Ensaio:Roberto Pompeu de Toledo Atrás da exata calibragem
Até onde ser
mulher, até onde ser negro: os
desafios de Hillary Clinton e de Barack Obama
Ser mulher e querer
ser presidente dos Estados Unidos ou ser negro e querer ser
presidente dos Estados Unidos são aspirações
que exigem do ser humano bem mais do que se costuma exigir.
Hillary Clinton e Barack Obama, os líderes na disputa
pela candidatura do Partido Democrata à eleição
deste ano, estão envolvidos numa empreitada hercúlea.
Ser mulher e ser negro lhes é permitido, o.k., disso
eles não podem fugir mas nada de exagerar. Saber
até onde pode ser mulher, num caso, e até onde
cai bem ser negro, no outro eis um desafio visceral,
que se soma aos de fazer história e ameaçar
tabus. Demanda uma calibragem de cujo fino ajuste dependem
a vida e a morte eleitoral.
Hillary, ao decidir
se lançar na carreira política, decidiu simultaneamente
renunciar à condição de mulher. Desde
que, na presidência do marido, ganhou tarefas como a
de coordenar a reforma do sistema público de saúde,
adotou o modelo da executiva fria, forte nos números,
preocupada com os pobres, sim, mas nem por isso disposta a,
como a princesa Diana, posar ao lado dos famintos. Não
chegou a encarnar uma Margaret Thatcher, a menos mulher de
todas as mulheres que já comandaram um país
tão difícil de imaginar pondo o neto
para dormir quanto fácil de supor a varar noites em
articulações com parceiros fumando charuto ,
mas também se posicionou o mais distante possível
do modelo fada-madrinha de Eva Perón. No Senado, seu
mais famoso voto, pelo qual hoje é insistentemente
cobrada o de apoio à invasão do Iraque
, foi voto de macho. Se fosse homem, talvez se permitisse
votar contra. Sendo mulher, nunca. O voto contra poderia ser
interpretado como fraqueza de mulherzinha.
Eis, no entanto,
que na semana passada, na véspera da eleição
prévia de New Hampshire, Hillary coisa jamais
vista! chorou. A rigor, não foi nem choro. Numa
conversa com eleitoras, uma perguntou como ela conseguia agüentar
o stress da campanha, e a candidata ficou com aquilo que nos
romances populares se chama de "olhos rasos de lágrimas".
A cena, de tão incomum, foi repisada mil vezes na TV.
Os assessores de Hillary se apavoraram. Um homem ficar com
os olhos rasos de lágrimas se tolera. Já uma
mulher vira mulherzinha. Como pode uma pessoa dessas governar
a maior das potências? Já se sabe o resultado
desse fugaz momento de fraqueza: a ele foi atribuído
o fato de, contrariando as pesquisas, Hillary ter vencido
a eleição de New Hampshire. Bendito choro. Mostrou-a
humana e mulher. Mas isso não quer dizer que Hillary
deva sair chorando pela campanha eleitoral afora. Indica apenas
que nem sempre é preciso ficar em guarda contra a condição
de mulher, ou contra manifestações que o estereótipo
dá como femininas e condena como incompatíveis
com o exercício do poder.
Barack Obama, embora
mulato sua falecida mãe era branca , é,
sob certo ângulo, o negro mais negro que jamais freqüentou
a política americana. Na semana passada correram mundo
fotos e filmes de sua avó paterna, uma octogenária
que mora na zona rural do Quênia, na mesma aldeia em
que nasceu o também falecido pai do candidato
uma avó que fala suaíli e usa os característicos
vestidos, turbantes e colares coloridos. Não há
no panorama político americano personagem com ascendência
africana tão próxima. A mulher de Obama é
negra, ou mulata, como ele. Quer dizer: o sucesso não
o levou a aderir ao padrão Pelé de certos negros
brasileiros bem-sucedidos. Obama converteu-se ao cristianismo,
mas a família paterna é muçulmana.
Eis, no entanto,
que esse negro de trajetória tão assombrosa,
um Lula em escala global, em que o Quênia faz o papel
das favelas e do pau-de-arara das origens do presidente brasileiro,
está a grande distância do negro típico
da política americana. O típico é o militante
dos direitos civis. É Martin Luther King ou, em anos
mais recentes, Jesse Jackson, que, aliás, também
chegou a se lançar candidato a presidente. Andrew Young,
outro veterano militante dos direitos civis, hoje na campanha
de Hillary, disse há pouco que Bill Clinton é
mais negro do que Obama. "Com certeza Clinton já
teve mais mulheres negras do que Obama", acrescentou.
Era uma piada, claro, mas adivinha-se que uma piada saída
do fundo do coração. Obama é um negro
que toma suas distâncias da política negra habitual.
É aquilo que se convencionou chamar de "moderado".
Por isso mesmo é um candidato competitivo, e não,
como Jesse Jackson, um negro que entra nas campanhas para
marcar presença.
Se houvesse só
uma mulher, ou só um negro, concorrendo, em condições
de vencer, à candidatura do Partido Democrata, a disputa
já seria demais de boa. Ter os dois, como está
ocorrendo, é a glória, ainda que a mulher tome
seus cuidados para não ser tão mulher assim,
e o negro para não ser tão negro. O simbolismo
permanece. E tem valor duplicado quando posto em contraste
com os horrores da era Bush e seu coquetel de guerra no Iraque,
Guantánamo, oficialização da tortura
e outros desastres. A glória de abrigar uma disputa
eleitoral entre Hillary e Obama é da democracia americana.