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Edição
1 636 - 16/2/2000
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O universo das embaixadas em Brasília está vivendo uma
fase de transformações. Os embaixadores sempre tiveram seus
nomes nas colunas sociais, mas nunca com tanta assiduidade
quanto agora. Até algum tempo atrás, o movimento dos diplomatas
pelo mundo do poder podia ser acompanhado nos cadernos de
política e economia dos jornais. Nos últimos anos, as características
pessoais dos embaixadores passaram a chamar mais a atenção
do que seus feitos profissionais. Um é conhecido por cozinhar
bem. Outro porque usa sapatos de cromo alemão. De outro,
comenta-se o interesse por ópera. Da capacidade desse ou
daquele de desatar nós comerciais ou conduzir negociações
bilaterais... bem, disso ninguém fala. O embaixador francês
Philippe Lecourtier, que deixou o Brasil recentemente, foi
o responsável pelo fim da exigência de vistos para brasileiros
entrarem na França, mas quem se importa com a autoria? Lecourtier
entrou para a memória de Brasília pela inacreditável marca
de 35 festas de despedida feitas em sua homenagem. "Ulalá,
foi muita festa mesmo", comenta. A mudança de valores
fez com que representantes de países com os quais o Brasil
mantém uma troca comercial pequena assumissem uma importância
no chamado "mundo diplomático" quase tão grande
quanto os diplomatas dos países de Primeiro Mundo.
Uma forma de medir essa transformação é o prestígio dos embaixadores nas rodas sociais de Brasília. Um dos mais festejados? Ramón Parodi Sánchez-Parodi, de Cuba. Os convivas explicam a razão: ao final de todas as suas festas, os convidados têm direito a legítimos charutos Cohíba e Hoyo de Monterrey. "Sempre me pedem uma caixinha", comenta. Outro sucesso de público? As festas do casal Ramzy Ezzeldin Ramzy e Rania, da Embaixada do Egito. Ou seria do "agito"? Elegantes e simpáticos, os Ramzy abrem as portas de sua casa para eventos de todo tipo: desde desfile de moda até jantares com dança do ventre. A embaixatriz Tomris Alpan, da Turquia, país com o qual o Brasil mantém um comércio de 222 milhões de dólares, é outro caso. Até mandou buscar um grupo do festival do boi-bumbá de Parintins, na Amazônia. Em trajes sumaríssimos, fizeram uma festa inesquecível. O envolvimento de Tomris com a vida local lhe rendeu um convite exótico: há três anos, tornou-se jurada do concurso de miss Brasil. "É uma forma inusitada de fazer um intercâmbio cultural", afirma. Outro indicador da transformação se deu na semana passada, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu o novo embaixador dos Estados Unidos. Ele se chama Anthony Stephen Harrington, tem 58 anos, é advogado e amigo pessoal de Bill Clinton. (Para quem gosta de fofoca: os dois se aproximaram depois do escândalo de Monica Lewinsky. Seus conselhos jurídicos, dizem, foram providenciais.) Harrington chega ao Brasil um ano e sete meses depois de seu antecessor ter deixado o posto. Nunca a representação diplomática americana ficou tanto tempo sem titular. Num passado recente, ausência tão longa produziria uma lacuna significativa nas relações entre Estados Unidos e Brasil. Cabia a ele (e ao embaixador brasileiro em Washington) intermediar em pessoa os contenciosos comerciais entre os dois países e preparar relatos sobre a situação social e econômica brasileira. O processo de globalização tornou os organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio, mais importantes que as embaixadas. E, com os avanços tecnológicos, as informações pela internet chegam aos Estados Unidos antes do relato oficial. Resultado: Harrington vai integrar um mundo totalmente diferente, onde a vida social conta tanto ou mais que os negócios. Moët & Chandon com quibe Brasília concentra noventa representações diplomáticas. Cada uma comemora seu dia nacional. E ainda há os aniversários dos embaixadores. Mais um jantarzinho aqui, uma homenagem ali e, por baixo, se chega a inebriantes 300 festas por ano. Dá cansaço só de imaginar. "Arrisco dizer que temos mais de um evento por dia. Aqui, nem domingo é de sossego", diz o ex-embaixador argentino Jorge Hugo Herrera Vegas, ele próprio um recordista. Em dois anos e meio de Brasil, ofereceu 110 recepções. O embaixador da República Dominicana, Ciro Dargam, percebeu a mudança. "Nosso papel hoje é sobretudo de anfitrião", diz. Tantas reuniões fazem com que os embaixadores desenvolvam truques para manter a silhueta. O ex-embaixador francês Lecourtier, uma barriguinha proeminente, ensina um segredo: "Na hora do brinde, dou um golinho e depois largo o copo. Quando servem a comida, também são só duas ou três garfadas, só para não ofender a dona da casa".
Se a realidade diplomática tivesse se mantido a mesma apesar das novas facilidades de comunicação, dificilmente os diplomatas teriam tempo para cumprir uma agenda social tão agitada. O chamado "terceiro expediente" festas, jantares e recepções passou a ocupar um espaço de grande destaque. "Não precisamos mais intermediar as relações entre os governos. Nossa função é reforçar contatos pessoais, o que se faz em eventos sociais", afirma o embaixador de Bangladesh, Syed Noor Hossain. Espera-se de um embaixador que ele amplie seus contatos e se relacione com autoridades locais capazes de abastecê-lo de informações privilegiadas. Por esse aspecto, freqüentar recepções é muito importante. Em encontros desse tipo, pode-se muitas vezes obter alguma informação de interesse do governo de seu país. O difícil é fazê-lo com uma coxinha na mão direita e um copo de uísque na esquerda. "Olhar nos olhos de um chefe de Estado ao fazer uma pergunta, ter informações de bastidor e dar a interpretação real de um fato político são coisas que apenas um enviado, no caso, um embaixador, pode nos dar", afirma o ministro Luiz Felipe Lampreia, das Relações Exteriores.
Houve um tempo em que os embaixadores eram verdadeiras entidades nos países onde estavam credenciados. Comportavam-se como os olhos, os ouvidos e a alma dos chefes de Estado de suas nações. Em certos lugares e momentos, tinham até o poder de delimitar territórios, como fez o barão do Rio Branco, José Maria da Silva Paranhos Júnior, quando assinou com a Bolívia a anexação do Acre, em 1903. No governo Geisel, foi o chanceler Azeredo da Silveira, com a ajuda do embaixador Italo Zappa, que inventou a chamada política universalista, por meio da qual o Brasil se abria para o mundo e desconsiderava fronteiras da Guerra Fria.
Atualmente, quando relações de parceiros tão próximos, como Brasil e Argentina, são discutidas por técnicos dos dois ministérios da Fazenda e a presença do embaixador é dispensável, pergunta-se qual será o novo papel dos diplomatas no futuro. Ninguém arrisca uma resposta, mas é provável que as coisas não continuem do jeito que estão. Um embaixador como o da Tunísia (46 milhões de dólares de comércio com o Brasil), por exemplo, pouco tem a despachar durante a semana. Os dois países nunca tiveram entraves diplomáticos, e o Brasil até já fechou sua representação na capital, Túnis. "Acabo tratando de aprimorar o turismo", conta o embaixador Abbes Mohsen. Um grupo de deputados se animou com a proposta. Há duas semanas, Fernando Ferro, do PT, Vivaldo Barbosa, do PDT, e Zaire Rezende, do PMDB, propuseram ao embaixador a criação do Grupo Parlamentar Brasil-Tunísia. De concreto, não se falou muito no encontro, mas os deputados saíram de lá com uma viagem garantida para conhecer o país. O embaixador teve a sensação de que começara a aprimorar o turismo.
O problema é sério. Ao comprar automóveis importados, os diplomatas ficam isentos de uma série de impostos. A facilidade torna-se uma brecha para oportunistas. O desconto é tentador. Um automóvel de 90 000 dólares pode ser adquirido por um diplomata por um terço do preço de tabela e revendido mais tarde por um valor maior. A Polícia Federal já conseguiu desbaratar uma quadrilha que mantinha um estreito contato com diplomatas da Nigéria. Os carros mais usados nas transações são os de luxo, como o Mercedes. A quadrilha tinha escritório montado em Brasília e orientava os diplomatas interessados em fazer negócio. |
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