Natureza cibernética
Na luta para salvar animais da extinção,
cientistas
usam aviões, radares, câmaras ocultas e até
satélites
Alexandre Mansur
O helicóptero é a principal ferramenta de
trabalho dos cientistas que pesquisam o veado pantaneiro
nas imediações da usina hidrelétrica
de Porto Primavera, em São Paulo. Eles fazem vôos
rasantes, perseguindo implacavelmente o animal até
que ele se canse e fique encurralado. Em seguida, saltam
do helicóptero, prendem o bicho e amarram uma coleira
no seu pescoço. Nela há um radiotransmissor
envolto numa camada de silicone, inquebrável e à
prova d'água. Esse aparelho emite um sinal captável
por uma antena que pode ser instalada em um avião,
na carroceria de um jipe ou em um barco. Dessa forma, os
pesquisadores da Universidade Estadual Paulista, Unesp,
em Jaboticabal, acompanham cada movimento do veado e sabem,
o tempo todo, se ele está vivo, dormindo ou mesmo
morto. As informações são fundamentais
para entender como a espécie, que corre o risco de
desaparecer, está sendo afetada pelo enchimento do
lago da hidrelétrica.
Os animais mais ameaçados de extinção,
caso do veado pantaneiro, são também os mais
difíceis de ser estudados. As onças-pintadas
se escondem na densa Mata Atlântica. As baleias beluga
nadam milhares de quilômetros sob os icebergs do Oceano
Ártico. Até uma década atrás,
era uma proeza adivinhar por onde andavam esses bichos,
ou em que locais eles se alimentavam e se reproduziam. Os
pesquisadores só podiam contar com pistas indiretas,
como pegadas ou restos de comida deixados por eles. Agora
tudo mudou. A alta tecnologia chegou ao mundo animal. Biólogos
estão adotando transmissores de rádio para
seguir peixes-boi, lobos-guarás e onças. "É
a única maneira de seguir uma onça que se
esgueira pela floresta numa área de até 95
quilômetros quadrados", conta Laury Cullen, do Instituto
de Pesquisas Ecológicas, em São Paulo. Espécies
que vão mais longe, como as tartarugas marinhas e
os tuiuiús do Pantanal Mato-Grossense, levam aparelhos
com sistemas de posicionamento via satélite. Com
essas informações, é possível
traçar com precisão que área cada espécie
ocupa para melhor protegê-las dos caçadores
e de outros inimigos.
Em geral, os transmissores não ultrapassam 4% do
peso do animal. Alguns aparelhos são do tamanho de
uma azeitona. A maior limitação da pesquisa
é o tempo de duração das baterias nos
transmissores. Geralmente, não passa de dois anos.
Depois, o animal tem de ser capturado de novo. Transmissores
mais modernos vêm equipados com uma máquina
de aplicar injeção, cuja cápsula fica
cheia de sedativo. Quando chega a hora de recapturar o animal,
o pesquisador só precisa apertar um controle remoto
e o aparelho faz o serviço. No caso dos tuiuiús,
os pesquisadores do Ibama preferiram usar transmissores
alimentados por energia solar, que funcionam por mais tempo.
Algumas pesquisas utilizam técnicas requintadas.
Um grupo da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, espalhou
bóias esféricas com microfones aquáticos
no Mar Mediterrâneo. Os aparelhos tinham sido desenvolvidos
pela Marinha para detectar submarinos soviéticos.
Hoje são utilizados para descobrir como os cachalotes
estão sobrevivendo em águas poluídas.
Biólogos da Universidade Texas A&M adaptaram
uma câmara de vídeo submarina e fixaram o aparelho
no dorso das focas da Antártica. Já têm
300 horas gravadas, fruto de 700 mergulhos. O resultado
foi que, pela primeira vez, tornou-se possível assistir
a como elas vão até o fundo do oceano e depois
surgem sob os grandes cardumes, encurralando os peixes nas
placas de gelo flutuantes. Nas savanas da África
Central, pesquisadores americanos estão começando
a relacionar os sons que os elefantes emitem com determinadas
atitudes comportamentais. Assim, conseguem construir uma
espécie de dicionário da comunicação
entre os animais. Para bisbilhotar como os elefantes se
comportam quando estão reunidos, os cientistas esconderam
microfones e câmaras nas árvores, no melhor
estilo paparazzi. A intimidade do reino animal nunca foi
tão devassada.