Ripongas tardios
Atores, como Paulo César Pereio
e Joel
Barcellos, músicos e outros fugitivos urbanos
buscam refúgio em Olhos d'Água
Leonel Rocha
Na
vila de Santo Antônio de Olhos d'Água, as crianças
jogam futebol no gramado da praça e o meio de transporte
mais comum é a bicicleta. Com 2 000 habitantes, o
lugarejo fica a 100 quilômetros de Brasília,
pertence ao município goiano de Alexânia, tem
uma única farmácia e três policiais.
Olhos d'Água não possui agência bancária
nem correio nem padaria. Foi exatamente esse não
ter o que fazer que atraiu para o local forasteiros da cidade
grande. São artesãos, artistas plásticos,
músicos, chacareiros alternativos, donos de pousada,
hippies velhos, ecologistas e outros fugitivos urbanos que
escolheram Olhos d'Água para viver em paz.
Há pouco mais de seis meses, os antigos moradores
passaram a conviver com mais um forasteiro. É o ator
Paulo César Pereio, que em 1981 formou com Sonia
Braga o principal casal do filme Eu Te Amo, dirigido
por Arnaldo Jabor. Com sua voz retumbante, seu marcante
sotaque gaúcho e jeito expansivo, Pereio passou a
ser a mais nova "atração artística"
para os nativos. Na vila ninguém sabe ao certo o
que ele é ou qual sua importância no cinema.
Mas quando caminha pelas poucas ruas do local todos o apontam
como artista. O ator já fez 58 filmes. Hoje, aos
59 anos, trocou o agito do Rio de Janeiro, onde vivia, pela
bucólica Olhos d'Água. Com um marcapasso instalado
no coração desde setembro, Pereio reduziu
a bebida, fuma pouco e garante que deixou de usar cocaína.
Diz que sua saúde impede esse tipo de farra, até
mesmo porque, segundo se queixa, a coca brasileira é
de péssima qualidade. Pereio chegou à vila
levado por uma ex-namorada que conheceu no Festival de Cinema
de Brasília e, agora, passa os dias longe das tentações
cariocas. Prefere um banho no Rio do Ouro e o bate-papo
no bar da esquina, onde joga sinuca com nativos, sempre
disponíveis. Está lendo, bem devagar, Baú
de Ossos, o livro de memórias do escritor mineiro
Pedro Nava. Por enquanto, hospeda-se na casa de um amigo.
"Não quero mais a urgência de entregar o serviço.
Estou cansado de prazos", explica. Quando está sem
dinheiro, vai ao Rio ou a São Paulo, faz um trabalho
como locutor e volta para Olhos d'Água com o suficiente
para alguns meses.
Tina
Coelho
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Ana
Araújo
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Pereio e Barcellos (à
dir.): trocando o agito carioca pela paz
de espírito de Olhos d'Água
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Pereio é o artista mais conhecido do vilarejo. Mas
há outros. Lá ele reencontrou o ex-bailarino
Carlos Eduardo Chaves de Góis, o "Maninho", que trocou
os palcos cariocas e paulistas por Olhos d'Água,
onde cultiva bonsais, árvores em miniatura típicas
da cultura japonesa. "Cansei de batalhar irracionalmente
na cidade. Agora estou a fim de viver", conta Maninho, que
mora na vila com a mulher, uma ex-terapeuta corporal. Quem
também está residindo na vila é o ator
e diretor Joel Barcellos, um dos remanescentes do chamado
cinema novo. Há quase dois anos Barcellos deixou
sua casa, em Rio das Ostras, no litoral fluminense, e se
mudou para o interior de Goiás. Ele foi amigo de
Glauber Rocha e viveu o glamour das décadas de 60
e 70 no Rio. Aos 63 anos e 46 filmes no currículo,
entre eles Os Fuzis, Rio Babilônia e Copacabana
Me Engana, o cineasta mora sozinho numa casa simples
cercado de móveis quebrados, latas de películas
antigas, fitas de vídeo e cartazes de filmes de que
participou ou que dirigiu. Prepara a própria comida
e só calça sapato quando vai a Brasília
tentar arrumar patrocínio estatal para concluir seu
filme, Impérios. A fita trata das civilizações
chinesa, italiana e brasileira, segundo ele, impérios
da sabedoria, da arte e da "mãe natureza", respectivamente.
Com dois computadores emprestados, o diretor e ator faz
contato com o mundo pela internet. Sua última atuação
em novela na Rede Globo foi em Mulheres de Areia.
Três semanas atrás atuou como ator no programa
policial Linha Direta, da Globo. "Não faço
mais novela na Globo, não topo fazer trabalhos medíocres
e de forma desumana", desabafa Barcellos. Com Pereio, Barcellos
filmou Sagarana, o Duelo e Os Fuzis. Hoje
os amigos vivem a poucos passos um do outro, mas pouco se
falam.
Tina Coelho
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Lourival, ex-parceiro de
Elba Ramalho: "Resolvi
dar um tempo de tudo"
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A tranqüilidade da vila também atraiu o percussionista
e violonista Lourival Lemes, 47 anos. "Loro", como é
conhecido, nasceu em Anápolis, cidade próxima
de Olhos d'Água, e aos 18 anos foi para o Rio, onde
fez carreira tocando com Elba Ramalho, Geraldo Azevedo,
Zé Ramalho, Sérgio Ricardo e Alceu Valença.
Com três filhos adultos morando no Rio, há
dois anos Loro trocou a cidade grande pela roça.
Casado novamente e com um filho pequeno, o músico
dedica-se a outra arte, o artesanato, e até pretende
criar no quintal de sua casa uma espécie de centro
de produção de arte folclórica e indígena.
Com as crianças carentes de Olhos d'Água quer
formar uma banda infantil de música. "Voltei para
o interior em busca de tranqüilidade", conta.
Ana Araújo
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Renato Matos: "Preciso de silêncio
para criar coisas novas"
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Outro músico que escolheu o vilarejo foi Renato
Matos. Baiano radicado em Brasília, ele construiu
sua primeira casa na vila dezesseis anos atrás, quando
começou o boom de artistas para o lugar. Mesmo vivendo
numa cidade pouco barulhenta como Brasília, optou
pelo campo. "O artista precisa de tempo ocioso e silêncio
para criar coisas novas", filosofa. Hoje ele tem um estúdio
onde instalou um exótico instrumento batizado de
Ziriguidum do Além, um conjunto de berimbaus colocados
um ao lado do outro dos quais tira sons com características
orientais. Renato decidiu fazer o caminho inverso e abandonar
Olhos d'Água para morar em Salvador, onde pretende
mostrar o que criou durante os dezesseis anos em que viveu
na "ociosidade produtiva" em Olhos d'Água.
A vila atraiu, também, o empresário Antônio
Fernandes. Dono de uma oficina de serigrafia com 26 empregados
e máquinas caras, ele deixou tudo em Brasília
para se dedicar ao Clube da Semente, uma ONG ecológica
especializada em cultivo de árvores raras. Quando
chegou a Olhos d'Água, em 1º de janeiro de 1990,
a área em que funciona o clube era um lixão.
Irritada, a namorada o abandonou. Pouco mais de dez anos
depois, o clube já distribuiu gratuitamente quase
50 milhões de sementes para todo o país. Fernandes
mora só, trabalha de bermuda e camiseta e nem pensa
em voltar a viver na cidade. Em Olhos d'Água, os
forasteiros são sempre pessoas de classe média
e com nível de escolaridade muito elevado para os
padrões locais. Eles formam quase metade da população
e são vistos com simpatia pelos nativos. A movimentação
de tantos artistas levou os habitantes locais a despertar
para o artesanato, vendido em junho e dezembro, quando acontece
a Feira do Troca e o lugar se enche de turistas. Um exemplo
é a ceramista Durvalina Rodrigues de Castro, que
há sete anos substituiu os afazeres domésticos
pelo trabalho na olaria, onde faz pequenas esculturas e
objetos de barro para uso doméstico. Bem diferente
dos "forasteiros", que mantêm o estilo riponga da
década de 70. Para estes, o sonho não morreu.