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Edição 2043

16 de janeiro de 2008
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Barbaridade!

O Globo de Ouro é a primeira grande vítima da greve
dos roteiristas. Outras, mais graves, podem se seguir


Isabela Boscov

Letterman se sujeita à navalha: ninguém gostou da barba, mas todo mundo aplaudiu sua atitude

Durante os dois meses em que ficou fora do ar por causa da greve dos roteiristas de televisão e cinema americanos, o apresentador David Letterman manifestou seu apoio à categoria em piquetes, com declarações à imprensa e também cultivando uma insólita barba, que o deixou um bocado parecido com um Saddam Hussein branquelo. Na segunda-feira 7, ele comemorou a volta de seu programa com estardalhaço: chamou uma dupla de barbeiros, um homem e uma mulher, para livrá-lo em cena do apêndice. Terminou com alguns talhos feios no rosto, para os quais um dos convidados da noite, Tom Hanks, providenciou curativos. Mas, acima de tudo, encerrou a noite como herói. Letterman pôde retomar seu talk-show, porque fez um acordo particular com seus roteiristas, concordando com as reivindicações alinhadas pelo sindicato, a Writers Guild of America (WGA), e arcando do próprio bolso com os custos adicionais.

O patronato está louco da vida com o apresentador, já que os sindicatos assinam contratos com o conjunto da indústria – a qual, unida, tem mais força para negociar. Fora um punhado de executivos, entretanto, o meio aplaudiu a solução de Letterman. Ela é, de fato, uma luz no fim do longo túnel da greve, que já conta entre suas vítimas a festa do Globo de Ouro, neste domingo, 13, que teve de ser trocada por uma coletiva de imprensa por causa do boicote anunciado por vários astros. Mas o movimento ameaça fazer outras vítimas, ainda mais graves: todos os filmes e séries que estão na doca seca por falta de quem os escreva. Em outras palavras, todo o ganha-pão de Hollywood.

Richard Vogel/AP
Stiller dá seu apoio num piquete: queixas parecidas


Da última vez que uma greve de roteiristas se arrastou, na década de 80, o saldo foi um desastre. Sem roteiros decentes para rodar e novas temporadas de seriados para exibir, a indústria acusou o golpe pelos dois anos seguintes. Calcula-se que a greve atual já tenha cavado um prejuízo de 500 milhões de dólares – e contando. Enquanto ela corre, também os escribas deixam de ganhar, e muitos estão em sérias dificuldades. Furá-la, porém, é impensável. A WGA está olhando torto para Jay Leno, o rival de Letterman, que voltou ao ar sem roteiristas, encarregando a si próprio de criar as piadas e perguntas. (Comentário sobre sua performance: as blagues sobre a greve já estão ficando cansativas.) Fundamental, no caso, tem sido o apoio dos atores, em especial os famosos, como Hanks, Ben Stiller e Keira Knightley. Não só porque muitos deles sabem que dependem dos roteiristas, como também porque o seu sindicato tem um novo contrato a negociar no meio de 2008. A lista de queixas das duas associações é muito parecida: refere-se aos ganhos magros ou inexistentes com relançamentos, DVDs, downloads e outras novas mídias, que proporcionam lucros gordos aos estúdios. Agora, com o fiasco do Globo de Ouro, o patronato começa a se preocupar com outra ameaça: a de que também a festa do Oscar, em fevereiro, seja prejudicada. As estatuetas têm preço: às vezes, dezenas de milhões de dólares a mais, por prêmio, na bilheteria – e na conta bancária dos produtores.


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