Uma lição de vida
O escritor baiano conta como
venceu o alcoolismo e fala
da eterna luta entre a preguiça e
o trabalho na hora de escrever
Silvio Ferraz
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Oscar Cabral

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| "Alcoolismo
é uma coisa com a qual você não pode brincar. Não pode
subestimar, achar que venceu" |
Indefectíveis bermudas e sandálias, gostosas gargalhadas,
cigarro queimando os dedos, palavrões sonoros pontuando
suas mil e uma histórias, a cabeça que não pára de criar.
É o baiano João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores romancistas
brasileiros, em toda sua intimidade e ebulição. Aos 59 anos,
brindados com guaraná on the rocks no final de janeiro,
João Ubaldo recebeu caloroso desagravo de intelectuais portugueses
por terem os supermercados lisboetas censurado e banido
seu último livro, A Casa dos Budas Ditosos, rotulando-o
de pornografia. Feito o desagravo, o livro vende feito bacalhoada
em Portugal. No Brasil, lidera a lista dos mais vendidos.
Apesar da crítica, que não o elogia. Em seu escritório repleto
de livros em desordem, há dois João Ubaldo, segundo a versão
do próprio escritor. O primeiro é o Grande Ubaldo, bonachão,
amigo querido, que adora passar a tarde no boteco na companhia
de amigos. O outro é o Pequeno Ubaldo, alter ego perseguidor,
o chato, que fica em casa, ranzinza, reclamando se ele não
trabalha, furioso com a soneca vespertina do escritor. João
Ubaldo explicou essa curiosa dupla personalidade nesta entrevista
a VEJA.
Veja Gabriel García Márquez é alucinado por computadores.
Antes de tê-los, queixou-se de que deixou de dar outros
destinos a personagens, e mesmo melhorar textos, com pena
da secretária que datilografaria tudo de novo. Como é sua
relação com o computador?
João Ubaldo Atritada. Acho uma máquina extremamente
burra, apesar de dominá-la. Você já imaginou se os carros
fossem totalmente comandados por computadores? De repente,
a direção pára e você se arrebenta? Minha relação com eles
não é das melhores, mas não nego o conforto. Quando terminei
meu último livro, mandei os originais pela internet para
a editora. Foram setenta segundos, cronometrados.
Veja Sua forma de produção literária, com essa máquina,
mudou?
João Ubaldo Um amigo, escritor alemão, disse que
o computador alterava o estilo dos autores. Acabei chegando
à mesma conclusão. Torna-se tão fácil mexer no texto que
você não é mais o mesmo escritor. É parágrafo para cima,
é palavra para baixo. Tudo com muita facilidade. Hemingway
escrevia a lápis, porque acreditava que a máquina de escrever
solidificava a palavra no papel. Preferia lápis e borracha.
Eu acredito que o computador fluidifica as palavras.
Veja O senhor é um dos poucos escritores do mundo
que já traduziram suas obras diretamente para o inglês.
Fala também fluentemente alemão, francês e espanhol. De
onde vem esse domínio de outros idiomas?
João Ubaldo Da obsessão de meu pai, um humanista
mas um homem autoritário, que me fazia aprender na base
da porrada, e com quem eu sempre tive uma relação muito
conflituosa. Aos 10 anos me obrigava a ler em outras línguas
e traduzir simultaneamente, sem qualquer hesitação. No inglês
eu decorava cinqüenta palavras do dicionário por dia, e
tinha a sorte de morar num edifício com vários garotos americanos.
Li Shakespeare muito cedo, e segui lendo todos os clássicos
da língua inglesa. Considero, sem modéstia, que falo um
inglês melhor que a maioria dos americanos.
Veja Sendo seu pai um humanista, então deve ter estimulado
sua vocação.
João Ubaldo Não, não. Ele nunca se conformou de eu
ser escritor. Queria que eu fosse rico e tivesse uma carreira
pública. E o fato é que passei a vida esperando dele um
tapinha nas costas, ele nunca deu. A gente só se falava
para brigar.
Veja Com sua marca registrada, sandálias e bermudas,
o senhor leva muita gente a pensar que tem origens modestas,
o que não é verdade. Será que isso tem algo a ver com a
briga com seu pai?
João Ubaldo Que nada, não tem nada a ver. Sou assim
mesmo. Meu pai era reitor da Universidade Católica de Salvador,
minha família praticamente dona de Itaparica. Ando assim
porque acho confortável. Faz parte de meu estilo de vida.
Veja E o senhor, pessoalmente, ficou rico com a literatura?
João Ubaldo É engraçadíssimo, muita gente pensa que
moro num tríplex de alto luxo no Leblon e tenho um iate.
Você mesmo está vendo como moro, num apartamento confortável
no bairro que mais gosto, o Leblon. Eu não devo ter ganho
nem 100 000 dólares com esse livro (Os Budas Ditosos).
Eu ganho com um livro o que o Caetano ganha apenas num show.
Mas eu estou numa altura da minha vida em que vivo decentemente.
Depois de uma certa idade você não tem mais resistência
para ficar sem dinheiro. Agora, preciso trabalhar, fazer
crônicas. Não preciso desesperadamente, mas preciso.
Veja Como vê este momento da literatura brasileira?
João Ubaldo A verdade é que eu não acompanho coisa
nenhuma. Eu sou amigo de muitos escritores da minha geração,
até de mais novos também, mas finjo que leio a obra deles
e elogio indiscriminadamente a todos. Eles fingem que acreditam,
mas todos sabem que é fingimento. Um jogo de faz-de-conta.
Não tenho, portanto, uma visão clara da literatura no Brasil,
mas não sou pessimista.
Veja E em relação ao país, o senhor é otimista ou
pessimista?
João Ubaldo Ah, isso é outra história. Uma das coisas
que mais me irritam é ver o Brasil, a imprensa brasileira,
a causar comoção pública porque uma empresa qualquer especializada
deu uma nota baixa ao país em nível de risco e não sei o
que lá. A gente se esquece de que o Brasil está entre o
sexto e o oitavo país em população do mundo e é provavelmente
o maior país em extensão territorial em terras utilizáveis.
Veja Então essa crise de pessimismo vem de onde?
Da falta de auto-estima?
João Ubaldo Só pode ser e não tem cabimento. O Canadá
é um pedaço de gelo. A China é um monte de desertos, a União
Soviética não existe mais, a Rússia tem um pedaço enorme
de terras desérticas e gélidas, apesar da produção de petróleo.
O Brasil acaba sendo o maior. E mais, com língua homogênea.
É um dos maiores mercados do mundo. Os investidores não
podem prescindir desse mercado. Eles têm dinheiro para burro
aqui.
Veja Ao começar um livro, o senhor já tem o enredo
costurado ou os personagens vão eclodindo?
João Ubaldo É um trabalho infernal. Os personagens
fazem o que querem. Isso é o que Jorge Amado me conta que
acontece com ele, o que vários outros escritores também
me contam. Há, claro, quem senta, esquematiza o livro e
faz exatamente aquilo que planejou. Eu sou completamente
diferente.
Veja Como anda a sua briga com a crítica?
João Ubaldo A crítica me aborrece. São pessoas sem
nenhum fundamento clássico, sem nenhuma base para entender
literatura. Sem parâmetros, sem referências. Um jovem qualquer
pega um Milan Kundera e já se acha capaz de elaborar uma
crítica literária. E já sai dizendo que O Sorriso do
Lagarto não passa de uma novela das 8. Ou seja, bobagens.
O que me surpreende é a incapacidade de esculhambar com
fundamento.
Veja Ao terminar um livro, o senhor já entra em ebulição,
pensando no próximo?
João Ubaldo Olha, eu sou o rei da culpa. Eu nunca
me permito ficar sem fazer nada. Me sinto um vagabundo.
Sou incapaz de tirar férias. Eu costumo me referir metaforicamente
ao Grande Ubaldo e ao Pequeno Ubaldo. O Grande Ubaldo é
o meu favorito, um sujeito simpático, boa-praça, despido
de culpas, de preconceitos, enfim, um sujeito aberto, um
camarada que todos gostariam de ser ou ter como amigo. Mas
eu sou perseguido por um sujeito chamado Pequeno Ubaldo
que está aqui no momento. Ele está deitado ali naquele sofá
me vigiando enquanto conversamos. Não me larga, é mesquinho,
acusatório. Eu venho aqui para o escritório decidido a não
fazer nada e digo: vou brincar no computador, vou entrar
na internet para ver besteira.
Veja Coisas de Grande Ubaldo...
João Ubaldo É. Mas aí, ouço: "Que grande vagabundo.
Já com 59 anos, não tem dinheiro, não tem patrimônio para
deixar para a família, e fica aí brincando".
Veja O senhor só é capaz de fazer calar o Pequeno
Ubaldo quando começa a criar?
João Ubaldo É, mas ele fica me fiscalizando. Se eu
passar um dia sem pegar no trabalho, ele não sossega enquanto
não ler três laudas diárias, definitivas.
Veja Mesmo durante a fase do alcoolismo conseguia
manter essa produção?
João Ubaldo Eu bebia demais, mas nunca deixei de
lado minhas obrigações, nunca escrevi bebendo porque só
sai bobagem. Sempre me disciplinei, nunca bati em mulher,
nunca cometi esses atos clássicos de alcoólatras, nunca
sumi de casa para voltar quinze dias depois barbado sem
saber onde tinha estado. Mas eu tive um problema sério de
arritmia cardíaca, quando voltei da Copa do Mundo dos Estados
Unidos. Fui internado, fiquei desnecessariamente numa UTI,
tive uma depressão e aí comecei a afundar num buraco alcoólico
que pareceu em certas ocasiões sem retorno.
Veja Como venceu o alcoolismo?
João Ubaldo Primeiro, eu me meti nessa fundura alcoólica
terrível porque acreditava curar a depressão bebendo. Tomava
um uísque e a depressão passava. Mas passava durante três
horas, e aí voltava pior. Aí eu bebia mais, passava durante
três, quatro horas, voltava pior. Aí eu entrei nesse ciclo
e comecei a beber às 6 da manhã, me internei. Foi horrível.
Tive de lutar muito para me livrar disso. Aí, pela primeira
vez na minha vida, tomei bolinha, fui ao psiquiatra, me
deram bola, e isso desregulou um pouco a minha rotina.
Veja E o trabalho, prossegue sem problemas?
João Ubaldo Eu continuo trabalhando, sou uma pessoa
matinal. O Pequeno Ubaldo tem-me deixado relutantemente,
mas ainda me aporrinha se eu dormir no único horário em
que gosto, à tarde. É quando eu fico mais burro. Fico burro
e não consigo trabalhar. Mas sono vesperal ele não perdoa.
Tanto assim que tive de tomar vários esculachos de minha
mulher, para parar de dizer às pessoas que eu saía à tarde,
e não que estava na cama. Antigamente eu tinha vergonha
de que dissessem que eu estava dormindo. "Você não
deve nada a ninguém, não está faltando ao emprego, não tem
necessidade de dar explicação a ninguém", dizia minha
mulher. Mas até hoje o Pequeno Ubaldo me alfineta: "Dormindo?
À tarde? Ô seu grandissíssimo..." E por aí vai. E eu
durmo à tarde e volto a trabalhar de noite.
Veja Como foi o segundo round da luta contra o alcoolismo?
João Ubaldo Ah, isso foi um processo complicado.
Começou com tentativas quixotescas de "eu deixo na
hora em que quiser", daí passei dez dias sem beber
e emburaquei novamente. Depois veio a tentativa de ir a
uma clínica, em São José do Rio Preto, com taxa de sucesso
reconhecida, onde aplicam três doses de uma injeção e dão
um certo acompanhamento. Eu fui duas vezes. Na terceira,
não funcionou, eu queria beber imediatamente. Internei-me
numa clínica para tratamento de alcoólatras praticamente
em regime carcerário. Também não deu certo.
Veja E o que é que acabou dando certo?
João Ubaldo Alcoolismo é uma coisa com a qual você
não pode brincar, não pode subestimar, achar que venceu.
Isso é bravata. Todas as tentativas anteriores foram apenas
acrescentando algumas pedrinhas à construção da minha libertação,
sempre a título precário. Até que meu psiquiatra, de quem
eu gosto muito, me recomendou e eu não estou dando receita
a ninguém um remédio americano que agora já existe no
Brasil, o ReVia. Tem o efeito de tirar a compulsão alcoólica.
Eu era um homem que centrava a vida no álcool. Celebração
era álcool, viagem era álcool, sexo era álcool, frustração
era álcool, tudo era álcool. Minha vida era vinculada ao
álcool, como a de muita gente é, em níveis patológicos.
Veja E a sua turma do boteco Flor do Leblon, como
reagiu ao novo vício do guaraná on the rocks?
João
Ubaldo Eu parei de ir ao boteco uns quinze dias mais
ou menos. Às vezes eu dizia: eu não vou lá, não, eu não
vou cutucar a onça com vara curta. Mas um belo dia eu fui.
Minha turma é minha janela para o mundo. Eles sabiam dos
meus problemas, estavam todos preocupados, me deram a mão,
ninguém veio com aquela de "pára com esse negócio,
você pode tomar uma bebidinha". Todo mundo deu força:
"Vai lá, João Ubaldo! É isso mesmo!" E tome guaraná.
Eu freqüento o boteco todo sábado, domingo e feriado, com
a mesma turma, e tomo o mesmo porre de guaraná diet.
Veja Já experimentou voltar a beber?
João
Ubaldo Numa época em que estava em crise, resolvi
tomar um gole para ver o que acontecia. Entrei no buraco
novamente. Foi um desastre. Agora estou descobrindo que
não sou o tipo do alcoólatra que não pode tomar o primeiro
gole. Eu já tomei o primeiro gole, umas três ou quatro vezes.
Consigo me controlar, mas tive de quebrar uns hábitos antigos.
Por exemplo, não associo terminar de trabalhar com começar
a beber.
Veja Quanto tempo faz isso?
João Ubaldo Uns dois anos e meio. E tenho descoberto
que, mesmo sem beber, eu viro a alma da festa do mesmo jeito.
Conto piada, dou muitas gargalhadas. Na intimidade, sou
um sujeito muito alegre, falastrão, muito contador de casos.
Nem o Pequeno Ubaldo consegue deixar de rir. E eu pensava
dever tudo isso ao álcool.
Veja É muito difícil falar sobre isso tudo?
João Ubaldo Eu não tenho essa frescura, não. Antes
que falem, falo eu. Alcoolismo não é fraqueza moral. É uma
armadilha em que eu caí, uma doença reconhecida pela Organização
Mundial de Saúde. Li muita coisa interessante sobre vício.
Gente viciada em heroína que simplesmente voltou do Vietnã
e largou, nunca mais pensou no assunto. Outros que não largaram.
Não há explicação para esse tipo de coisa. De forma que
eu não tenho nenhuma prescrição, nenhuma receita a dar a
ninguém. Tenho, sim, uma experiência de vida.