O lotação e a internet
"A Grande Rede, em vez
de nos impingir uma nova cultura, eleva as possibilidades
individuais e aproxima pessoas afins, o que não pode
deixar de ser celebrado"
Ilustração: Alê Setti
Pelo
menos trinta anos se passaram desde o desaparecimento do
lotação no Rio de Janeiro. Era um ônibus
pequeno e lembro-me das pessoas reclamando. O lotação
obedecia a uma rota, como qualquer ônibus, mas não
tinha ponto. Não andava muito devagar, mas as pessoas
ficavam olhando as vitrines e o movimento nas calçadas.
Era um fenômeno social, uma espécie de "Las
Ramblas" de Barcelona e outros lugares (as pessoas indo
e vindo, desfilando, só para se divertir em observar
o outro), só que móvel e tremendamente útil
como transporte coletivo. Uma loja interessante, uma moça
bonita, ou qualquer "site" interessante podia produzir várias
puxadas na campainha para o lotação parar.
O leitor que viveu essa experiência geralmente tem
filhos e netos que se movem na internet com inquietante
naturalidade. O desenvolvimento tecnológico tem sido
muito veloz. Eu mesmo conheci um senhor que era amigo de
Santos Dumont e que ficou emocionado ao ver o homem pisar
na Lua em 1969. Mas, aos que se sentem desajeitados com
o novo ambiente virtual e com "hype" em torno da "web" (ou
não entendem essas expressões), eu tenho a
dizer que a tecnologia muda, mas as leis econômicas
continuam valendo. O mundo já viveu muitas revoluções
tecnológicas transformadoras, com seus respectivos
episódios de "exuberância irracional" e "destruição
criadora". Assim como muitos de nós já andaram
de lotação. Os padrões são semelhantes,
e educativos.
Vamos tomar como exemplo as reconhecidamente extraordinárias
implicações da construção de
ferrovias no século XIX. Os novos "caminhos de ferro"
eram construídos sobre territórios inexplorados,
"criando" terras (do ponto de vista econômico, é
claro), exatamente como hoje a "superestrada da informação"
cria novos espaços econômicos prontos para
ser ocupados, os "sites" e "portais". O século XIX
assistiu a inúmeros episódios de especulação
com terras vizinhas às novas vias, ou às que
poderiam ser criadas. Muitas dessas febres tinham lugar
em volta das aglomerações urbanas florescendo
a partir das estações e entroncamentos ferroviários.
Eram centros naturais de negócios e de riqueza, como
são hoje os "provedores de acesso". São os
lugares por onde as pessoas entram na "rua do comércio",
ou no "shopping center", mas com uma diferença importante:
o passageiro que pagou pelo lotação (o computador)
pode parar onde bem entender. Por isso mesmo o acesso à
rede, em si, não tem lá muito valor econômico
e tenderá a ser gratuito mesmo. Outra coisa é
cobrar entrada para o "shopping center", para "Las Ramblas"
ou para os "chats" mais populares. Isso tem valor porque
existe aglomeração, ou espetáculo,
e as pessoas gostam de interagir. Mas, com tanta gente circulando,
a publicidade pode ser suficiente para que o consumidor
não tenha de pagar. Na verdade, quase tudo na internet
acaba ficando gratuito depois de algum tempo, o que não
quer dizer que ninguém esteja ganhando dinheiro no
processo, como é bastante evidente.
Mesmo o lotação pode ser subsidiado, ou
até grátis, desde que passe por certas rotas
de interesse dos lojistas. Nos Estados Unidos já
existem provedores que dão computadores de brinde.
O comércio, ao fim das contas, é tudo embora
as coisas sejam um tanto diferentes para o consumidor nesse
mundo do lotação virtual. O consumidor se
torna soberano e caprichoso. Obedecerá à lei
da oferta e da procura apenas quando em seu favor, e será
rigoroso ao extremo quanto aos "conteúdos" que deseja
escolher. A estrada está repleta de lojas, de todos
os tipos e formatos, todas disputando ferozmente a atenção
do passageiro. São tantas que o passageiro reconhece
a necessidade de ajuda não para escolher, mas para
restringir a escolha. Por isso são incrivelmente
populares os programas de busca (Yahoo! etc.), que selecionam
as rotas para o lotação passear. É
quase como carro particular, com motorista e de graça,
para o passageiro escolher os caminhos. É a vitória
da demanda sobre a oferta: o consumidor pode recusar absolutamente
tudo e selecionar no mais extremo detalhe o que pretende
consumir. A Grande Rede, ao fim das contas, em vez de nos
impingir uma nova cultura, eleva as possibilidades individuais
e aproxima pessoas afins, o que não pode deixar de
ser celebrado.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)