Edição 1 636 - 16/2/2000

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"Pai, eu sou gay"

Ouvir essa frase pode ser um pesadelo, mas dizê-la
é quase sempre um momento de alívio na vida
de quem não quer mais esconder da família e
dos amigos sua verdadeira opção sexual

Daniela Pinheiro

 
Montagem sobre foto de Ricardo Benichio
Luiz Paulo Marinho rodeado pela família:
o pai ficou chocado com a revelação

"Não vejo a minha vida de outro jeito. Eu amo uma mulher e só porque eu sou mulher não posso? Quero saber que regra é essa", diz Fabiana Flávia Ferreira, de 23 anos, estudante de engenharia de São Vicente, litoral paulista, e assumida desde os 17.

"Eu já tinha os meus casos, os meus rolos e minha cabeça era homossexual. Mas via meu pai falando que preferia um filho aleijado a um gay", lembra o empresário carioca Luiz Paulo Marinho, 32 anos, homossexual assumido há cinco.

"Ele me disse na caradura: 'Mãe, eu sou homossexual'. Fiquei com ódio. Senti meu sangue subindo à cabeça. Peguei a primeira coisa que vi e corri atrás dele para machucá-lo. Passamos seis meses sem nos falar morando na mesma casa", diz a operária paulista Cleusa Amaral, mãe de César Marchia, hoje com 28 anos. A revelação ocorreu há doze anos.


Ricardo Benichio
Namoradas há três anos, Cristiane Lorca e Fabiana Ferreira (à esquerda) participam de festas de parentes como um casal convencional. "Nossas famílias já estão tão acostumadas a nos ver juntas que, quando uma não aparece, já querem saber se houve alguma coisa", contam


Houve um tempo em que só de pensar que os pais desconfiavam de sua preferência amorosa os jovens tremiam. Muitos optavam por sair de casa para viver uma vida afastada, em que a sexualidade poderia ser exercida em sua plenitude. Não há estatísticas sobre a quantidade de gays que decidem "sair do armário", a gíria usada entre eles para designar a revelação da própria preferência sexual. Na opinião dos especialistas de alguma forma ligados ao fenômeno, no entanto, a sensação é de que nunca houve tanta gente fazendo isso como nos dias de hoje. A lista de motivos para compreender a mudança de comportamento é extensa. Um deles é que, morando mais tempo na casa dos pais, os filhos ficam vulneráveis à vigilância dos mais velhos. O telefone toca e a voz pertence sempre a alguém do mesmo sexo, a filha só sai com amigas e o filho nunca apresenta a namorada. Mentir ficou mais complicado. Outra razão é que nunca se teve tanta abertura para falar sobre sexo em casa. São novelas, filmes, propagandas, um bombardeio de informações que viabilizam um diálogo mais franco.

"É difícil achar um lado bom da Aids, mas a doença levou as famílias a tratar da sexualidade com mais clareza", comenta a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Na avaliação da psiquiatra, além das mudanças na estrutura familiar, a sociedade está mais evoluída para aceitar os gays. Há boates, restaurantes, bares, livrarias, locadoras de vídeo, agências de turismo, hotéis, tudo destinado a homossexuais. A comunidade gay está crescendo tanto que já clama por serviços até outro dia impensáveis. Em São Paulo, um grupo de professores, a maioria homossexual, montou um cursinho pré-vestibular voltado a estudantes gays. Na semana passada, também em São Paulo, anunciava-se a criação de um spa para "entendidos".


Ricardo Benichio
Antonio Santos Silva (à esquerda) e seu filho Alex (centro): "Tinha medo de ele desmunhecar"

Dilema – O desejo sexual é um vulcão que permanece adormecido até o momento em que a criança ingressa na puberdade. A partir daí fica difícil ignorar os impulsos que parecem, a um só tempo, estranhos e atraentes. O sexo torna-se uma fixação. Quando a confusão de hormônios e sentimentos provoca uma insegurança típica da adolescência, alguns são perturbados por uma dúvida adicional. Que situação angustiante a do garoto que observa as formas do amigo na carteira ao lado, na sala de aula, e sente uma coisa estranha. Ou a da menina que vê a amiga tomando banho no vestiário do clube e passa dias fantasiando. Essa experiência acontece na vida de milhões de pessoas e nunca é irrelevante.

A maior parte dos que enfrentam a dúvida sobre a própria sexualidade esconde o dilema de amigos e dos pais. Muitos descobrem pouco a pouco que aquilo não significa uma definição pela homossexualidade, apenas uma hesitação em situações específicas. Esses em geral se acomodarão ao padrão da maioria e seguirão em frente, encontrando satisfação nos jogos eróticos com o sexo oposto. Vencem o fantasma. Tornam-se pais, mães, avôs e avós. Entre os que chegam à conclusão de que, sim, desejam o amigo do mesmo sexo e, sim, são homossexuais, a esmagadora maioria vai fazer tudo que puder para esconder a verdade dos que não sejam seus companheiros de preferência sexual. Essas pessoas fazem uma conta psicológica envolvendo perdas e ganhos sociais e concluem que sair do armário pode custar caro demais. Algumas até se casam, têm filhos e administram o desejo homossexual com escapadas regulares. Os estudos mostram que elas vivem com uma carga de stress muito mais elevada do que o resto da sociedade. Não conseguem livrar-se de um forte sentimento de culpa.

Os gays de vida dupla experimentam duas sensações, opostas e de igual intensidade. Nas noitadas, vivem experiências prazerosas, mas mergulham na culpa ao voltar para casa. Pessoas assim costumam possuir uma baixíssima auto-estima e julgar a própria vida por meio de palavras fortes, como "fraude", "farsa" e "embuste". A repressão dos sentimentos leva os enrustidos a usar uma máscara que não lhes cabe, a de heterossexuais. São expostos a constrangimentos freqüentes, seja em casa, seja no ambiente de trabalho, ao ouvirem referências desairosas sobre os homossexuais. "Desde pequeno, os primeiros palavrões que se aprendem para xingar são bicha e veado. É muito desconfortável conviver com essas expressões martelando a cabeça", diz o universitário brasiliense Caio Varella, de 26 anos, que se assumiu gay aos 18 anos.

Ricardo Benichio
Bar gay em São Paulo, que chega a receber 800 pessoas por final de semana: até há pouco tempo, o homossexual era obrigado a freqüentar o submundo e os guetos para se divertir. Hoje, há locais badalados aonde se vai depois do expediente jogar conversa fora e tomar um drinque na happy hour

Mentira social – Pedro Zarur, 29 anos, editor de livros em São Paulo, concluiu um dia que não queria mais levar à frente o segredo. "Reuni minhas irmãs mais velhas e disse que estava namorando." "Qual o nome dela?", elas perguntaram. Eu disse: "Não é ela. É ele". A feição de cada uma delas naquele momento ficou gravada em minha memória", recorda Pedro, que abriu o jogo há dois anos. Pessoas como o estudante Caio e o editor Pedro mantiveram por muito tempo a mentira social. Mas, depois de fazer a tal conta psicológica, apostaram que, para eles, os ganhos envolvidos na decisão de abrir o jogo justificavam os riscos. No fundo, no fundo, eles (e elas) querem assumir sua opção não apenas à noite, mas também à luz do sol. Querem passear com seu namorado (ele) ou a namorada (ela), convidar os parentes para as festas do casal. Constituir uma família, em alguns casos – sabendo que vão enfrentar os dias mais difíceis de suas vidas.

Apesar do choque inicial, a reação positiva que receberam dos pais fez com que boa parte dos gays assumidos se sentisse muito mais confortável depois da revelação. "Prefiro que ele confie em mim para que possa ser autêntico e não precise mentir o tempo todo", afirma a mãe do empresário carioca Luiz Paulo Marinho, Therezinha Marinho da Silva, de 65 anos. O alívio não significa que a revelação possa ser feita sem um terremoto emocional. Para os gays e lésbicas, assumir a sexualidade em público significa contar justamente o que os outros escondem. "Imagine uma pessoa contando que gosta de apanhar durante o ato sexual. Ia virar motivo de comentários do tipo 'lá vem aquele que gosta de umas palmadas'.", diz o psicólogo Hugues França Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista, especializado no atendimento de jovens homossexuais. "De um certo modo, o mesmo acontece com os gays. Quando contam que gostam de pessoas do mesmo sexo, já se pode visualizar uma cena. E isso é desconfortável para a maioria de seus amigos e parentes."

O primeiro desafio dos gays e lésbicas é aceitar seu desejo sexual. Nessa fase, eles são tomados por uma onda de questionamentos. Isso vai passar? Será que não é doença da qual posso me livrar? "Eu precisei sair do país para entender o que estava acontecendo comigo. Na Europa vi como era normal, encontrei outras pessoas que desestigmatizaram a homossexualidade", diz a empresária Laura Bacellar, 39 anos, proprietária em São Paulo da editora GLS, que publica livros dirigidos ao público gay. Laura se assumiu lésbica aos 18 anos. Ao perceber que a opção sexual não é passageira, o garoto e a garota entram num momento tenso, o da iniciação propriamente dita, em que se misturam as angústias da primeira vez dos heterossexuais com uma sensação de que algo muito estranho e indesejável (mas ao mesmo tempo irresistível) está por acontecer. "Quando descobri que no ambiente das boates e dos bares gays eu podia ser eu mesmo sem me preocupar com nada, sem fingimentos, não quis mais saber de outra coisa. Eu comecei a ir sempre, todo fim de semana", diz o estudante paulista Alex Santos Silva, 18 anos, assumido há três anos.

Nada diz que é genético

Trava-se um debate intenso em torno das razões que orientam a opção sexual das pessoas. De acordo com uma pesquisa do Ibope, 41% da população brasileira acredita que o homossexual já "nasce assim", ou seja, o comportamento estaria definido no código genético. Todos os estudos sérios sobre o assunto desautorizam as afirmações nesse sentido. O mais importante trabalho que difundia a tese da origem genética revelou-se sem consistência científica, o que foi admitido pelo próprio autor, o pesquisador Michael Bailey, da Universidade Northwestern, em Chicago. Bailey encontrou uma forma aparentemente apropriada de analisar as relações entre a sexualidade e a genética. Ele pesquisou a opção sexual de gêmeos univitelinos, cujo material genético, sabe-se, é idêntico. No grupo estudado, em 52% dos casos de homossexualismo, não apenas um dos irmãos era gay, mas os dois. Ao comparar gêmeos fraternos, concebidos a partir de dois óvulos, a taxa de coincidência havia caído para 22%. Se havia mais irmãos gays entre gêmeos idênticos do que entre gêmeos fraternos, por que não acreditar que algo no reino do DNA poderia estar orientando a opção sexual?

A conclusão do doutor Bailey começou a desabar quando, no curso de suas investigações, ele descobriu mais casos de irmãos gays entre adotivos do que entre irmãos de sangue. Como se pode falar em coincidência genética com adotivos? Diante dessa descoberta, Bailey voltou aos gêmeos. Para evitar furos estatísticos, ampliou o universo pesquisado, enviando questionários para todos os gêmeos registrados num país. Como os Estados Unidos são grandes demais, escolheu a Austrália. Por carta, ele enviou as perguntas. Entre os idênticos, recebeu trinta respostas admitindo a homossexualidade. Em apenas três casos, os dois irmãos eram gays. Nos outros 27, apenas um se relacionava com pessoas do mesmo sexo. Nos dezesseis casos de homossexualismo entre gêmeos fraternos, não havia coincidência. Só um dos irmãos era gay. "A tese mais aceita atualmente é de que a orientação sexual é resultado de influências biológicas, psicológicas e socioculturais, sem um peso maior para uma ou outra", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Resolvido o conflito interno, é chegada a hora de contar para a família. A maioria não se abre nunca, como já se viu, e uma parcela ponderável dos jovens espera anos para fazer isso. O motivo da demora não está relacionado ao grau de elaboração que se vai imprimir à notícia, mas ao natural medo que se tem dos pais. Em geral, o anúncio é feito de maneira um tanto atabalhoada. "Minha mãe sabia que eu andava com gays e vivia me perguntando se eu ainda estava com eles. Um dia ela me perguntou: 'Por que você não melhora isso?' Eu respondi: 'Como melhorar? Eu sou um deles, mamãe' ", conta Luiz Paulo, o empresário carioca.

Num primeiro momento, a reação dos pais diante da revelação da homossexualidade dos filhos é entrar em estado de choque. "Meu maior medo era que ele ficasse desmunhecando, me envergonhando por aí. Como isso não aconteceu, fui ficando mais tranqüilo", diz o comerciante Antonio Santos Silva, pai de Alex. Hoje, a convivência dos dois tornou-se harmoniosa porque está combinado que eles evitam discutir o assunto. "Eu não comento sobre a minha sexualidade com meu pai, como ele não comenta a dele comigo", afirma Alex. Essa aceitação vem com dificuldade. Em geral, os pais absorvem qualquer alteração nos planos traçados para os filhos, menos quando o assunto é homossexualidade. Se a filha resolveu estudar geografia em vez de medicina, sem problemas. Se o filho quer largar a faculdade para morar no Nepal, pode-se compreender. Alguns pais dizem que saberiam entender até mesmo se os filhos partissem para as drogas ou o álcool, tentações (reversíveis) do mundo moderno. Só não se conformam com o fato de aquela "criança" sentir atração física por alguém do mesmo sexo. Restabelecidos do choque inicial, os pais são tomados pela culpa. "Onde foi que eu errei?", perguntam. Não há quem não se sinta responsável pelo fato de o filho ou a filha ser homossexual.

"Uma fase" – A etapa seguinte é a da negação, em que poderosos mecanismos de defesa são acionados. Um dos mais fantásticos, observam os psicólogos, é acreditar que a homossexualidade "é uma fase", como se fosse uma atitude ligada à rebeldia da adolescência. Uma das expressões mais representativas desse estágio é: "Mas ele não tem nada de gay", sugerindo que o homossexual é aquele personagem estereotipado e cheio de fricotes que aparece nos programas de televisão. Felizmente, na maioria dos casos, vem a fase da aceitação, quando os pais se conformam com a realidade e, com alguma freqüência, se adaptam bem a ela. Um caso exemplar é o das famílias de Fabiana Ferreira e da empresária Cristiane Lorca, de 33 anos. Namoradas há três anos, elas participam de todos os eventos familiares e organizam festas em casa para os parentes. "Temos um relacionamento maravilhoso com os nossos pais. Quando eles não nos vêem juntas ficam até preocupados", diz Fabiana.

É um fenômeno dos últimos anos a necessidade que um número crescente de jovens sente de compartilhar tudo com os pais. Desde a primeira experiência sexual à primeira tragada no cigarro. O que pode parecer um progresso louvável na relação familiar é de fato uma divisão de culpas e responsabilidades. "Ao expor toda sua vida privada, toda sua sexualidade aos pais, os filhos estão quase pedindo uma autorização para exercê-la", afirma a psicóloga Rosely Sayão. "A revelação não é um grito de independência. É de dependência. É como dizer: 'Eu sou assim', 'Eu faço isso e você vai ter de gostar de mim' ". No fundo, a confissão de ser gay pode ser quase um teste. Em muitos casos, o filho espera saber até que ponto os pais o amam, o aceitam e o terão perto deles. "Durante a infância, os filhos vivem para agradar aos pais. Quando decidem contar que são gays, os jovens estarão desagradando profundamente a eles. E o fazem para checar em último grau se aquele amor é de fato mais forte do que o preconceito", diz a psicóloga paulista Ceres Alves de Araújo.

Alexandre Schneider/Folha Imagem
Cursinho GLS, em São Paulo, onde a maioria dos professores e alunos são homossexuais: o mercado gay também tem agências de viagens, livrarias e até um spa para "entendidos"

Desde muito cedo os gays aprendem a conviver com a discriminação, e isso acontece mesmo antes de assumir a homossexualidade. A garota ou o garoto desenvolvem um sistema de proteção que se baseia na agressividade. A melhor defesa passa a ser o ataque. Quem já não se perguntou por que os gays e lésbicas costumam adotar certos trejeitos que provocam estranheza na maioria das pessoas? A necessidade de afirmar a sexualidade e o medo da reação negativa da sociedade fazem com que alguns gays optem pelo extremo, que é estereotipar o comportamento. É como se ele quisesse dizer: "Perceba como eu sou. E tem mais: eu não vou mudar". Para os heterossexuais, essa agressividade ganha contornos ainda mais contundentes. "É agressivo ver alguém muito diferente de você e mais agressivo ainda se aquilo passa pela sexualidade", afirma a psiquiatra Carmita Abdo.

A estranheza do heterossexual em relação aos homossexuais aumentaria muito se ele tivesse contato com o chamado mundo GLS (que reúne gays, lésbicas e simpatizantes). Para quem está acostumado a freqüentar danceterias heteros, dar uma espiada num clube GLS é uma experiência inesquecível. São centenas de homens ou mulheres envolvidas numa dança de alta conotação sexual. Na maioria desses endereços, vêem-se beijos acrobáticos e mãos passeando pelo corpo alheio sem encontrar obstáculos. A comparação é inevitável. Por que, de modo geral, as casas noturnas heteros são mais comportadas do que as GLS? O motivo é que a ligação dos homossexuais com o erotismo é mais intensa. Como a sociedade não permite que casais gays possam ter manifestações de carinho em público, eles acabam exercitando todas as fases da conquista e do prazer num lugar fechado. Obrigados a reprimir os impulsos durante o dia, os gays passam por uma espécie de catarse noturna. É por esse motivo que as roupas e a decoração nesses ambientes costumam evocar referências eróticas.

Marcos Rosa
Lésbicas em parada do "orgulho gay" em Nova York: até 1 milhão de ativistas reunidos. Em São Paulo, a expectativa é levar 100 000 pessoas às ruas em junho

A homossexualidade permeou a história da humanidade alternando papéis. Às vezes, a prática era estimulada. Na Grécia antiga, Platão escreveu muito sobre o assunto. Safo, poeta e lésbica, também exaltou o amor lírico entre iguais. Entre os séculos V e IV a.C., a bissexualidade era tida como coisa normal no mundo grego. Em outros momentos, a relação homossexual foi considerada criminosa. Até o século XIX, as autoridades inglesas executavam em público pessoas apontadas como homossexuais. Na literatura, o tema sempre foi fonte de inspiração. As parcerias dos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine resultaram em belíssimas odes ao corpo masculino e ao amor gay. Nunca, porém, a prática gay recebeu a aceitação social de que goza hoje em dia. Os desfiles de "orgulho gay" em Nova York chegam a reunir 1 milhão de pessoas. Parada semelhante realizada em São Paulo, no ano passado, juntou 35.000 ativistas. Os organizadores da próxima falam em 100.000. Esperam com isso pressionar o Congresso a aprovar o projeto de união civil estável de homossexuais, que há quatro anos está para entrar na pauta de votação. Essa experiência já funciona com sucesso na Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia, Bélgica e Holanda. Até na Itália, apesar da oposição da Igreja Católica, os governos municipais de Pisa e Florença aprovaram leis semelhantes.

Com essas mudanças positivas, os gays se sentem mais à vontade para encarar o desafio de tornar pública sua orientação sexual. A pressão em torno deles não diminui depois que abrem o jogo em casa. Entre os colegas de trabalho, podem ser mais ou menos aceitos em sua peculiaridade, mas haverá sempre barreiras. Os gays reclamam, com razão, que a carreira profissional deles nunca mais vai ser a mesma depois que o chefe ou patrão fica sabendo das novidades. Não espanta que tantos prefiram trilhar o caminho do segredo eterno. "Com tantas limitações, os homossexuais com coragem suficiente para enfrentar olhares de desaprovação e piadinhas de mau gosto podem ser considerados sobreviventes", diz a psicóloga Ceres de Araújo.

 

Afinal, quantos são os gays?

Por muito tempo se acreditou numa estatística divulgada nos anos 60 segundo a qual 10% da população do planeta é formada por gays e lésbicas. Há inúmeras pesquisas sobre a suposta incidência gay, mas a grande maioria não merece ser levada a sério. Primeiro, porque muitos dos entrevistados não revelam sua verdadeira opção. Sabe-se que, quando o assunto é sexo, as pessoas mentem até mesmo se não forem identificadas.

Além disso, os critérios para definir o que é ser homossexual variam conforme o estudo. Aceita-se para efeitos sociais que gay é aquela pessoa que se relaciona com as do mesmo sexo. Ocorre que, em alguns estudos, também é gay aquele que teve uma única experiência homossexual durante a vida. Diante da falta de rigor nos conceitos, os números ficam prejudicados. Os dados mais confiáveis até hoje são os do relatório Kinsey, detalhado levantamento sobre a sexualidade americana feito na década de 40. Segundo o trabalho, de 4% a 5% da população masculina adulta são homossexuais durante toda a vida. Outros 13% são predominantemente homossexuais, mas se relacionam com pessoas do sexo oposto.