O país da encrenca
O seqüestro
esquisito de um avião não deixa
dúvidas: o Afeganistão é uma dor de
cabeça
Rogério Simões
O aeroporto de Stansted, nas cercanias
de Londres, foi palco na semana passada de uma situação
curiosíssima: um Boeing 727 da companhia aérea
afegã Ariana pousou em sua pista, depois de ter sido
desviado de uma rota doméstica. Os seqüestradores
haviam dito que soltariam os reféns mais de
uma centena se o Taliban, milícia islâmica
fundamentalista que controla o Afeganistão, libertasse
o líder oposicionista Ismail Khan. Até aí
nada de incomum. Mas o tempo foi passando e eles não
emitiram sinal algum que confirmasse a reivindicação
política. A desconfiança de que os seqüestradores
queriam outra coisa aumentou quando a tripulação
do avião fugiu tranqüilamente pela janela. Não
demorou muito, o seqüestro chegou ao fim de maneira
insólita: a maior parte das 164 pessoas a bordo pediu
asilo à Grã-Bretanha. Como estava difícil
determinar quem era criminoso e quem era vítima,
22 suspeitos foram detidos para averiguações.
O governo afegão já avisou que a pena de morte
espera os responsáveis pelo episódio, caso
eles sejam enviados de volta. Que houve uma ação
terrorista com pistolas e granadas, não há
dúvida. No entanto, o que ocorreu também pode
ser chamado de fuga desesperada do país que se tornou
uma das maiores encrencas do mundo.
O Afeganistão
completou no ano passado duas décadas de guerra civil.
O conflito teve início com a resistência armada
à ocupação soviética. Expulsos
os invasores, o Taliban instaurou em 1996 um regime islâmico
radicalíssimo. A milícia vive às turras
com as tropas do ex-presidente Burhanuddin Rabbani. Atualmente,
as refregas estão circunscritas à região
norte do país, mas isso não significa que
o resto do Afeganistão esteja em paz. A repressão
dos fanáticos líderes afegãos contra
seus opositores é implacável. Entidades como
a Anistia Internacional denunciam casos em que filhos de
procurados são mantidos encarcerados para forçar
que os pais se entreguem. As prisões são invariavelmente
acompanhadas de sessões de tortura e não raro
acabam em mortes. As execuções em praça
pública, decididas por meio de processos sumários,
têm um ar de espetáculo como na Idade
Média. O governo, que não é reconhecido
pela maioria da comunidade internacional, aterroriza a população
em todos os níveis, com leis baseadas numa interpretação
muito própria do que está escrito no Alcorão,
o livro sagrado dos muçulmanos. Perto das determinações
impostas pelo Taliban, o Irã dos aiatolás
parece a Califórnia. As mulheres, em especial, têm
um cotidiano pavoroso. São proibidas de estudar ou
trabalhar e só podem sair à rua desde que
acompanhadas de um homem de sua família e cobertas
da cabeça aos pés. Literalmente. Se uma dessas
regras for desrespeitada, a desobediente corre o risco de
ser condenada à pena capital.
A situação
das afegãs é revoltante, mas a Europa ou os
Estados Unidos podem fazer pouco a respeito. Até
porque em nações islâmicas aliadas do
Ocidente, como a Arábia Saudita, as mulheres não
recebem tratamento muito diferente. O Afeganistão
começou mesmo a brincar com fogo ao recusar-se a
entregar aos americanos o terrorista mais perigoso do planeta,
o saudita Osama bin Laden. Logo que começou a ser
caçado, ele refugiou-se no Afeganistão, de
onde planeja suas ações. Bin Laden é
apontado como o mentor intelectual e financiador de várias
atrocidades, entre elas as explosões que, em 1998,
destruíram as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia
e na Tanzânia e mataram 224 pessoas. Em represália
à negativa do Afeganistão, os americanos bombardearam
naquele ano seis alvos no país e passaram a oferecer
uma recompensa de 5 milhões de dólares a quem
conseguir capturar o sujeito. Em novembro último,
o impasse em torno de Bin Laden levou a Organização
das Nações Unidas a impor sanções
econômicas ao Afeganistão. Por causa delas,
o Boeing da Ariana nunca teria chegado a Londres, se não
fosse o seqüestro. E por que o Taliban se recusa a
entregar Bin Laden? "Porque ele não é um terrorista.
Além disso, a campanha americana transformou-o num
herói para os islâmicos", disse a VEJA Mulawi
Abdul Hakeem Mujahid, representante da milícia em
Nova York.
Pura retórica.
O Taliban protege Bin Laden justamente por ele ser terrorista,
e dos mais úteis a um aliado seu, o governo paquistanês.
De seu esconderijo, o saudita não ameaça apenas
os cidadãos americanos que vivem no exterior. Sua
base está próxima à fronteira que separa
os arquiinimigos Índia e Paquistão. O principal
espinho na relação entre ambos é o
futuro da região da Caxemira, que o Paquistão
gostaria de ver totalmente anexada a seu território.
Bin Laden, sempre disposto a aprontar confusão, resolveu
colocar mais uma pá de pólvora nesse barril.
"Ele agora tem uma participação direta na
organização da guerrilha da Caxemira", explica
Steven Simon, diretor assistente do Instituto Internacional
de Estudos Estratégicos, de Londres.
Inferno
Atolado no fundamentalismo que o fez retroceder à
época medieval e comprometido até o último
fio de turbante com o terrorismo, o Afeganistão vem
afundando na miséria. O país tem o quarto
pior índice de mortalidade infantil do mundo, de
acordo com o mais recente ranking do Unicef, a organização
da ONU encarregada da infância. A economia de base
agrícola, que já era frágil, encontra-se
em frangalhos, quadro que o boicote internacional só
agrava. Para sobreviver, a principal alternativa dos camponeses
tem sido o cultivo da papoula, a flor que serve de matéria-prima
para a produção de ópio e heroína.
O Afeganistão é hoje o líder mundial
na produção dessas substâncias, respondendo
por 90% da heroína consumida na Europa, segundo cálculos
dos especialistas. A atividade também serve para
financiar o Taliban em sua guerra interna. A milícia
cobra um pedágio de 20% de todo carregamento de drogas
que sai do país.
O Afeganistão
é uma dor de cabeça para todos os países
com os quais faz fronteira, sejam eles amigos ou não
do Taliban. No auge da invasão soviética,
6 milhões de refugiados procuraram segurança
no Paquistão e no Irã. Desse total, 2 milhões
ainda não tiveram coragem de voltar. Nenhuma outra
nação tem tantos refugiados. Muitas famílias
conseguiram estabelecer-se em cidades iranianas e paquistanesas,
mas grande parte continua abandonada à própria
sorte em campos próximos às fronteiras. Para
esses afegãos, por piores que sejam as condições
de sobrevivência, a vida sob os domínios do
Taliban não alimenta nenhuma saudade de casa. Não
é à toa que muita gente quer fugir desse inferno
nem que seja seqüestrando um Boeing velho.