Aviação
Se o cheque voar,
a Vasp não voa
Canhedo recebe ultimato da Aeronáutica
e volta a pagar à Infraero
Por decisão da Justiça, a Vasp terá de voltar a recolher
semanalmente a taxa de uso de aeroportos administrada pela
empresa estatal Infraero. Se não o fizer, o Ministério da
Defesa anunciou: a companhia aérea de Wagner Canhedo vai
ficar com seus aviões no chão e os vôos serão cancelados
já a partir do dia seguinte. Desde dezembro, a Vasp vinha
operando sem pagar graças a uma liminar da Justiça que foi
derrubada. "Vínhamos tratando a Vasp com complacência
em função dos 8 500 empregos. Mas chegou a um limite",
disse o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de
Almeida Baptista. "Ou eles pagam ou não voam."
O pagamento referente às taxas da semana passada, de cerca
de 1,5 milhão de reais, foi efetuado. A empresa deve mais
de 2 bilhões de reais para o governo entre taxas, impostos
e contribuições sociais. Com os juros, a dívida engorda
ao ritmo de quase 40 milhões de reais por mês. Só para a
Infraero são quase 400 milhões de débito. O brigadeiro Baptista
chamou Canhedo a seu gabinete e lhe disse que espera uma
proposta de pagamento dos atrasados até esta quinta-feira,
17.
Ao
retomar o pagamento, a empresa anunciou uma medida de contenção
de despesas. Decidiu devolver quatro dos oito aviões MD11
usados em linhas internacionais. Os aviões estavam alugados
por 400 000 dólares cada um. Computados os gastos com manutenção,
custavam mais de 5 milhões de reais por mês quantia semelhante
ao recolhimento mensal da taxa da Infraero. Duas linhas
da Vasp para o exterior (Toronto, no Canadá, e Nova York)
serão canceladas. As demais (para Miami, Buenos Aires e
Europa) prosseguem por enquanto. Na semana passada, outra
encrenca: a Boeing informava que entraria na Justiça para
receber os quatro MD11 que restaram em poder da Vasp, identificados
como SPK, SPL, SFA e SFD. Assessores da Boeing disseram
a VEJA que a Vasp deve 39,6 milhões de dólares em atrasados
pelo leasing dessas aeronaves. O assessor de comunicação
social da Vasp, Ruy Nogueira, nega a existência dessa dívida.
A aviação é um setor delicado da economia de qualquer país.
Ainda que as passagens sejam caras, há empresas tomando
prejuízo dos Estados Unidos ao Japão. A Varig acumula
dívida superior a 3 bilhões de reais. A Transbrasil cancelou
linhas internacionais e está operando no vermelho. A TAM
recentemente vendeu 20% de suas ações para um banco de investimentos.
Atuando nesse ambiente, a Vasp, além dos problemas causados
pela sua administração tumultuada e impontual, enfrenta
a dificuldade inerente ao setor aéreo neste momento.
Na semana passada, o procurador-geral da República, Geraldo
Brindeiro, acatou dois pedidos de abertura de inquérito
para apurar irregularidades cometidas pela Vasp em negócios
com o governo. O primeiro trata da emissão de 24 cheques
sem fundo que serviriam para liquidar dívidas oficiais.
Outra investigação vai apurar a fraude de certidões negativas
de débito apresentadas pela companhia aos Correios e ao
Exército. Certidões como essas servem para comprovar que
uma empresa está em dia com a Previdência Social. A Vasp
apresentou documentos falsos aos Correios e ao Exército
para esconder sua dívida de 380 milhões com o INSS. Canhedo
desmente a acusação e pede "algumas semanas" para
provar que, mais uma vez, estão todos enganados a seu respeito.