Futebol e nazismo
Ilustração Alê Setti
Participei
de uma mesa-redonda sobre futebol na TV italiana. Foi a
experiência profissional mais deprimente da minha
vida. Nunca imaginei que fosse me rebaixar a tanto. Mesa-redonda
na Itália é igual a mesa-redonda no Brasil:
análises técnicas sobre as partidas do domingo
anterior, queixas contra juízes e uma infinidade
de intervalos comerciais para anunciar lojas de material
de construção e alarmes antifurto para automóveis.
Tratando-se de um programa da TV italiana, é claro
que não poderia faltar a apresentadora sensual com
o vestido decotado e cabelos oxigenados. O meu único
consolo é que, como em qualquer lugar do mundo, mesa-redonda
sobre futebol dá traço de audiência.
Ou seja, ninguém teria tomado conhecimento do meu
vexame se eu não tivesse resolvido alardeá-lo
aqui em VEJA.
O fato é que só aceitei comparecer ao programa
porque um dos convidados era o jogador brasileiro Adaílton,
centroavante do time do Verona. E pensei que uma conversa
com um jogador brasileiro poderia render um bom artigo,
considerando os eventos da semana passada. Antes de tudo,
talvez seja oportuno lembrar quais foram esses eventos.
Durante uma partida em Roma, os torcedores do time da Lazio
expuseram uma enorme faixa com a frase "Honra ao Tigre Arkan",
em homenagem ao paramilitar sérvio que ajudou a praticar
a chamada "limpeza étnica" na Bósnia, indiciado
por crimes de guerra pelo Tribunal de Haia e assassinado
em Belgrado pouco tempo atrás. A homenagem a Arkan,
ocorrida na mesma semana em que o partido do neonazista
Joerg Haider subia ao poder na Áustria, provocou
um certo alarme na Itália. O governo decidiu reagir
de maneira firme, autorizando os juízes a interromper
as partidas em caso de manifestações racistas
nos estádios.
Adaílton nunca tinha ouvido falar em Arkan, mas
me contou que se assusta todas as vezes que encontra os
torcedores mais fanáticos do Verona, com suas cabeças
raspadas e suásticas no ombro. É provável
que os veroneses sejam os torcedores mais extremistas da
Itália. Alguns anos atrás, levando às
últimas conseqüências a contraposição
entre norte e sul do país, ergueram uma faixa em
que manifestavam o desejo de que as lavas do Vesúvio
destruíssem Nápoles. Adaílton, sendo
branco, jamais sofreu discriminações por parte
dos torcedores. Mas outro jogador brasileiro, Zé
Maria, foi recusado pela torcida local porque é mulato.
Algo semelhante aconteceu na Udinese, quando grupelhos de
torcedores nazistas conseguiram impedir que o clube contratasse
um atacante israelense.
Em geral, tendo a minimizar esses episódios de
intolerância. Parece-me exagero sair gritando que
a Europa está à beira de um surto de nacionalismo
genocida. É desagradável que tanta gente vote
em Haider, por exemplo, mas é necessário considerar
que a Áustria não conta grande coisa no panorama
europeu. Até que ponto, porém, é correto
minimizar esses fenômenos? Não tenho a menor
idéia. O meu novo amigo Adaílton também
não soube me responder.