Edição 1 636 - 16/2/2000

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O país da encrenca

O seqüestro esquisito de um avião não deixa
dúvidas: o Afeganistão é uma dor de cabeça

Rogério Simões

O aeroporto de Stansted, nas cercanias de Londres, foi palco na semana passada de uma situação curiosíssima: um Boeing 727 da companhia aérea afegã Ariana pousou em sua pista, depois de ter sido desviado de uma rota doméstica. Os seqüestradores haviam dito que soltariam os reféns — mais de uma centena — se o Taliban, milícia islâmica fundamentalista que controla o Afeganistão, libertasse o líder oposicionista Ismail Khan. Até aí nada de incomum. Mas o tempo foi passando e eles não emitiram sinal algum que confirmasse a reivindicação política. A desconfiança de que os seqüestradores queriam outra coisa aumentou quando a tripulação do avião fugiu tranqüilamente pela janela. Não demorou muito, o seqüestro chegou ao fim de maneira insólita: a maior parte das 164 pessoas a bordo pediu asilo à Grã-Bretanha. Como estava difícil determinar quem era criminoso e quem era vítima, 22 suspeitos foram detidos para averiguações. O governo afegão já avisou que a pena de morte espera os responsáveis pelo episódio, caso eles sejam enviados de volta. Que houve uma ação terrorista com pistolas e granadas, não há dúvida. No entanto, o que ocorreu também pode ser chamado de fuga desesperada do país que se tornou uma das maiores encrencas do mundo.

O Afeganistão completou no ano passado duas décadas de guerra civil. O conflito teve início com a resistência armada à ocupação soviética. Expulsos os invasores, o Taliban instaurou em 1996 um regime islâmico radicalíssimo. A milícia vive às turras com as tropas do ex-presidente Burhanuddin Rabbani. Atualmente, as refregas estão circunscritas à região norte do país, mas isso não significa que o resto do Afeganistão esteja em paz. A repressão dos fanáticos líderes afegãos contra seus opositores é implacável. Entidades como a Anistia Internacional denunciam casos em que filhos de procurados são mantidos encarcerados para forçar que os pais se entreguem. As prisões são invariavelmente acompanhadas de sessões de tortura e não raro acabam em mortes. As execuções em praça pública, decididas por meio de processos sumários, têm um ar de espetáculo — como na Idade Média. O governo, que não é reconhecido pela maioria da comunidade internacional, aterroriza a população em todos os níveis, com leis baseadas numa interpretação muito própria do que está escrito no Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Perto das determinações impostas pelo Taliban, o Irã dos aiatolás parece a Califórnia. As mulheres, em especial, têm um cotidiano pavoroso. São proibidas de estudar ou trabalhar e só podem sair à rua desde que acompanhadas de um homem de sua família e cobertas da cabeça aos pés. Literalmente. Se uma dessas regras for desrespeitada, a desobediente corre o risco de ser condenada à pena capital.

A situação das afegãs é revoltante, mas a Europa ou os Estados Unidos podem fazer pouco a respeito. Até porque em nações islâmicas aliadas do Ocidente, como a Arábia Saudita, as mulheres não recebem tratamento muito diferente. O Afeganistão começou mesmo a brincar com fogo ao recusar-se a entregar aos americanos o terrorista mais perigoso do planeta, o saudita Osama bin Laden. Logo que começou a ser caçado, ele refugiou-se no Afeganistão, de onde planeja suas ações. Bin Laden é apontado como o mentor intelectual e financiador de várias atrocidades, entre elas as explosões que, em 1998, destruíram as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia e mataram 224 pessoas. Em represália à negativa do Afeganistão, os americanos bombardearam naquele ano seis alvos no país e passaram a oferecer uma recompensa de 5 milhões de dólares a quem conseguir capturar o sujeito. Em novembro último, o impasse em torno de Bin Laden levou a Organização das Nações Unidas a impor sanções econômicas ao Afeganistão. Por causa delas, o Boeing da Ariana nunca teria chegado a Londres, se não fosse o seqüestro. E por que o Taliban se recusa a entregar Bin Laden? "Porque ele não é um terrorista. Além disso, a campanha americana transformou-o num herói para os islâmicos", disse a VEJA Mulawi Abdul Hakeem Mujahid, representante da milícia em Nova York.

Pura retórica. O Taliban protege Bin Laden justamente por ele ser terrorista, e dos mais úteis a um aliado seu, o governo paquistanês. De seu esconderijo, o saudita não ameaça apenas os cidadãos americanos que vivem no exterior. Sua base está próxima à fronteira que separa os arquiinimigos Índia e Paquistão. O principal espinho na relação entre ambos é o futuro da região da Caxemira, que o Paquistão gostaria de ver totalmente anexada a seu território. Bin Laden, sempre disposto a aprontar confusão, resolveu colocar mais uma pá de pólvora nesse barril. "Ele agora tem uma participação direta na organização da guerrilha da Caxemira", explica Steven Simon, diretor assistente do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres.

Inferno — Atolado no fundamentalismo que o fez retroceder à época medieval e comprometido até o último fio de turbante com o terrorismo, o Afeganistão vem afundando na miséria. O país tem o quarto pior índice de mortalidade infantil do mundo, de acordo com o mais recente ranking do Unicef, a organização da ONU encarregada da infância. A economia de base agrícola, que já era frágil, encontra-se em frangalhos, quadro que o boicote internacional só agrava. Para sobreviver, a principal alternativa dos camponeses tem sido o cultivo da papoula, a flor que serve de matéria-prima para a produção de ópio e heroína. O Afeganistão é hoje o líder mundial na produção dessas substâncias, respondendo por 90% da heroína consumida na Europa, segundo cálculos dos especialistas. A atividade também serve para financiar o Taliban em sua guerra interna. A milícia cobra um pedágio de 20% de todo carregamento de drogas que sai do país.

O Afeganistão é uma dor de cabeça para todos os países com os quais faz fronteira, sejam eles amigos ou não do Taliban. No auge da invasão soviética, 6 milhões de refugiados procuraram segurança no Paquistão e no Irã. Desse total, 2 milhões ainda não tiveram coragem de voltar. Nenhuma outra nação tem tantos refugiados. Muitas famílias conseguiram estabelecer-se em cidades iranianas e paquistanesas, mas grande parte continua abandonada à própria sorte em campos próximos às fronteiras. Para esses afegãos, por piores que sejam as condições de sobrevivência, a vida sob os domínios do Taliban não alimenta nenhuma saudade de casa. Não é à toa que muita gente quer fugir desse inferno — nem que seja seqüestrando um Boeing velho.