Edição 1 636 - 16/2/2000

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O dinheiro não paga

Judeus brasileiros perseguidos pelo nazismo
recebem compensação financeira da Suíça

Rodrigo Vieira da Cunha

 

Edson Vara


Número tatuado no braço de Reli em Auschwitz: a letra "A" é a inicial de arbeit, trabalho em alemão

Nas últimas semanas, 181 judeus que vivem no Brasil receberam um cheque de 993 reais cada um. Todos têm mais de 65 anos e moravam na Europa durante a II Guerra Mundial. A maioria atravessou a guerra humilhada em campos de concentração. Outros viveram em guetos ou passaram anos fugindo das tropas alemãs. Alguns assistiram ao fuzilamento de pais e irmãos. Quase 55 anos depois de terminada a guerra, os judeus brasileiros vão receber um cheque enviado por um comitê de bancos suíços. A importância que está chegando ao Brasil, 100.000 dólares no total, faz parte de um fundo humanitário de 200 milhões de dólares criado por banqueiros suíços na tentativa de esconjurar sua parcela de culpa pelo holocausto. São duas as acusações que pesam sobre os ombros daquele país. A primeira é ficar com o dinheiro das contas das vítimas do massacre nazista. A segunda é financiar a guerra ao comprar o ouro que os nazistas roubavam dos judeus e dos países invadidos. Um estudo feito pelo governo americano em 1997 estima que o valor do ouro comprado dos nazistas pelos suíços pode chegar a 3,5 bilhões de dólares em valores atualizados. "Queremos, sim, que os sobreviventes sejam indenizados", diz Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista. "Mas não podemos esquecer que os nazistas roubaram 6 milhões de vidas judaicas. Essas não podem ser restituídas."

O dinheiro que está chegando agora foi entregue a título de ajuda humanitária. Só tem direito a ele quem provar estar passando necessidade financeira. O beneficiado não pode ganhar mais de 300 dólares por mês. Cada país recebeu uma quantia proporcional ao tamanho de sua população judia e a repartiu por critérios próprios. Os brasileiros estão recebendo menos que a média mundial. A Confederação Israelita do Brasil, responsável pela distribuição do dinheiro no país, preferiu diminuir o valor do benefício para favorecer um número maior de pessoas. O dinheiro não encerra a reparação dos danos. Há ainda outra indenização acertada, dois anos atrás, entre o Congresso Mundial Judaico, o órgão que representa os judeus na negociação, e os bancos suíços. Essa segunda remessa só começa a chegar no segundo semestre. Será distribuído 1,25 bilhão de dólares. Perto de 400.000 pessoas devem ser indenizadas em todo o mundo. Os judeus que receberam o cheque de 993 reais na semana passada reagiram com compreensível desconforto. Reli Blau é viúva, nasceu na Romênia, mora em Porto Alegre e é costureira aposentada. Tinha 12 anos quando foi separada dos pais, que nunca mais viu, e ainda traz tatuado no braço o número de identificação que recebeu no campo de concentração de Auschwitz. "Esse cheque é uma miséria. Dinheiro nenhum paga o que passamos", diz.