Cada parente no seu galho
Proposta de emenda que acaba
com o nepotismo é adiada mais
uma vez no Congresso
Vladimir Netto
Eliane Coster
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| Deputado Michel Temer: polêmica
com a idéia de cotas para parentes |
Nesta segunda-feira, dia 14, o Congresso Nacional termina
mais um período de convocação extraordinária. Foi a mais
proveitosa dos últimos anos. Em 41 dias, foram analisados
e votados projetos de peso, como a Lei de Responsabilidade
Fiscal, que limita os gastos dos governantes estaduais e
municipais, e a desvinculação de 20% do Orçamento federal.
O resultado só não foi melhor porque o presidente da Câmara,
deputado Michel Temer, resolveu no finalzinho propor a elaboração
de uma lei estapafúrdia prevendo a criação de cotas para
a contratação de parentes. Segundo a proposta de Temer,
todo deputado, senador, vereador, prefeito, governador,
ministro, juiz ou presidente da República, enfim, todos
aqueles que, com uma canetada, podem descolar um emprego
público para alguém teriam direito a contratar dois parentes.
Não existe um levantamento confiável do tamanho do fenômeno
do nepotismo no Brasil nos três níveis de governo. Mas como
a proposta de Temer foi idealizada para limitar o abuso,
é lícito imaginar que o número de parentes atualmente empregados
por políticos, juízes e prefeitos seja maior do que aquele
que a lei ampararia. Por um cálculo simples, se os parlamentares
de Brasília cumprissem o que poderia vir a ser a Lei Temer,
só no Congresso seriam 1 168 parentes com carteira assinada.
O Judiciário reservaria 28 000 vagas para esposas, filhos,
primos ou netos. Nos Estados, as assembléias legislativas
poderiam aumentar o contingente de empregados com laços
de sangue para 2 000 trabalhadores. Já os municípios criariam
124 000 sinecuras para as famílias de prefeitos e vereadores.
Aprovada a Lei Temer, o Brasil seria pioneiro na legalização
do nepotismo. Nos países industrializados a sociedade se
encarrega de estabelecer parâmetros éticos de comportamento
para seus servidores públicos. Em geral, é vedada a contratação
de parentes. Nos Estados Unidos, uma acusação provada de
nepotismo é suficiente para destituir um alto funcionário
público. É uma prática intolerável também na Inglaterra,
na França e na Alemanha. À exceção dos países árabes, onde
famílias de xeques ocupam todos os cargos de confiança do
governo. As ditaduras, por razões óbvias, também são exceção.
Na Indonésia da época do general Suharto, a parentada assaltava
os cofres públicos à luz do dia. Quando foi colhido pela
crise que devastou a Ásia, em 1998, o país não conseguiu
apoio externo. O FMI se negou a emprestar dinheiro enquanto
Suharto e seus seis filhos estivessem à frente da Indonésia.
Foi o fim de 32 anos de ditadura do clã Suharto. No ano
passado, a União Européia foi abalada por denúncias de desvio
de dinheiro e nepotismo. Todos os vinte integrantes da Comissão
Européia pediram demissão. Na vida empresarial privada,
o nepotismo é combatido ainda com maior vigor. Empresas
multinacionais, como regra geral, proíbem a contratação
de parentes de funcionários. Segundo um levantamento da
entidade Transparency International, o nepotismo nos governos
e em empresas estatais é o sinal mais evidente de deterioração
ética iminente. Para a entidade, o nepotismo "sempre
precede a corrupção".
A proposta de oficializar o nepotismo, do deputado Michel
Temer, que não tem parentes em seu gabinete, nasceu no calor
da discussão sobre a reforma do Judiciário. A relatora do
projeto, deputada Zulaiê Cobra, do PSDB de São Paulo, incluiu
no texto da lei a proibição de colocar parentes em cargos
de confiança nos tribunais, no Executivo e no Legislativo.
Líderes dos partidos começaram então a negociar para suprimir
essa parte do texto. Afinal, mais de um terço dos 513 deputados
federais têm pelo menos um parente empregado em seus gabinetes.
Foi quando o presidente da Câmara, depois de uma reunião
com os líderes, teve a idéia de propor as cotas. O debate
esquentou tanto que Temer decidiu voltar atrás em sua desastrosa
proposta conciliatória. De concreto sobrou apenas o adiamento
para daqui a três semanas da votação da reforma de Zulaiê
Cobra.
A palavra nepotismo vem do latim nepote e significa
neto ou sobrinho. A expressão foi usada pela primeira vez
em Roma para denominar os privilégios que os papas concediam
aos "sobrinhos" (muitas vezes filhos) e a outros
membros da família. Naquela época, ficaram famosas as histórias
de favorecimento envolvendo os papas Paulo V, Urbano VIII,
Inocêncio X e Alexandre VII. Alguns sobrinhos chegaram a
ser nomeados cardeais com 10 ou 12 anos de idade. Ou seja,
nepotismo misturado com corrupção da alma de menores de
idade. No Brasil, o costume de ajudar um parente com um
emprego veio de caravela na algibeira dos descobridores
portugueses. Nas últimas linhas da carta em que Pero Vaz
de Caminha relata ao rei dom Manuel a descoberta de uma
nova terra, ele aproveita e pede ao rei que consiga um bom
emprego para um sobrinho. As capitanias hereditárias consolidaram
essa estrutura familiar. "O nepotismo reflete uma relação
viciada da elite brasileira com o Estado", diz o cientista
político David Fleischer. "A sociedade não pode aceitar
mais isso."
São comuns as denúncias de empreguismo onde isso, do ponto
de vista moral, não poderia ser tolerado, como é o caso
dos tribunais. No Tribunal Regional do Trabalho da Paraíba,
o juiz Severino Meira chegou à incrível marca de 63 parentes
empregados, talvez um recorde mundial. E os colegas de toga
permitiram o abuso. O presidente do Superior Tribunal de
Justiça, ministro Antônio de Pádua Ribeiro, há anos emprega
a própria mulher, Ives Glória Pádua Ribeiro, como sua assessora,
mesmo ela já sendo aposentada da Justiça do Distrito Federal.
O nepotismo no Brasil é endêmico e cresce em qualquer terreno
ideológico. O PT, partido da denúncia, também é chegado
ao favorecimento da família. Dois governadores do partido,
Zeca do PT, de Mato Grosso do Sul, e Jorge Viana, do Acre,
nomearam irmãos, primos e esposas para cargos de confiança.
Em meio a um escândalo, Zeca acabou demitindo quase todos
os parentes em dezembro passado. Ficou apenas com um sobrinho,
que o acompanha há anos na política. Viana, por sua vez,
afastou dois tios e um cunhado. Sobraram sete primos, que,
segundo ele, são concursados.
No Congresso, onde são feitas as leis, as justificativas
para dar emprego a um parente são desalentadoras. "Meu
irmão é meu braço direito. Sem ele não vivo", diz o
deputado Geddel Vieira Lima, líder do PMDB, que contratou
um irmão. "O próprio nome já diz que é um cargo de
confiança, e você coloca quem merece o seu respeito",
justifica o corregedor da Câmara, deputado Severino Cavalcanti,
que tem dois filhos no gabinete. "Pior seria se eu
os deixasse desempregados e eles virassem maconheiros",
argumenta Themístocles Sampaio, do PMDB do Piauí, três filhos
e uma neta no gabinete. "É por causa do salário",
revela o deputado Armando Abílio, do PMDB da Paraíba. Em
Brasília, onde a vigilância é mais intensa, Joaquim Roriz
parece nem ligar. Entre seus parentes e os da mulher, o
governador paga salários com dinheiro público a duas dezenas
deles. É um recorde que lhe pode valer o apelido de "Suharto
do Planalto".
Com reportagem de
Valéria Blanc e Sandra Brasil