Carros transgênicos
Na onda da globalização, a indústria
automobilística aproveita uma só
estrutura para
vários modelos
Marcos Gusmão
O SLA Vision, o menor conversível já produzido
pela Mercedes-Benz, alcançou o status de vedete internacional
da marca assim que foi exibido pela primeira vez, nos Estados
Unidos, no mês passado. É um carro belíssimo,
arrojado e de carroceria diminuta, com pouco mais de 3,5
metros de comprimento, cerca de 16 centímetros maior
que um Ford Ka. Mas os olhos se voltaram para esse esportivo
não apenas pelo que se pôde ver. O interesse
pelo carro cresceu depois que os chefões da montadora
revelaram a novidade que ele trazia embaixo do assoalho,
longe dos olhos atentos do público. Com fôlego
para alcançar 200 quilômetros por hora, o novo
conversível foi construído em cima da plataforma
de um Classe A, o compacto fabricado na Alemanha e em Juiz
de Fora. Por que uma peça metálica aparentemente
sem graça dividiu o estrelato com a frente em formato
de flecha e os detalhes em estilo anos 50 do modelo? Isso
aconteceu porque é a primeira vez que a Mercedes-Benz
compartilha uma plataforma para dois modelos de carros completamente
diferentes. A empresa, dona de carros classudos e exclusivos,
curvou-se a essa tendência da indústria automobilística,
que já conquistou gigantes como Volkswagen e Ford.
O objetivo é derrubar os custos de produção
e racionalizar ao máximo as linhas de montagem espalhadas
por diferentes países. Numa comparação
com as modernas técnicas que estão revolucionando
a biologia, foi como se injetasse os genes de um carro popular
e mais barato na espinha dorsal de um modelo sofisticado.
O uso de uma única estrutura com o objetivo de
servir de base para carros diferentes ganhou força
no início dos anos 90. Surgiu na onda de globalização
da indústria automobilística, que tenta unificar
visual e mecânica de modelos em todo o mundo. De lá
para cá, o número de marcas que adotaram essa
estratégia aumentou, atraindo pesos pesados como
a Citroën, a Peugeot e agora a Mercedes-Benz. "A utilização
de uma mesma plataforma em modelos diferentes é uma
característica dos carros mais modernos hoje em dia",
diz Arthur Levy, gerente de marketing de produto da Volkswagen.
Os modelos fabricados com plataforma não usam parafusos
nem rebites, como acontecia com os carros montados em cima
de chassi. A nova estrutura é soldada na carroceria,
muitas vezes com o uso de raio laser, formando um bloco
metálico único, muito mais resistente.
... ....Cido
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O reaproveitamento de uma única base para carros
diferentes gera economia nos custos de projeto e produção.
Por isso, quanto menos plataformas com condições
de servir de base para um número maior de modelos,
melhor para os fabricantes. Mas não é fácil.
Na verdade, trata-se de um grande desafio. A Volkswagen
topou essa parada. Desde 1997 vem tentando reduzir de dezesseis
para quatro o número de plataformas, ao mesmo tempo
em que aumenta a oferta de modelos. Com isso conseguirá
obter economia de 15% a 25% nos custos de produção
de seus carros. Ninguém sabe exatamente quanto essa
mudança representará em descontos ao consumidor.
Mas é uma conseqüência dada como certa
de ocorrer. A experiência mais importante atualmente
nessa espécie de clonagem de estruturas é
a do Golf. A plataforma da quarta geração
do carro, que é produzido em São José
dos Pinhais, no Paraná, é a mesma de outros
doze modelos. Na nova fábrica, as marcas Volkswagen
e Audi compartilham a mesma estrutura, que tem 2,51 metros
entre os eixos das rodas. Essa base também é
usada por modelos fabricados em outros países, como
o badalado New Beetle, os superesportivos Audi TT, nas versões
com e sem teto, os espanhóis Seat Toledo e Cupra
e o checo Skoda Octavia. "A plataforma permite maior versatilidade
dentro das fábricas", explica Carlos Henrique Ferreira,
engenheiro de produto da Fiat do Brasil. "A tendência
é radicalizar a utilização desse sistema,
mas os carros que compartilham uma mesma base continuarão
mantendo suas particularidades de motorização,
acabamento e estilo", garante Ferreira. É uma revolução
que ficará restrita a uma parte do carro que ninguém
vê.