O Globo de Ouro é
a primeira grande vítima da greve
dos roteiristas. Outras, mais graves, podem se seguir
Isabela Boscov
Letterman se sujeita à
navalha: ninguém gostou da barba, mas todo mundo
aplaudiu sua atitude
Durante
os dois meses em que ficou fora do ar por causa da greve dos
roteiristas de televisão e cinema americanos, o apresentador
David Letterman manifestou seu apoio à categoria em
piquetes, com declarações à imprensa
e também cultivando uma insólita barba, que
o deixou um bocado parecido com um Saddam Hussein branquelo.
Na segunda-feira 7, ele comemorou a volta de seu programa
com estardalhaço: chamou uma dupla de barbeiros, um
homem e uma mulher, para livrá-lo em cena do apêndice.
Terminou com alguns talhos feios no rosto, para os quais um
dos convidados da noite, Tom Hanks, providenciou curativos.
Mas, acima de tudo, encerrou a noite como herói. Letterman
pôde retomar seu talk-show, porque fez um acordo particular
com seus roteiristas, concordando com as reivindicações
alinhadas pelo sindicato, a Writers Guild of America (WGA),
e arcando do próprio bolso com os custos adicionais.
O patronato está
louco da vida com o apresentador, já que os sindicatos
assinam contratos com o conjunto da indústria
a qual, unida, tem mais força para negociar. Fora um
punhado de executivos, entretanto, o meio aplaudiu a solução
de Letterman. Ela é, de fato, uma luz no fim do longo
túnel da greve, que já conta entre suas vítimas
a festa do Globo de Ouro, neste domingo, 13, que teve de ser
trocada por uma coletiva de imprensa por causa do boicote
anunciado por vários astros. Mas o movimento ameaça
fazer outras vítimas, ainda mais graves: todos os filmes
e séries que estão na doca seca por falta de
quem os escreva. Em outras palavras, todo o ganha-pão
de Hollywood.
Richard
Vogel/AP
Stiller dá seu apoio
num piquete: queixas parecidas
Da última vez que uma greve de roteiristas se arrastou,
na década de 80, o saldo foi um desastre. Sem roteiros
decentes para rodar e novas temporadas de seriados para exibir,
a indústria acusou o golpe pelos dois anos seguintes.
Calcula-se que a greve atual já tenha cavado um prejuízo
de 500 milhões de dólares e contando.
Enquanto ela corre, também os escribas deixam de ganhar,
e muitos estão em sérias dificuldades. Furá-la,
porém, é impensável. A WGA está
olhando torto para Jay Leno, o rival de Letterman, que voltou
ao ar sem roteiristas, encarregando a si próprio de
criar as piadas e perguntas. (Comentário sobre sua
performance: as blagues sobre a greve já estão
ficando cansativas.) Fundamental, no caso, tem sido o apoio
dos atores, em especial os famosos, como Hanks, Ben Stiller
e Keira Knightley. Não só porque muitos deles
sabem que dependem dos roteiristas, como também porque
o seu sindicato tem um novo contrato a negociar no meio de
2008. A lista de queixas das duas associações
é muito parecida: refere-se aos ganhos magros ou inexistentes
com relançamentos, DVDs, downloads e outras novas mídias,
que proporcionam lucros gordos aos estúdios. Agora,
com o fiasco do Globo de Ouro, o patronato começa a
se preocupar com outra ameaça: a de que também
a festa do Oscar, em fevereiro, seja prejudicada. As estatuetas
têm preço: às vezes, dezenas de milhões
de dólares a mais, por prêmio, na bilheteria
e na conta bancária dos produtores.