Edição 1 636 - 16/2/2000

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Uma lição de vida

O escritor baiano conta como
venceu o alcoolismo e fala
da eterna luta entre a preguiça e
o trabalho na hora de escrever

Silvio Ferraz

 

Oscar Cabral

"Alcoolismo é uma coisa com a qual você não pode brincar. Não pode subestimar, achar que venceu"

Indefectíveis bermudas e sandálias, gostosas gargalhadas, cigarro queimando os dedos, palavrões sonoros pontuando suas mil e uma histórias, a cabeça que não pára de criar. É o baiano João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores romancistas brasileiros, em toda sua intimidade e ebulição. Aos 59 anos, brindados com guaraná on the rocks no final de janeiro, João Ubaldo recebeu caloroso desagravo de intelectuais portugueses por terem os supermercados lisboetas censurado e banido seu último livro, A Casa dos Budas Ditosos, rotulando-o de pornografia. Feito o desagravo, o livro vende feito bacalhoada em Portugal. No Brasil, lidera a lista dos mais vendidos. Apesar da crítica, que não o elogia. Em seu escritório repleto de livros em desordem, há dois João Ubaldo, segundo a versão do próprio escritor. O primeiro é o Grande Ubaldo, bonachão, amigo querido, que adora passar a tarde no boteco na companhia de amigos. O outro é o Pequeno Ubaldo, alter ego perseguidor, o chato, que fica em casa, ranzinza, reclamando se ele não trabalha, furioso com a soneca vespertina do escritor. João Ubaldo explicou essa curiosa dupla personalidade nesta entrevista a VEJA.

Veja – Gabriel García Márquez é alucinado por computadores. Antes de tê-los, queixou-se de que deixou de dar outros destinos a personagens, e mesmo melhorar textos, com pena da secretária que datilografaria tudo de novo. Como é sua relação com o computador?
João Ubaldo –
Atritada. Acho uma máquina extremamente burra, apesar de dominá-la. Você já imaginou se os carros fossem totalmente comandados por computadores? De repente, a direção pára e você se arrebenta? Minha relação com eles não é das melhores, mas não nego o conforto. Quando terminei meu último livro, mandei os originais pela internet para a editora. Foram setenta segundos, cronometrados.

Veja – Sua forma de produção literária, com essa máquina, mudou?
João Ubaldo –
Um amigo, escritor alemão, disse que o computador alterava o estilo dos autores. Acabei chegando à mesma conclusão. Torna-se tão fácil mexer no texto que você não é mais o mesmo escritor. É parágrafo para cima, é palavra para baixo. Tudo com muita facilidade. Hemingway escrevia a lápis, porque acreditava que a máquina de escrever solidificava a palavra no papel. Preferia lápis e borracha. Eu acredito que o computador fluidifica as palavras.

Veja – O senhor é um dos poucos escritores do mundo que já traduziram suas obras diretamente para o inglês. Fala também fluentemente alemão, francês e espanhol. De onde vem esse domínio de outros idiomas?
João Ubaldo –
Da obsessão de meu pai, um humanista mas um homem autoritário, que me fazia aprender na base da porrada, e com quem eu sempre tive uma relação muito conflituosa. Aos 10 anos me obrigava a ler em outras línguas e traduzir simultaneamente, sem qualquer hesitação. No inglês eu decorava cinqüenta palavras do dicionário por dia, e tinha a sorte de morar num edifício com vários garotos americanos. Li Shakespeare muito cedo, e segui lendo todos os clássicos da língua inglesa. Considero, sem modéstia, que falo um inglês melhor que a maioria dos americanos.

Veja – Sendo seu pai um humanista, então deve ter estimulado sua vocação.
João Ubaldo –
Não, não. Ele nunca se conformou de eu ser escritor. Queria que eu fosse rico e tivesse uma carreira pública. E o fato é que passei a vida esperando dele um tapinha nas costas, ele nunca deu. A gente só se falava para brigar.

Veja – Com sua marca registrada, sandálias e bermudas, o senhor leva muita gente a pensar que tem origens modestas, o que não é verdade. Será que isso tem algo a ver com a briga com seu pai?
João Ubaldo –
Que nada, não tem nada a ver. Sou assim mesmo. Meu pai era reitor da Universidade Católica de Salvador, minha família praticamente dona de Itaparica. Ando assim porque acho confortável. Faz parte de meu estilo de vida.

Veja – E o senhor, pessoalmente, ficou rico com a literatura?
João Ubaldo –
É engraçadíssimo, muita gente pensa que moro num tríplex de alto luxo no Leblon e tenho um iate. Você mesmo está vendo como moro, num apartamento confortável no bairro que mais gosto, o Leblon. Eu não devo ter ganho nem 100 000 dólares com esse livro (Os Budas Ditosos). Eu ganho com um livro o que o Caetano ganha apenas num show. Mas eu estou numa altura da minha vida em que vivo decentemente. Depois de uma certa idade você não tem mais resistência para ficar sem dinheiro. Agora, preciso trabalhar, fazer crônicas. Não preciso desesperadamente, mas preciso.

Veja – Como vê este momento da literatura brasileira?
João Ubaldo –
A verdade é que eu não acompanho coisa nenhuma. Eu sou amigo de muitos escritores da minha geração, até de mais novos também, mas finjo que leio a obra deles e elogio indiscriminadamente a todos. Eles fingem que acreditam, mas todos sabem que é fingimento. Um jogo de faz-de-conta. Não tenho, portanto, uma visão clara da literatura no Brasil, mas não sou pessimista.

Veja – E em relação ao país, o senhor é otimista ou pessimista?
João Ubaldo –
Ah, isso é outra história. Uma das coisas que mais me irritam é ver o Brasil, a imprensa brasileira, a causar comoção pública porque uma empresa qualquer especializada deu uma nota baixa ao país em nível de risco e não sei o que lá. A gente se esquece de que o Brasil está entre o sexto e o oitavo país em população do mundo e é provavelmente o maior país em extensão territorial em terras utilizáveis.

Veja – Então essa crise de pessimismo vem de onde? Da falta de auto-estima?
João Ubaldo –
Só pode ser e não tem cabimento. O Canadá é um pedaço de gelo. A China é um monte de desertos, a União Soviética não existe mais, a Rússia tem um pedaço enorme de terras desérticas e gélidas, apesar da produção de petróleo. O Brasil acaba sendo o maior. E mais, com língua homogênea. É um dos maiores mercados do mundo. Os investidores não podem prescindir desse mercado. Eles têm dinheiro para burro aqui.

Veja – Ao começar um livro, o senhor já tem o enredo costurado ou os personagens vão eclodindo?
João Ubaldo –
É um trabalho infernal. Os personagens fazem o que querem. Isso é o que Jorge Amado me conta que acontece com ele, o que vários outros escritores também me contam. Há, claro, quem senta, esquematiza o livro e faz exatamente aquilo que planejou. Eu sou completamente diferente.

Veja – Como anda a sua briga com a crítica?
João Ubaldo –
A crítica me aborrece. São pessoas sem nenhum fundamento clássico, sem nenhuma base para entender literatura. Sem parâmetros, sem referências. Um jovem qualquer pega um Milan Kundera e já se acha capaz de elaborar uma crítica literária. E já sai dizendo que O Sorriso do Lagarto não passa de uma novela das 8. Ou seja, bobagens. O que me surpreende é a incapacidade de esculhambar com fundamento.

Veja – Ao terminar um livro, o senhor já entra em ebulição, pensando no próximo?
João Ubaldo –
Olha, eu sou o rei da culpa. Eu nunca me permito ficar sem fazer nada. Me sinto um vagabundo. Sou incapaz de tirar férias. Eu costumo me referir metaforicamente ao Grande Ubaldo e ao Pequeno Ubaldo. O Grande Ubaldo é o meu favorito, um sujeito simpático, boa-praça, despido de culpas, de preconceitos, enfim, um sujeito aberto, um camarada que todos gostariam de ser ou ter como amigo. Mas eu sou perseguido por um sujeito chamado Pequeno Ubaldo que está aqui no momento. Ele está deitado ali naquele sofá me vigiando enquanto conversamos. Não me larga, é mesquinho, acusatório. Eu venho aqui para o escritório decidido a não fazer nada e digo: vou brincar no computador, vou entrar na internet para ver besteira.

Veja – Coisas de Grande Ubaldo...
João Ubaldo –
É. Mas aí, ouço: "Que grande vagabundo. Já com 59 anos, não tem dinheiro, não tem patrimônio para deixar para a família, e fica aí brincando".

Veja – O senhor só é capaz de fazer calar o Pequeno Ubaldo quando começa a criar?
João Ubaldo –
É, mas ele fica me fiscalizando. Se eu passar um dia sem pegar no trabalho, ele não sossega enquanto não ler três laudas diárias, definitivas.

Veja – Mesmo durante a fase do alcoolismo conseguia manter essa produção?
João Ubaldo –
Eu bebia demais, mas nunca deixei de lado minhas obrigações, nunca escrevi bebendo porque só sai bobagem. Sempre me disciplinei, nunca bati em mulher, nunca cometi esses atos clássicos de alcoólatras, nunca sumi de casa para voltar quinze dias depois barbado sem saber onde tinha estado. Mas eu tive um problema sério de arritmia cardíaca, quando voltei da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Fui internado, fiquei desnecessariamente numa UTI, tive uma depressão e aí comecei a afundar num buraco alcoólico que pareceu em certas ocasiões sem retorno.

Veja – Como venceu o alcoolismo?
João Ubaldo –
Primeiro, eu me meti nessa fundura alcoólica terrível porque acreditava curar a depressão bebendo. Tomava um uísque e a depressão passava. Mas passava durante três horas, e aí voltava pior. Aí eu bebia mais, passava durante três, quatro horas, voltava pior. Aí eu entrei nesse ciclo e comecei a beber às 6 da manhã, me internei. Foi horrível. Tive de lutar muito para me livrar disso. Aí, pela primeira vez na minha vida, tomei bolinha, fui ao psiquiatra, me deram bola, e isso desregulou um pouco a minha rotina.

Veja – E o trabalho, prossegue sem problemas?
João Ubaldo –
Eu continuo trabalhando, sou uma pessoa matinal. O Pequeno Ubaldo tem-me deixado relutantemente, mas ainda me aporrinha se eu dormir no único horário em que gosto, à tarde. É quando eu fico mais burro. Fico burro e não consigo trabalhar. Mas sono vesperal ele não perdoa. Tanto assim que tive de tomar vários esculachos de minha mulher, para parar de dizer às pessoas que eu saía à tarde, e não que estava na cama. Antigamente eu tinha vergonha de que dissessem que eu estava dormindo. "Você não deve nada a ninguém, não está faltando ao emprego, não tem necessidade de dar explicação a ninguém", dizia minha mulher. Mas até hoje o Pequeno Ubaldo me alfineta: "Dormindo? À tarde? Ô seu grandissíssimo..." E por aí vai. E eu durmo à tarde e volto a trabalhar de noite.

Veja – Como foi o segundo round da luta contra o alcoolismo?
João Ubaldo –
Ah, isso foi um processo complicado. Começou com tentativas quixotescas de "eu deixo na hora em que quiser", daí passei dez dias sem beber e emburaquei novamente. Depois veio a tentativa de ir a uma clínica, em São José do Rio Preto, com taxa de sucesso reconhecida, onde aplicam três doses de uma injeção e dão um certo acompanhamento. Eu fui duas vezes. Na terceira, não funcionou, eu queria beber imediatamente. Internei-me numa clínica para tratamento de alcoólatras praticamente em regime carcerário. Também não deu certo.

Veja – E o que é que acabou dando certo?
João Ubaldo –
Alcoolismo é uma coisa com a qual você não pode brincar, não pode subestimar, achar que venceu. Isso é bravata. Todas as tentativas anteriores foram apenas acrescentando algumas pedrinhas à construção da minha libertação, sempre a título precário. Até que meu psiquiatra, de quem eu gosto muito, me recomendou – e eu não estou dando receita a ninguém – um remédio americano que agora já existe no Brasil, o ReVia. Tem o efeito de tirar a compulsão alcoólica. Eu era um homem que centrava a vida no álcool. Celebração era álcool, viagem era álcool, sexo era álcool, frustração era álcool, tudo era álcool. Minha vida era vinculada ao álcool, como a de muita gente é, em níveis patológicos.

Veja – E a sua turma do boteco Flor do Leblon, como reagiu ao novo vício do guaraná on the rocks?
João Ubaldo – Eu parei de ir ao boteco uns quinze dias mais ou menos. Às vezes eu dizia: eu não vou lá, não, eu não vou cutucar a onça com vara curta. Mas um belo dia eu fui. Minha turma é minha janela para o mundo. Eles sabiam dos meus problemas, estavam todos preocupados, me deram a mão, ninguém veio com aquela de "pára com esse negócio, você pode tomar uma bebidinha". Todo mundo deu força: "Vai lá, João Ubaldo! É isso mesmo!" E tome guaraná. Eu freqüento o boteco todo sábado, domingo e feriado, com a mesma turma, e tomo o mesmo porre de guaraná diet.

Veja – Já experimentou voltar a beber?
João Ubaldo – Numa época em que estava em crise, resolvi tomar um gole para ver o que acontecia. Entrei no buraco novamente. Foi um desastre. Agora estou descobrindo que não sou o tipo do alcoólatra que não pode tomar o primeiro gole. Eu já tomei o primeiro gole, umas três ou quatro vezes. Consigo me controlar, mas tive de quebrar uns hábitos antigos. Por exemplo, não associo terminar de trabalhar com começar a beber.

Veja – Quanto tempo faz isso?
João Ubaldo –
Uns dois anos e meio. E tenho descoberto que, mesmo sem beber, eu viro a alma da festa do mesmo jeito. Conto piada, dou muitas gargalhadas. Na intimidade, sou um sujeito muito alegre, falastrão, muito contador de casos. Nem o Pequeno Ubaldo consegue deixar de rir. E eu pensava dever tudo isso ao álcool.

Veja – É muito difícil falar sobre isso tudo?
João Ubaldo –
Eu não tenho essa frescura, não. Antes que falem, falo eu. Alcoolismo não é fraqueza moral. É uma armadilha em que eu caí, uma doença reconhecida pela Organização Mundial de Saúde. Li muita coisa interessante sobre vício. Gente viciada em heroína que simplesmente voltou do Vietnã e largou, nunca mais pensou no assunto. Outros que não largaram. Não há explicação para esse tipo de coisa. De forma que eu não tenho nenhuma prescrição, nenhuma receita a dar a ninguém. Tenho, sim, uma experiência de vida.