Edição 1 636 - 16/2/2000

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Natureza cibernética

Na luta para salvar animais da extinção, cientistas
usam aviões, radares, câmaras ocultas e até satélites

Alexandre Mansur

O helicóptero é a principal ferramenta de trabalho dos cientistas que pesquisam o veado pantaneiro nas imediações da usina hidrelétrica de Porto Primavera, em São Paulo. Eles fazem vôos rasantes, perseguindo implacavelmente o animal até que ele se canse e fique encurralado. Em seguida, saltam do helicóptero, prendem o bicho e amarram uma coleira no seu pescoço. Nela há um radiotransmissor envolto numa camada de silicone, inquebrável e à prova d'água. Esse aparelho emite um sinal captável por uma antena que pode ser instalada em um avião, na carroceria de um jipe ou em um barco. Dessa forma, os pesquisadores da Universidade Estadual Paulista, Unesp, em Jaboticabal, acompanham cada movimento do veado e sabem, o tempo todo, se ele está vivo, dormindo ou mesmo morto. As informações são fundamentais para entender como a espécie, que corre o risco de desaparecer, está sendo afetada pelo enchimento do lago da hidrelétrica.

Os animais mais ameaçados de extinção, caso do veado pantaneiro, são também os mais difíceis de ser estudados. As onças-pintadas se escondem na densa Mata Atlântica. As baleias beluga nadam milhares de quilômetros sob os icebergs do Oceano Ártico. Até uma década atrás, era uma proeza adivinhar por onde andavam esses bichos, ou em que locais eles se alimentavam e se reproduziam. Os pesquisadores só podiam contar com pistas indiretas, como pegadas ou restos de comida deixados por eles. Agora tudo mudou. A alta tecnologia chegou ao mundo animal. Biólogos estão adotando transmissores de rádio para seguir peixes-boi, lobos-guarás e onças. "É a única maneira de seguir uma onça que se esgueira pela floresta numa área de até 95 quilômetros quadrados", conta Laury Cullen, do Instituto de Pesquisas Ecológicas, em São Paulo. Espécies que vão mais longe, como as tartarugas marinhas e os tuiuiús do Pantanal Mato-Grossense, levam aparelhos com sistemas de posicionamento via satélite. Com essas informações, é possível traçar com precisão que área cada espécie ocupa para melhor protegê-las dos caçadores e de outros inimigos.

Em geral, os transmissores não ultrapassam 4% do peso do animal. Alguns aparelhos são do tamanho de uma azeitona. A maior limitação da pesquisa é o tempo de duração das baterias nos transmissores. Geralmente, não passa de dois anos. Depois, o animal tem de ser capturado de novo. Transmissores mais modernos vêm equipados com uma máquina de aplicar injeção, cuja cápsula fica cheia de sedativo. Quando chega a hora de recapturar o animal, o pesquisador só precisa apertar um controle remoto e o aparelho faz o serviço. No caso dos tuiuiús, os pesquisadores do Ibama preferiram usar transmissores alimentados por energia solar, que funcionam por mais tempo.

Algumas pesquisas utilizam técnicas requintadas. Um grupo da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, espalhou bóias esféricas com microfones aquáticos no Mar Mediterrâneo. Os aparelhos tinham sido desenvolvidos pela Marinha para detectar submarinos soviéticos. Hoje são utilizados para descobrir como os cachalotes estão sobrevivendo em águas poluídas. Biólogos da Universidade Texas A&M adaptaram uma câmara de vídeo submarina e fixaram o aparelho no dorso das focas da Antártica. Já têm 300 horas gravadas, fruto de 700 mergulhos. O resultado foi que, pela primeira vez, tornou-se possível assistir a como elas vão até o fundo do oceano e depois surgem sob os grandes cardumes, encurralando os peixes nas placas de gelo flutuantes. Nas savanas da África Central, pesquisadores americanos estão começando a relacionar os sons que os elefantes emitem com determinadas atitudes comportamentais. Assim, conseguem construir uma espécie de dicionário da comunicação entre os animais. Para bisbilhotar como os elefantes se comportam quando estão reunidos, os cientistas esconderam microfones e câmaras nas árvores, no melhor estilo paparazzi. A intimidade do reino animal nunca foi tão devassada.