Edição 1 636 - 16/2/2000

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Elas são a lei

Comandada por uma mulher,
a polícia baiana tem 45% de delegadas

Adriana Setti

 
Fernando Vivas
A secretária Kátia Alves: tolerância zero

Durante o Carnaval do ano passado em Salvador, o compositor Caetano Veloso foi apresentado a uma loira bonita e bem vestida, 1,70 metro de altura, pele e cabelos muito bem-cuidados. "Esta é a nossa secretária de Segurança", explicou-lhe a mulher de um deputado federal. "Quem?", estranhou Caetano. Depois de ouvir a explicação pela segunda vez, comentou: "Só podia ser na Bahia". Kátia Alves, uma advogada de 40 anos nascida em Vitória da Conquista, já se habituou a reações dessa natureza. Desde janeiro de 1999, ela tem a responsabilidade de zelar pela segurança de todo um Estado e comandar 45.000 funcionários divididos entre Polícia Militar, Civil, Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e Departamento de Polícia Técnica. O que surpreende é que ela não é um exemplar tão raro no ninho policial baiano. Há 202 delegadas na Bahia. Feitas as contas, 45% das delegacias do Estado são comandadas por mulheres que carregam o revólver na cintura e o estojo de maquiagem na bolsa. Em São Paulo, esse índice não ultrapassa 10%. Até a Delegacia de Furtos e Roubos, uma área normalmente reservada à atuação masculina, na Bahia está sob o comando de uma mulher, a delegada Emília Blanco. "As mulheres são mais estudiosas e têm ocupado sempre as primeiras colocações nos concursos", afirma o diretor da Academia de Polícia baiana, Antônio Medrado Alcântara. "Além disso, são mais leais e responsáveis. Essas características são muito importantes num bom policial."

Casada com um contador e mãe de dois adolescentes, Kátia Alves foi delegada por doze anos, antes de assumir a Secretaria de Segurança. No começo, a família não gostou da carreira que ela escolhera. "Só aprovei quando vi que ela impunha respeito até aos policiais mais velhos", diz o marido, Idailton Oliveira Santos. Kátia tornou-se conhecida no meio policial baiano após resolver crimes de grande repercussão. No início de 1996, uma série de atentados contra prostitutas assustou a população de Salvador e intrigou a polícia. As mulheres eram estupradas, dopadas e torturadas. Acordavam com o corpo todo espetado por agulhas. A delegada já tinha reunido provas contra um suspeito, mas não conseguira recolher depoimentos suficientes das vítimas para que o inquérito fosse instaurado. Por duas noites, vestiu-se como prostituta e freqüentou a noite barra pesada do centro da cidade. Ao final da operação, encontrou quatro mulheres que haviam caído nas mãos do maníaco, Gerd Wenzinger, um alemão sádico que acabou cometendo suicídio pouco antes de ser extraditado.

A eficiência de Kátia atraiu a atenção do senador Antonio Carlos Magalhães, que a chamou para uma audiência em 1998. "Não consegui dormir, perdi o apetite e cheguei a passar mal de tão nervosa antes do encontro", ela conta. O senador gostou dela, e logo depois da eleição de seu correligionário César Borges veio o convite para comandar a Secretaria de Segurança. "Ela é determinada, corajosa e tem a cabeça aberta", diz o governador. Em um ano de poder, Kátia criou delegacias-modelo com o nome de Serviço de Atendimento Policial e iniciou uma política de tolerância zero pela qual mesmo os menores delitos são investigados e punidos. A estratégia, já adotada na cidade de Nova York, reduziu em 60% os assaltos a ônibus em Salvador. Aos comentários maldosos de que só está no cargo por ser bonita, Kátia reage com desdém. "Isso é machismo puro", rebate. "Alguém já viu um secretário ser escolhido por ter uma barba bonita ou uma careca charmosa?"