Elas são a lei
Comandada por uma mulher,
a polícia baiana tem 45% de delegadas
Adriana Setti
Fernando Vivas
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| A secretária Kátia
Alves: tolerância zero |
Durante o Carnaval do ano passado em Salvador, o compositor
Caetano Veloso foi apresentado a uma loira bonita e bem
vestida, 1,70 metro de altura, pele e cabelos muito bem-cuidados.
"Esta é a nossa secretária de Segurança",
explicou-lhe a mulher de um deputado federal. "Quem?", estranhou
Caetano. Depois de ouvir a explicação pela
segunda vez, comentou: "Só podia ser na Bahia". Kátia
Alves, uma advogada de 40 anos nascida em Vitória
da Conquista, já se habituou a reações
dessa natureza. Desde janeiro de 1999, ela tem a responsabilidade
de zelar pela segurança de todo um Estado e comandar
45.000 funcionários divididos
entre Polícia Militar, Civil, Departamento Estadual
de Trânsito (Detran) e Departamento de Polícia
Técnica. O que surpreende é que ela não
é um exemplar tão raro no ninho policial baiano.
Há 202 delegadas na Bahia. Feitas as contas, 45%
das delegacias do Estado são comandadas por mulheres
que carregam o revólver na cintura e o estojo de
maquiagem na bolsa. Em São Paulo, esse índice
não ultrapassa 10%. Até a Delegacia de Furtos
e Roubos, uma área normalmente reservada à
atuação masculina, na Bahia está sob
o comando de uma mulher, a delegada Emília Blanco.
"As mulheres são mais estudiosas e têm ocupado
sempre as primeiras colocações nos concursos",
afirma o diretor da Academia de Polícia baiana, Antônio
Medrado Alcântara. "Além disso, são
mais leais e responsáveis. Essas características
são muito importantes num bom policial."
Casada
com um contador e mãe de dois adolescentes, Kátia
Alves foi delegada por doze anos, antes de assumir a Secretaria
de Segurança. No começo, a família
não gostou da carreira que ela escolhera. "Só
aprovei quando vi que ela impunha respeito até aos
policiais mais velhos", diz o marido, Idailton Oliveira
Santos. Kátia tornou-se conhecida no meio policial
baiano após resolver crimes de grande repercussão.
No início de 1996, uma série de atentados
contra prostitutas assustou a população de
Salvador e intrigou a polícia. As mulheres eram estupradas,
dopadas e torturadas. Acordavam com o corpo todo espetado
por agulhas. A delegada já tinha reunido provas contra
um suspeito, mas não conseguira recolher depoimentos
suficientes das vítimas para que o inquérito
fosse instaurado. Por duas noites, vestiu-se como prostituta
e freqüentou a noite barra pesada do centro da cidade.
Ao final da operação, encontrou quatro mulheres
que haviam caído nas mãos do maníaco,
Gerd Wenzinger, um alemão sádico que acabou
cometendo suicídio pouco antes de ser extraditado.
A eficiência de Kátia atraiu a atenção
do senador Antonio Carlos Magalhães, que a chamou
para uma audiência em 1998. "Não consegui dormir,
perdi o apetite e cheguei a passar mal de tão nervosa
antes do encontro", ela conta. O senador gostou dela, e
logo depois da eleição de seu correligionário
César Borges veio o convite para comandar a Secretaria
de Segurança. "Ela é determinada, corajosa
e tem a cabeça aberta", diz o governador. Em um ano
de poder, Kátia criou delegacias-modelo com o nome
de Serviço de Atendimento Policial e iniciou uma
política de tolerância zero pela qual mesmo
os menores delitos são investigados e punidos. A
estratégia, já adotada na cidade de Nova York,
reduziu em 60% os assaltos a ônibus em Salvador. Aos
comentários maldosos de que só está
no cargo por ser bonita, Kátia reage com desdém.
"Isso é machismo puro", rebate. "Alguém já
viu um secretário ser escolhido por ter uma barba
bonita ou uma careca charmosa?"