clama por serviços até outro dia impensáveis. Em São
Paulo, um grupo de professores, a maioria homossexual, montou
um cursinho pré-vestibular voltado a estudantes gays. Na
semana passada, também em São Paulo, anunciava-se a criação
de um spa para "entendidos".
Ricardo Benichio
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| Antonio Santos Silva
(à esquerda) e seu filho Alex (centro): "Tinha
medo de ele desmunhecar" |
Dilema O desejo sexual é um vulcão que permanece
adormecido até o momento em que a criança ingressa na puberdade.
A partir daí fica difícil ignorar os impulsos que parecem,
a um só tempo, estranhos e atraentes. O sexo torna-se uma
fixação. Quando a confusão de hormônios e sentimentos provoca
uma insegurança típica da adolescência, alguns são perturbados
por uma dúvida adicional. Que situação angustiante a do garoto
que observa as formas do amigo na carteira ao lado, na sala
de aula, e sente uma coisa estranha. Ou a da menina que vê
a amiga tomando banho no vestiário do clube e passa dias fantasiando.
Essa experiência acontece na vida de milhões de pessoas e
nunca é irrelevante.
A maior parte dos que enfrentam a dúvida sobre a própria
sexualidade esconde o dilema de amigos e dos pais. Muitos
descobrem pouco a pouco que aquilo não significa uma definição
pela homossexualidade, apenas uma hesitação em situações
específicas. Esses em geral se acomodarão ao padrão da maioria
e seguirão em frente, encontrando satisfação nos jogos eróticos
com o sexo oposto. Vencem o fantasma. Tornam-se pais, mães,
avôs e avós. Entre os que chegam à conclusão de que, sim,
desejam o amigo do mesmo sexo e, sim, são homossexuais,
a esmagadora maioria vai fazer tudo que puder para esconder
a verdade dos que não sejam seus companheiros de preferência
sexual. Essas pessoas fazem uma conta psicológica envolvendo
perdas e ganhos sociais e concluem que sair do armário pode
custar caro demais. Algumas até se casam, têm filhos e administram
o desejo homossexual com escapadas regulares. Os estudos
mostram que elas vivem com uma carga de stress muito mais
elevada do que o resto da sociedade. Não conseguem livrar-se
de um forte sentimento de culpa.
Os gays de vida dupla experimentam duas sensações, opostas
e de igual intensidade. Nas noitadas, vivem experiências
prazerosas, mas mergulham na culpa ao voltar para casa.
Pessoas assim costumam possuir uma baixíssima auto-estima
e julgar a própria vida por meio de palavras fortes, como
"fraude", "farsa" e "embuste".
A repressão dos sentimentos leva os enrustidos a usar uma
máscara que não lhes cabe, a de heterossexuais. São expostos
a constrangimentos freqüentes, seja em casa, seja no ambiente
de trabalho, ao ouvirem referências desairosas sobre os
homossexuais. "Desde pequeno, os primeiros palavrões
que se aprendem para xingar são bicha e veado.
É muito desconfortável conviver com essas expressões martelando
a cabeça", diz o universitário brasiliense Caio Varella,
de 26 anos, que se assumiu gay aos 18 anos.
Ricardo Benichio
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| Bar gay em São Paulo,
que chega a receber 800 pessoas por final de semana:
até há pouco tempo, o homossexual era obrigado a freqüentar
o submundo e os guetos para se divertir. Hoje, há locais
badalados aonde se vai depois do expediente jogar conversa
fora e tomar um drinque na happy hour |
Mentira social Pedro Zarur, 29 anos, editor
de livros em São Paulo, concluiu um dia que não queria mais
levar à frente o segredo. "Reuni minhas irmãs mais velhas
e disse que estava namorando." "Qual o nome dela?",
elas perguntaram. Eu disse: "Não é ela. É ele".
A feição de cada uma delas naquele momento ficou gravada em
minha memória", recorda Pedro, que abriu o jogo há dois
anos. Pessoas como o estudante Caio e o editor Pedro mantiveram
por muito tempo a mentira social. Mas, depois de fazer a tal
conta psicológica, apostaram que, para eles, os ganhos envolvidos
na decisão de abrir o jogo justificavam os riscos. No fundo,
no fundo, eles (e elas) querem assumir sua opção não apenas
à noite, mas também à luz do sol. Querem passear com seu namorado
(ele) ou a namorada (ela), convidar os parentes para as festas
do casal. Constituir uma família, em alguns casos sabendo
que vão enfrentar os dias mais difíceis de suas vidas.
Apesar do choque inicial, a reação positiva que receberam
dos pais fez com que boa parte dos gays assumidos se sentisse
muito mais confortável depois da revelação. "Prefiro
que ele confie em mim para que possa ser autêntico e não
precise mentir o tempo todo", afirma a mãe do empresário
carioca Luiz Paulo Marinho, Therezinha Marinho da Silva,
de 65 anos. O alívio não significa que a revelação possa
ser feita sem um terremoto emocional. Para os gays e lésbicas,
assumir a sexualidade em público significa contar justamente
o que os outros escondem. "Imagine uma pessoa contando
que gosta de apanhar durante o ato sexual. Ia virar motivo
de comentários do tipo 'lá vem aquele que gosta de umas
palmadas'.", diz o psicólogo
Hugues França Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista,
especializado no atendimento de jovens homossexuais. "De
um certo modo, o mesmo acontece com os gays. Quando contam
que gostam de pessoas do mesmo sexo, já se pode visualizar
uma cena. E isso é desconfortável para a maioria de seus
amigos e parentes."
O primeiro desafio dos gays e lésbicas é aceitar seu desejo
sexual. Nessa fase, eles são tomados por uma onda de questionamentos.
Isso vai passar? Será que não é doença da qual posso me
livrar? "Eu precisei sair do país para entender o que
estava acontecendo comigo. Na Europa vi como era normal,
encontrei outras pessoas que desestigmatizaram a homossexualidade",
diz a empresária Laura Bacellar, 39 anos, proprietária em
São Paulo da editora GLS, que publica livros dirigidos ao
público gay. Laura se assumiu lésbica aos 18 anos. Ao perceber
que a opção sexual não é passageira, o garoto e a garota
entram num momento tenso, o da iniciação propriamente dita,
em que se misturam as angústias da primeira vez dos heterossexuais
com uma sensação de que algo muito estranho e indesejável
(mas ao mesmo tempo irresistível) está por acontecer. "Quando
descobri que no ambiente das boates e dos bares gays eu
podia ser eu mesmo sem me preocupar com nada, sem fingimentos,
não quis mais saber de outra coisa. Eu comecei a ir sempre,
todo fim de semana", diz o estudante paulista Alex
Santos Silva, 18 anos, assumido há três anos.
Nada diz que é genético
Trava-se um debate intenso em torno das razões que
orientam a opção sexual das pessoas. De acordo com
uma pesquisa do Ibope, 41% da população brasileira
acredita que o homossexual já "nasce assim", ou seja,
o comportamento estaria definido no código genético.
Todos os estudos sérios sobre o assunto desautorizam
as afirmações nesse sentido. O mais importante trabalho
que difundia a tese da origem genética revelou-se
sem consistência científica, o que foi admitido pelo
próprio autor, o pesquisador Michael Bailey, da Universidade
Northwestern, em Chicago.
Bailey encontrou uma forma aparentemente apropriada
de analisar as relações entre a sexualidade e a genética.
Ele pesquisou a opção sexual de gêmeos univitelinos,
cujo material genético, sabe-se, é idêntico. No grupo
estudado, em 52% dos casos de homossexualismo, não
apenas um dos irmãos era gay, mas os dois. Ao comparar
gêmeos fraternos, concebidos a partir de dois óvulos,
a taxa de coincidência havia caído para 22%. Se havia
mais irmãos gays entre gêmeos idênticos do que entre
gêmeos fraternos, por que não acreditar que algo no
reino do DNA poderia estar orientando a opção sexual?
A conclusão do doutor Bailey começou a desabar quando,
no curso de suas investigações, ele descobriu mais
casos de irmãos gays entre adotivos do que entre irmãos
de sangue. Como se pode falar em coincidência genética
com adotivos? Diante dessa descoberta, Bailey voltou
aos gêmeos. Para evitar furos estatísticos, ampliou
o universo pesquisado, enviando questionários para
todos os gêmeos registrados num país. Como os Estados
Unidos são grandes demais, escolheu a Austrália. Por
carta, ele enviou as perguntas. Entre os idênticos,
recebeu trinta respostas admitindo a homossexualidade.
Em apenas três casos, os dois irmãos eram gays. Nos
outros 27, apenas um se relacionava com pessoas do
mesmo sexo. Nos dezesseis casos de homossexualismo
entre gêmeos fraternos, não havia coincidência. Só
um dos irmãos era gay. "A tese mais aceita atualmente
é de que a orientação sexual é resultado de influências
biológicas, psicológicas e socioculturais, sem um
peso maior para uma ou outra", diz a psiquiatra Carmita
Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo.
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Resolvido o conflito interno, é chegada a hora de contar
para a família. A maioria não se abre nunca, como já se
viu, e uma parcela ponderável dos jovens espera anos para
fazer isso. O motivo da demora não está relacionado ao grau
de elaboração que se vai imprimir à notícia, mas ao natural
medo que se tem dos pais. Em geral, o anúncio é feito de
maneira um tanto atabalhoada. "Minha mãe sabia que
eu andava com gays e vivia me perguntando se eu ainda estava
com eles. Um dia ela me perguntou: 'Por que você não melhora
isso?' Eu respondi: 'Como melhorar? Eu sou um deles, mamãe'
", conta Luiz Paulo, o empresário carioca.
Num primeiro momento, a reação dos pais diante da revelação
da homossexualidade dos filhos é entrar em estado de choque.
"Meu maior medo era que ele ficasse desmunhecando,
me envergonhando por aí. Como isso não aconteceu, fui ficando
mais tranqüilo", diz o comerciante Antonio Santos Silva,
pai de Alex. Hoje, a convivência dos dois tornou-se harmoniosa
porque está combinado que eles evitam discutir o assunto.
"Eu não comento sobre a minha sexualidade com meu pai,
como ele não comenta a dele comigo", afirma Alex. Essa
aceitação vem com dificuldade. Em geral, os pais absorvem
qualquer alteração nos planos traçados para os filhos, menos
quando o assunto é homossexualidade. Se a filha resolveu
estudar geografia em vez de medicina, sem problemas. Se
o filho quer largar a faculdade para morar no Nepal, pode-se
compreender. Alguns pais dizem que saberiam entender até
mesmo se os filhos partissem para as drogas ou o álcool,
tentações (reversíveis) do mundo moderno. Só não se conformam
com o fato de aquela "criança" sentir atração
física por alguém do mesmo sexo. Restabelecidos do choque
inicial, os pais são tomados pela culpa. "Onde foi
que eu errei?", perguntam. Não há quem não se sinta
responsável pelo fato de o filho ou a filha ser homossexual.
"Uma fase" A etapa seguinte é a
da negação, em que poderosos mecanismos de defesa são acionados.
Um dos mais fantásticos, observam os psicólogos, é acreditar
que a homossexualidade "é uma fase", como se fosse
uma atitude ligada à rebeldia da adolescência. Uma das expressões
mais representativas desse estágio é: "Mas ele não
tem nada de gay", sugerindo que o homossexual é aquele
personagem estereotipado e cheio de fricotes que aparece
nos programas de televisão. Felizmente, na maioria dos casos,
vem a fase da aceitação, quando os pais se conformam com
a realidade e, com alguma freqüência, se adaptam bem a ela.
Um caso exemplar é o das famílias de Fabiana Ferreira e
da empresária Cristiane Lorca, de 33 anos. Namoradas há
três anos, elas participam de todos os eventos familiares
e organizam festas em casa para os parentes. "Temos
um relacionamento maravilhoso com os nossos pais. Quando
eles não nos vêem juntas ficam até preocupados", diz
Fabiana.
É um fenômeno dos últimos anos a necessidade que um número
crescente de jovens sente de compartilhar tudo com os pais.
Desde a primeira experiência sexual à primeira tragada no
cigarro. O que pode parecer um progresso louvável na relação
familiar é de fato uma divisão de culpas e responsabilidades.
"Ao expor toda sua vida privada, toda sua sexualidade
aos pais, os filhos estão quase pedindo uma autorização
para exercê-la", afirma a psicóloga Rosely Sayão. "A
revelação não é um grito de independência. É de dependência.
É como dizer: 'Eu sou assim', 'Eu faço isso e você vai ter
de gostar de mim' ". No fundo, a confissão de ser gay
pode ser quase um teste. Em muitos casos, o filho espera
saber até que ponto os pais o amam, o aceitam e o terão
perto deles. "Durante a infância, os filhos vivem para
agradar aos pais. Quando decidem contar que são gays, os
jovens estarão desagradando profundamente a eles. E o fazem
para checar em último grau se aquele amor é de fato mais
forte do que o preconceito", diz a psicóloga paulista
Ceres Alves de Araújo.
Alexandre Schneider/Folha Imagem
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| Cursinho GLS, em São
Paulo, onde a maioria dos professores e alunos são homossexuais:
o mercado gay também tem agências de viagens, livrarias
e até um spa para "entendidos" |
Desde muito cedo os gays aprendem a conviver com a discriminação,
e isso acontece mesmo antes de assumir a homossexualidade.
A garota ou o garoto desenvolvem um sistema de proteção que
se baseia na agressividade. A melhor defesa passa a ser o
ataque. Quem já não se perguntou por que os gays e lésbicas
costumam adotar certos trejeitos que provocam estranheza na
maioria das pessoas? A necessidade de afirmar a sexualidade
e o medo da reação negativa da sociedade fazem com que alguns
gays optem pelo extremo, que é estereotipar o comportamento.
É como se ele quisesse dizer: "Perceba como eu sou. E
tem mais: eu não vou mudar". Para os heterossexuais,
essa agressividade ganha contornos ainda mais contundentes.
"É agressivo ver alguém muito diferente de você e mais
agressivo ainda se aquilo passa pela sexualidade", afirma
a psiquiatra Carmita Abdo.
A estranheza do heterossexual em relação aos homossexuais
aumentaria muito se ele tivesse contato com o chamado mundo
GLS (que reúne gays, lésbicas e simpatizantes). Para quem
está acostumado a freqüentar danceterias heteros, dar uma
espiada num clube GLS é uma experiência inesquecível. São
centenas de homens ou mulheres envolvidas numa dança de
alta conotação sexual. Na maioria desses endereços, vêem-se
beijos acrobáticos e mãos passeando pelo corpo alheio sem
encontrar obstáculos. A comparação é inevitável. Por que,
de modo geral, as casas noturnas heteros são mais comportadas
do que as GLS? O motivo é que a ligação dos homossexuais
com o erotismo é mais intensa. Como a sociedade não permite
que casais gays possam ter manifestações de carinho em público,
eles acabam exercitando todas as fases da conquista e do
prazer num lugar fechado. Obrigados a reprimir os impulsos
durante o dia, os gays passam por uma espécie de catarse
noturna. É por esse motivo que as roupas e a decoração nesses
ambientes costumam evocar referências eróticas.
Marcos Rosa
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| Lésbicas em parada do
"orgulho gay" em Nova York: até 1 milhão de ativistas
reunidos. Em São Paulo, a expectativa é levar 100 000
pessoas às ruas em junho |
A homossexualidade permeou a história da humanidade alternando
papéis. Às vezes, a prática era estimulada. Na Grécia antiga,
Platão escreveu muito sobre o assunto. Safo, poeta e lésbica,
também exaltou o amor lírico entre iguais. Entre os séculos
V e IV a.C., a bissexualidade era tida como coisa normal no
mundo grego. Em outros momentos, a relação homossexual foi
considerada criminosa. Até o século XIX, as autoridades inglesas
executavam em público pessoas apontadas como homossexuais.
Na literatura, o tema sempre foi fonte de inspiração. As parcerias
dos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine resultaram
em belíssimas odes ao corpo masculino e ao amor gay. Nunca,
porém, a prática gay recebeu a aceitação social de que goza
hoje em dia. Os desfiles de "orgulho gay" em Nova
York chegam a reunir 1 milhão de pessoas. Parada semelhante
realizada em São Paulo, no ano passado, juntou 35
.000
ativistas. Os organizadores da próxima falam em 100
.000.
Esperam com isso pressionar o Congresso a aprovar o projeto
de união civil estável de homossexuais, que há quatro anos
está para entrar na pauta de votação. Essa experiência já
funciona com sucesso na Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia,
Bélgica e Holanda. Até na Itália, apesar da oposição da Igreja
Católica, os governos municipais de Pisa e Florença aprovaram
leis semelhantes.
Com essas mudanças positivas, os gays se sentem mais à
vontade para encarar o desafio de tornar pública sua orientação
sexual. A pressão em torno deles não diminui depois que
abrem o jogo em casa. Entre os colegas de trabalho, podem
ser mais ou menos aceitos em sua peculiaridade, mas haverá
sempre barreiras. Os gays reclamam, com razão, que a carreira
profissional deles nunca mais vai ser a mesma depois que
o chefe ou patrão fica sabendo das novidades. Não espanta
que tantos prefiram trilhar o caminho do segredo eterno.
"Com tantas limitações, os homossexuais com coragem
suficiente para enfrentar olhares de desaprovação e piadinhas
de mau gosto podem ser considerados sobreviventes",
diz a psicóloga Ceres de Araújo.
Afinal, quantos são
os gays?
Por muito tempo se acreditou numa estatística divulgada
nos anos 60 segundo a qual 10% da população do planeta
é formada por gays e lésbicas. Há inúmeras pesquisas
sobre a suposta incidência gay, mas a grande maioria
não merece ser levada a sério. Primeiro, porque muitos
dos entrevistados não revelam sua verdadeira opção.
Sabe-se que, quando o assunto é sexo, as pessoas mentem
até mesmo se não forem identificadas.
Além
disso, os critérios para definir o que é ser homossexual
variam conforme o estudo. Aceita-se para efeitos sociais
que gay é aquela pessoa que se relaciona com as do
mesmo sexo. Ocorre que, em alguns estudos, também
é gay aquele que teve uma única experiência homossexual
durante a vida. Diante da falta de rigor nos conceitos,
os números ficam prejudicados. Os dados mais confiáveis
até hoje são os do relatório Kinsey, detalhado levantamento
sobre a sexualidade americana feito na década de 40.
Segundo o trabalho, de 4% a 5% da população masculina
adulta são homossexuais durante toda a vida. Outros
13% são predominantemente homossexuais, mas se relacionam
com pessoas do sexo oposto.
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