Edição 1 636 - 16/2/2000

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Carros transgênicos

 

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Ilustração em Shockwave Flash
Na onda da globalização, a indústria
automobilística aproveita uma só
estrutura para vários modelos

Marcos Gusmão

O SLA Vision, o menor conversível já produzido pela Mercedes-Benz, alcançou o status de vedete internacional da marca assim que foi exibido pela primeira vez, nos Estados Unidos, no mês passado. É um carro belíssimo, arrojado e de carroceria diminuta, com pouco mais de 3,5 metros de comprimento, cerca de 16 centímetros maior que um Ford Ka. Mas os olhos se voltaram para esse esportivo não apenas pelo que se pôde ver. O interesse pelo carro cresceu depois que os chefões da montadora revelaram a novidade que ele trazia embaixo do assoalho, longe dos olhos atentos do público. Com fôlego para alcançar 200 quilômetros por hora, o novo conversível foi construído em cima da plataforma de um Classe A, o compacto fabricado na Alemanha e em Juiz de Fora. Por que uma peça metálica aparentemente sem graça dividiu o estrelato com a frente em formato de flecha e os detalhes em estilo anos 50 do modelo? Isso aconteceu porque é a primeira vez que a Mercedes-Benz compartilha uma plataforma para dois modelos de carros completamente diferentes. A empresa, dona de carros classudos e exclusivos, curvou-se a essa tendência da indústria automobilística, que já conquistou gigantes como Volkswagen e Ford. O objetivo é derrubar os custos de produção e racionalizar ao máximo as linhas de montagem espalhadas por diferentes países. Numa comparação com as modernas técnicas que estão revolucionando a biologia, foi como se injetasse os genes de um carro popular e mais barato na espinha dorsal de um modelo sofisticado.

O uso de uma única estrutura com o objetivo de servir de base para carros diferentes ganhou força no início dos anos 90. Surgiu na onda de globalização da indústria automobilística, que tenta unificar visual e mecânica de modelos em todo o mundo. De lá para cá, o número de marcas que adotaram essa estratégia aumentou, atraindo pesos pesados como a Citroën, a Peugeot e agora a Mercedes-Benz. "A utilização de uma mesma plataforma em modelos diferentes é uma característica dos carros mais modernos hoje em dia", diz Arthur Levy, gerente de marketing de produto da Volkswagen. Os modelos fabricados com plataforma não usam parafusos nem rebites, como acontecia com os carros montados em cima de chassi. A nova estrutura é soldada na carroceria, muitas vezes com o uso de raio laser, formando um bloco metálico único, muito mais resistente.

 
... ....Cido


O reaproveitamento de uma única base para carros diferentes gera economia nos custos de projeto e produção. Por isso, quanto menos plataformas com condições de servir de base para um número maior de modelos, melhor para os fabricantes. Mas não é fácil. Na verdade, trata-se de um grande desafio. A Volkswagen topou essa parada. Desde 1997 vem tentando reduzir de dezesseis para quatro o número de plataformas, ao mesmo tempo em que aumenta a oferta de modelos. Com isso conseguirá obter economia de 15% a 25% nos custos de produção de seus carros. Ninguém sabe exatamente quanto essa mudança representará em descontos ao consumidor. Mas é uma conseqüência dada como certa de ocorrer. A experiência mais importante atualmente nessa espécie de clonagem de estruturas é a do Golf. A plataforma da quarta geração do carro, que é produzido em São José dos Pinhais, no Paraná, é a mesma de outros doze modelos. Na nova fábrica, as marcas Volkswagen e Audi compartilham a mesma estrutura, que tem 2,51 metros entre os eixos das rodas. Essa base também é usada por modelos fabricados em outros países, como o badalado New Beetle, os superesportivos Audi TT, nas versões com e sem teto, os espanhóis Seat Toledo e Cupra e o checo Skoda Octavia. "A plataforma permite maior versatilidade dentro das fábricas", explica Carlos Henrique Ferreira, engenheiro de produto da Fiat do Brasil. "A tendência é radicalizar a utilização desse sistema, mas os carros que compartilham uma mesma base continuarão mantendo suas particularidades de motorização, acabamento e estilo", garante Ferreira. É uma revolução que ficará restrita a uma parte do carro que ninguém vê.