Edição 1 636 - 16/2/2000

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O bote do inverno

A pele de cobra volta mudada na cor e na forma,
mas os preços continuam envenenados

Rachel Campello

 

Elena Vettorazzo

Pele de cobra, todo mundo sabe como é: rajadinha de branco, preto e cinza, do tipo que cobriu cintos, bolsas, carteiras e sapatos finos até a década de 70, quando saiu de moda por força da mobilidade dos gostos e do barulho das brigadas de proteção aos animais em extinção. Pois neste inverno a velha, boa e cara pele de cobra volta com toda a força – e volta bastante diferente. Mudaram, primeiro, as cores. Graças a processos modernos de tratamento e tingimento, agora tem cobra vermelha, azul, amarela, verde, ao gosto do freguês. Mudou também a forma. Além dos tradicionais sapatos e bolsas, elas deram o bote em direção às roupas. A inspiração, digamos, partiu, como de costume, das passarelas francesas, em que Chanel, Gucci e Jean-Paul Gaultier, entre outros, exibiram vestidos, saias e até brincos de cobra nas coleções de inverno apresentadas em meados do ano passado. Agora, com o inverno brasileiro chegando às vitrines cheio de brilho, luxo e sofisticação, a cobra repaginada, verdadeira ou não, faz a festa. "Os adornos estão em alta. As pessoas querem o exagero, querem se enfeitar", diz a estilista Serpui Marie, de São Paulo.

 
Fotos: Marcelo Saraiva

Mules marrom e vermelha e botas caramelo: 36 cores

Adaptação a novas formas: quatro peles fazem uma saia

Houve tempo no Brasil em que a caça de cobra era abundante e a pele, produto típico do país, daqueles que o turista acha irresistíveis. "Na década de 60, qualquer um comprava pele de cobra na Praça Mauá, no Rio de Janeiro", lembra o consultor de moda Fernando de Barros. Atualmente é proibido caçar cobra para vender, e a produção dos poucos criadores vai sobretudo para laboratórios que usam o veneno e lojas de bichinhos de estimação. O controle ficou mais rigoroso ainda a partir de 1994, quando o Ibama passou a exigir também dos importadores uma licença especial para cada pele comprada fora. Mesmo com a exigência, o comércio, puxado pela moda, cresceu mais de 50% no ano passado: saltou de 6.500 para 10.000 peles importadas do Sudeste Asiático, sobretudo da Malásia e Indonésia. O material chega ao Brasil em estado bruto e aqui é curtido – mais macio para roupas, mais firme para calçados e bolsas – e tingido em 36 cores. Quanto mais desenhos tiver a pele, mais valiosa ela é. A imensa píton (a do filme Anaconda é uma delas, exagerada) e a naja de pescoço dilatado, a preferida dos encantadores de serpentes, são as estrelas das coleções. Depois de devidamente curtidas e tingidas, os estilistas entram em ação: duas peles viram um par de sapatos ou uma bolsa pequena, quatro são suficientes para uma saia ou um par de botas.

 

Jaquetinha básica, a campeã do luxo: 5 000 reais na loja

Design moderno: a bolsa da vovó revisitada

Uma peça só – Por ser pequena e relativamente escassa, a pele de cobra é hoje, como sempre foi, muito cara: enquanto 1 metro quadrado de couro de boi custa à confecção cerca de 30 reais, a mesma medida aplicada à cobra sairia por 500 reais. Adicionem-se a isso corte, design e um nome de peso na etiqueta, e os preços vão às alturas. Uma saia básica das coleções deste inverno passa de 1.000 reais; uma jaqueta chega a 5.000; sapatos e bolsas estão por volta de 700 reais. Quem, mesmo assim, se dispuser a sacar o talão de cheques em nome da moda precisa ter em mente que o charme, nesse caso, está nos detalhes e que a pele não deve jamais extrapolar os limites de uma – uma só – peça do vestuário. "Coisas marcantes, como a cobra, são comprometedoras", explica Nelson Alvarenga, dono da grife Ellus. "É preciso ter muito bom senso para não ficar ridícula." Tomado esse cuidado, é só aproveitar enquanto durar. "Como tudo, essa onda também vai passar", avisa a estilista Riccy Trussardi Sousa Aranha, da paulista Mixed. "Mas, por ser um artigo fino, vale guardar e reciclar no futuro."