Edição 1 636 - 16/2/2000

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Ripongas tardios

Atores, como Paulo César Pereio e Joel
Barcellos, músicos e outros fugitivos urbanos
buscam refúgio em Olhos d'Água

Leonel Rocha

Na vila de Santo Antônio de Olhos d'Água, as crianças jogam futebol no gramado da praça e o meio de transporte mais comum é a bicicleta. Com 2 000 habitantes, o lugarejo fica a 100 quilômetros de Brasília, pertence ao município goiano de Alexânia, tem uma única farmácia e três policiais. Olhos d'Água não possui agência bancária nem correio nem padaria. Foi exatamente esse não ter o que fazer que atraiu para o local forasteiros da cidade grande. São artesãos, artistas plásticos, músicos, chacareiros alternativos, donos de pousada, hippies velhos, ecologistas e outros fugitivos urbanos que escolheram Olhos d'Água para viver em paz.

Há pouco mais de seis meses, os antigos moradores passaram a conviver com mais um forasteiro. É o ator Paulo César Pereio, que em 1981 formou com Sonia Braga o principal casal do filme Eu Te Amo, dirigido por Arnaldo Jabor. Com sua voz retumbante, seu marcante sotaque gaúcho e jeito expansivo, Pereio passou a ser a mais nova "atração artística" para os nativos. Na vila ninguém sabe ao certo o que ele é ou qual sua importância no cinema. Mas quando caminha pelas poucas ruas do local todos o apontam como artista. O ator já fez 58 filmes. Hoje, aos 59 anos, trocou o agito do Rio de Janeiro, onde vivia, pela bucólica Olhos d'Água. Com um marcapasso instalado no coração desde setembro, Pereio reduziu a bebida, fuma pouco e garante que deixou de usar cocaína. Diz que sua saúde impede esse tipo de farra, até mesmo porque, segundo se queixa, a coca brasileira é de péssima qualidade. Pereio chegou à vila levado por uma ex-namorada que conheceu no Festival de Cinema de Brasília e, agora, passa os dias longe das tentações cariocas. Prefere um banho no Rio do Ouro e o bate-papo no bar da esquina, onde joga sinuca com nativos, sempre disponíveis. Está lendo, bem devagar, Baú de Ossos, o livro de memórias do escritor mineiro Pedro Nava. Por enquanto, hospeda-se na casa de um amigo. "Não quero mais a urgência de entregar o serviço. Estou cansado de prazos", explica. Quando está sem dinheiro, vai ao Rio ou a São Paulo, faz um trabalho como locutor e volta para Olhos d'Água com o suficiente para alguns meses.

 
Tina Coelho
Ana Araújo

Pereio e Barcellos (à dir.): trocando o agito carioca pela paz
de espírito de Olhos d'Água

Pereio é o artista mais conhecido do vilarejo. Mas há outros. Lá ele reencontrou o ex-bailarino Carlos Eduardo Chaves de Góis, o "Maninho", que trocou os palcos cariocas e paulistas por Olhos d'Água, onde cultiva bonsais, árvores em miniatura típicas da cultura japonesa. "Cansei de batalhar irracionalmente na cidade. Agora estou a fim de viver", conta Maninho, que mora na vila com a mulher, uma ex-terapeuta corporal. Quem também está residindo na vila é o ator e diretor Joel Barcellos, um dos remanescentes do chamado cinema novo. Há quase dois anos Barcellos deixou sua casa, em Rio das Ostras, no litoral fluminense, e se mudou para o interior de Goiás. Ele foi amigo de Glauber Rocha e viveu o glamour das décadas de 60 e 70 no Rio. Aos 63 anos e 46 filmes no currículo, entre eles Os Fuzis, Rio Babilônia e Copacabana Me Engana, o cineasta mora sozinho numa casa simples cercado de móveis quebrados, latas de películas antigas, fitas de vídeo e cartazes de filmes de que participou ou que dirigiu. Prepara a própria comida e só calça sapato quando vai a Brasília tentar arrumar patrocínio estatal para concluir seu filme, Impérios. A fita trata das civilizações chinesa, italiana e brasileira, segundo ele, impérios da sabedoria, da arte e da "mãe natureza", respectivamente. Com dois computadores emprestados, o diretor e ator faz contato com o mundo pela internet. Sua última atuação em novela na Rede Globo foi em Mulheres de Areia. Três semanas atrás atuou como ator no programa policial Linha Direta, da Globo. "Não faço mais novela na Globo, não topo fazer trabalhos medíocres e de forma desumana", desabafa Barcellos. Com Pereio, Barcellos filmou Sagarana, o Duelo e Os Fuzis. Hoje os amigos vivem a poucos passos um do outro, mas pouco se falam.

 
Tina Coelho

Lourival, ex-parceiro de Elba Ramalho: "Resolvi dar um tempo de tudo"

A tranqüilidade da vila também atraiu o percussionista e violonista Lourival Lemes, 47 anos. "Loro", como é conhecido, nasceu em Anápolis, cidade próxima de Olhos d'Água, e aos 18 anos foi para o Rio, onde fez carreira tocando com Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Sérgio Ricardo e Alceu Valença. Com três filhos adultos morando no Rio, há dois anos Loro trocou a cidade grande pela roça. Casado novamente e com um filho pequeno, o músico dedica-se a outra arte, o artesanato, e até pretende criar no quintal de sua casa uma espécie de centro de produção de arte folclórica e indígena. Com as crianças carentes de Olhos d'Água quer formar uma banda infantil de música. "Voltei para o interior em busca de tranqüilidade", conta.

 
Ana Araújo

Renato Matos: "Preciso de silêncio para criar coisas novas"

Outro músico que escolheu o vilarejo foi Renato Matos. Baiano radicado em Brasília, ele construiu sua primeira casa na vila dezesseis anos atrás, quando começou o boom de artistas para o lugar. Mesmo vivendo numa cidade pouco barulhenta como Brasília, optou pelo campo. "O artista precisa de tempo ocioso e silêncio para criar coisas novas", filosofa. Hoje ele tem um estúdio onde instalou um exótico instrumento batizado de Ziriguidum do Além, um conjunto de berimbaus colocados um ao lado do outro dos quais tira sons com características orientais. Renato decidiu fazer o caminho inverso e abandonar Olhos d'Água para morar em Salvador, onde pretende mostrar o que criou durante os dezesseis anos em que viveu na "ociosidade produtiva" em Olhos d'Água.

A vila atraiu, também, o empresário Antônio Fernandes. Dono de uma oficina de serigrafia com 26 empregados e máquinas caras, ele deixou tudo em Brasília para se dedicar ao Clube da Semente, uma ONG ecológica especializada em cultivo de árvores raras. Quando chegou a Olhos d'Água, em 1º de janeiro de 1990, a área em que funciona o clube era um lixão. Irritada, a namorada o abandonou. Pouco mais de dez anos depois, o clube já distribuiu gratuitamente quase 50 milhões de sementes para todo o país. Fernandes mora só, trabalha de bermuda e camiseta e nem pensa em voltar a viver na cidade. Em Olhos d'Água, os forasteiros são sempre pessoas de classe média e com nível de escolaridade muito elevado para os padrões locais. Eles formam quase metade da população e são vistos com simpatia pelos nativos. A movimentação de tantos artistas levou os habitantes locais a despertar para o artesanato, vendido em junho e dezembro, quando acontece a Feira do Troca e o lugar se enche de turistas. Um exemplo é a ceramista Durvalina Rodrigues de Castro, que há sete anos substituiu os afazeres domésticos pelo trabalho na olaria, onde faz pequenas esculturas e objetos de barro para uso doméstico. Bem diferente dos "forasteiros", que mantêm o estilo riponga da década de 70. Para estes, o sonho não morreu.