Fim da inocência
Hackers
fazem ataque em massa e a rede
mundial não será mais a mesma
Gustavo Poloni
O mundo virtual foi
sacudido na semana passada pelo mais violento e bem organizado
ataque de hackers já tentado desde o surgimento da
internet. Alguns dos sites mais conhecidos da rede ficaram
horas fora do ar, com seus computadores paralisados por
uma barragem descomunal de ordens desconexas enviadas pelos
sabotadores. O que mais espantou foi a estratégia
de ação dos hackers. Durante semanas eles
plantaram programas agressores em computadores no território
americano. As máquinas foram propositadamente infectadas
por vírus enviados pelos guerrilheiros cibernéticos
(veja quadro). Sites como o
Yahoo!, o mais visitado da internet, e o da emissora de
TV a cabo CNN ficaram algumas horas sob efeito dos ataques.
Outro alvo preferencial dos sabotadores foram as empresas
que vendem mercadorias pela internet, um ramo cada vez mais
poderoso da economia mundial. No Natal passado, essas companhias
registraram mais de 20 bilhões de dólares
em vendas nos Estados Unidos. "O FBI ainda não sabe
o motivo dos ataques, mas tudo indica que a intenção
foi gerar desconfiança no comércio eletrônico.
É por isso que decidimos investigar o assunto", disse
Janet Reno, secretária de Justiça dos Estados
Unidos.
Conforme estimativas
feitas na sexta-feira passada, as empresas atacadas deverão
ter ao longo do ano 2000 gastos adicionais de 100 milhões
de dólares com ações de marketing para
recuperação da imagem. Pelo menos outros 100
milhões serão despendidos com a tentativa
de proteger os computadores de outras investidas. Apenas
nas quatro horas em que ficou fora do ar, a livraria Amazon.com
deixou de faturar alguma coisa em torno de 750.000 dólares,
de acordo com avaliação feita com base nas
vendas da empresa em 1999. O E*Trade, página pela
qual se podem comprar e vender ações na bolsa
de Wall Street, mandou um questionário para cada
um dos clientes para saber que prejuízo tiveram com
a paralisação. Vai indenizar todos eles.
Os hackers não
ganharam um centavo com a ação terrorista.
Eles agiram como vândalos cuja intenção
era gerar pânico e obrigar as empresas a baixar suas
portas. Conseguiram. Se havia algo a comemorar depois do
ataque da semana passada foi o fato de os atacantes não
terem tido acesso aos dados dos clientes. Nem esse era o
objetivo deles. De toda forma ficou patente que os dados
de cartões de crédito e endereço dos
milhões de clientes on-line não são
vulneráveis. Nenhuma informação armazenada
nas zonas de segurança dos computadores das lojas
virtuais foi violada. Os guerrilheiros não feriram
de morte negócio algum. Essa foi a prova de força
dada pela internet. A demonstração de fragilidade
foi a incapacidade de rechaçar o ataque terrorista,
de aniquilar os guerrilheiros cibernéticos ou identificá-los
prontamente. Na noite de sexta-feira passada, o FBI já
fechava o cerco em torno de alguns suspeitos e esperava-se
uma ação repressiva para o fim de semana.
As autoridades descobriram que computadores poderosos de
duas universidades americanas foram usados pelos terroristas
virtuais.
O ataque se dividiu
em várias fases. Na primeira, milhares de cópias
de um programa simples foram despachadas em direção
a sites com pouca preocupação com a segurança,
como os de universidades e de institutos de pesquisas. As
armas utilizadas podem ter sido o Trin00, o Tribe Flood
Network, disponíveis na própria internet,
ou algum outro programa criado especialmente para a ocasião.
Com a característica de ocupar pouco espaço
na memória dos computadores que o receberam, o programa
ficou adormecido à espera da ordem para entrar em
ação. Quando os hackers ordenaram, os computadores
infectados passaram a mandar milhões de mensagens
simultâneas para os sites que deveriam atacar.
Um usuário de
verdade que tentasse fazer uma visita às páginas
sob ataque não seria atendido. A modalidade de invasão,
batizada de denial of service, que significa "recusa
de serviço", foi bem-sucedida e a pergunta é:
seria possível fazer alguma coisa contra isso? A
resposta: com o atual padrão de segurança
da rede, não. As mensagens causadoras da confusão
não poderiam ser bloqueadas antes de atingir o alvo.
Os telefonemas e os sinais de rádio podem ser interceptados
a qualquer momento da transmissão. Uma mensagem de
internet, não. Depois de deixar o computador de origem,
uma mensagem com começo, meio e fim se fragmenta
em milhares de partes ao entrar na rede. E cada uma delas
viaja por um caminho diferente até chegar ao destino.
Então a mensagem é novamente agrupada e entregue
ao destinatário. Ou seja: é impossível
descobrir pelo trânsito da rede que há milhões
de mensagens simultâneas se dirigindo ao mesmo destinatário.
"A própria forma de funcionamento da internet facilita
a ação dos hackers", diz Leonardo Scudere,
presidente da filial brasileira da Internet Security Systems,
a ISS, uma empresa especializada em segurança da
informação.
A discussão
em torno dos ataques de hackers cresce em importância
na medida em que o comércio eletrônico se consolida
como um dos principais veios da internet, mas não
há razão para alarme. Até prova em
contrário, é muito mais seguro fazer compra
pela rede, do computador de casa, do que ir ao shopping
com dinheiro no bolso e voltar para casa com a mercadoria.
É bom não confundir ataques de hackers com
alguns eventos que a imprensa brasileira se apressa em classificar
como crimes virtuais. Na semana passada, foi presa em Curitiba
uma quadrilha que vinha roubando clientes do Banco Itaú
com a ajuda de um computador. Os larápios disseram
à polícia que encontraram um maço de
cheques já compensados na lixeira de uma agência,
o que lhes deu o número das contas, e conseguiram
deduzir as senhas a partir do cruzamento de alguns dados.
A polícia acredita que alguém de dentro do
próprio banco forneceu os cheques e as senhas aos
bandidos. Conforme o delegado Mauro Marcelo de Lima e Silva,
chefe do setor de investigações de crimes
via internet da Polícia Civil de São Paulo,
a maioria dos malfeitores eletrônicos em ação
no Brasil são amadores que deixam pistas por todos
os lados. "Os hackers brasileiros não fazem mal a
ninguém", diz Silva. "Até agora não
apareceu nenhum com conhecimento técnico suficiente
para levar adiante uma ação como essa que
aconteceu nos Estados Unidos na semana passada."