Edição 1 636 - 16/2/2000

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Aviação

Se o cheque voar,
a Vasp não voa

Canhedo recebe ultimato da Aeronáutica
e volta a pagar à Infraero

Por decisão da Justiça, a Vasp terá de voltar a recolher semanalmente a taxa de uso de aeroportos administrada pela empresa estatal Infraero. Se não o fizer, o Ministério da Defesa anunciou: a companhia aérea de Wagner Canhedo vai ficar com seus aviões no chão e os vôos serão cancelados já a partir do dia seguinte. Desde dezembro, a Vasp vinha operando sem pagar graças a uma liminar da Justiça que foi derrubada. "Vínhamos tratando a Vasp com complacência em função dos 8 500 empregos. Mas chegou a um limite", disse o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista. "Ou eles pagam ou não voam." O pagamento referente às taxas da semana passada, de cerca de 1,5 milhão de reais, foi efetuado. A empresa deve mais de 2 bilhões de reais para o governo entre taxas, impostos e contribuições sociais. Com os juros, a dívida engorda ao ritmo de quase 40 milhões de reais por mês. Só para a Infraero são quase 400 milhões de débito. O brigadeiro Baptista chamou Canhedo a seu gabinete e lhe disse que espera uma proposta de pagamento dos atrasados até esta quinta-feira, 17.

Ao retomar o pagamento, a empresa anunciou uma medida de contenção de despesas. Decidiu devolver quatro dos oito aviões MD11 usados em linhas internacionais. Os aviões estavam alugados por 400 000 dólares cada um. Computados os gastos com manutenção, custavam mais de 5 milhões de reais por mês – quantia semelhante ao recolhimento mensal da taxa da Infraero. Duas linhas da Vasp para o exterior (Toronto, no Canadá, e Nova York) serão canceladas. As demais (para Miami, Buenos Aires e Europa) prosseguem por enquanto. Na semana passada, outra encrenca: a Boeing informava que entraria na Justiça para receber os quatro MD11 que restaram em poder da Vasp, identificados como SPK, SPL, SFA e SFD. Assessores da Boeing disseram a VEJA que a Vasp deve 39,6 milhões de dólares em atrasados pelo leasing dessas aeronaves. O assessor de comunicação social da Vasp, Ruy Nogueira, nega a existência dessa dívida.

A aviação é um setor delicado da economia de qualquer país. Ainda que as passagens sejam caras, há empresas tomando prejuízo – dos Estados Unidos ao Japão. A Varig acumula dívida superior a 3 bilhões de reais. A Transbrasil cancelou linhas internacionais e está operando no vermelho. A TAM recentemente vendeu 20% de suas ações para um banco de investimentos. Atuando nesse ambiente, a Vasp, além dos problemas causados pela sua administração tumultuada e impontual, enfrenta a dificuldade inerente ao setor aéreo neste momento.

Na semana passada, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, acatou dois pedidos de abertura de inquérito para apurar irregularidades cometidas pela Vasp em negócios com o governo. O primeiro trata da emissão de 24 cheques sem fundo que serviriam para liquidar dívidas oficiais. Outra investigação vai apurar a fraude de certidões negativas de débito apresentadas pela companhia aos Correios e ao Exército. Certidões como essas servem para comprovar que uma empresa está em dia com a Previdência Social. A Vasp apresentou documentos falsos aos Correios e ao Exército para esconder sua dívida de 380 milhões com o INSS. Canhedo desmente a acusação e pede "algumas semanas" para provar que, mais uma vez, estão todos enganados a seu respeito.