Edição 1 636 - 16/2/2000

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Futebol e nazismo

Ilustração Alê Setti
Participei de uma mesa-redonda sobre futebol na TV italiana. Foi a experiência profissional mais deprimente da minha vida. Nunca imaginei que fosse me rebaixar a tanto. Mesa-redonda na Itália é igual a mesa-redonda no Brasil: análises técnicas sobre as partidas do domingo anterior, queixas contra juízes e uma infinidade de intervalos comerciais para anunciar lojas de material de construção e alarmes antifurto para automóveis. Tratando-se de um programa da TV italiana, é claro que não poderia faltar a apresentadora sensual com o vestido decotado e cabelos oxigenados. O meu único consolo é que, como em qualquer lugar do mundo, mesa-redonda sobre futebol dá traço de audiência. Ou seja, ninguém teria tomado conhecimento do meu vexame se eu não tivesse resolvido alardeá-lo aqui em VEJA.

O fato é que só aceitei comparecer ao programa porque um dos convidados era o jogador brasileiro Adaílton, centroavante do time do Verona. E pensei que uma conversa com um jogador brasileiro poderia render um bom artigo, considerando os eventos da semana passada. Antes de tudo, talvez seja oportuno lembrar quais foram esses eventos. Durante uma partida em Roma, os torcedores do time da Lazio expuseram uma enorme faixa com a frase "Honra ao Tigre Arkan", em homenagem ao paramilitar sérvio que ajudou a praticar a chamada "limpeza étnica" na Bósnia, indiciado por crimes de guerra pelo Tribunal de Haia e assassinado em Belgrado pouco tempo atrás. A homenagem a Arkan, ocorrida na mesma semana em que o partido do neonazista Joerg Haider subia ao poder na Áustria, provocou um certo alarme na Itália. O governo decidiu reagir de maneira firme, autorizando os juízes a interromper as partidas em caso de manifestações racistas nos estádios.

Adaílton nunca tinha ouvido falar em Arkan, mas me contou que se assusta todas as vezes que encontra os torcedores mais fanáticos do Verona, com suas cabeças raspadas e suásticas no ombro. É provável que os veroneses sejam os torcedores mais extremistas da Itália. Alguns anos atrás, levando às últimas conseqüências a contraposição entre norte e sul do país, ergueram uma faixa em que manifestavam o desejo de que as lavas do Vesúvio destruíssem Nápoles. Adaílton, sendo branco, jamais sofreu discriminações por parte dos torcedores. Mas outro jogador brasileiro, Zé Maria, foi recusado pela torcida local porque é mulato. Algo semelhante aconteceu na Udinese, quando grupelhos de torcedores nazistas conseguiram impedir que o clube contratasse um atacante israelense.

Em geral, tendo a minimizar esses episódios de intolerância. Parece-me exagero sair gritando que a Europa está à beira de um surto de nacionalismo genocida. É desagradável que tanta gente vote em Haider, por exemplo, mas é necessário considerar que a Áustria não conta grande coisa no panorama europeu. Até que ponto, porém, é correto minimizar esses fenômenos? Não tenho a menor idéia. O meu novo amigo Adaílton também não soube me responder.