Como Ugly Betty
transformou um novelão latino numa série cômica de
primeira
Marcelo
Marthe
Fotos
divulgação
Betty
(America Ferrera, de óculos): uma hecatombe ambulante
Em
sua infância, na Miami dos anos 70, o roteirista Silvio Horta já
era vidrado nas novelas latinas. Ao lado da mãe, o americano de ascendência
cubana se deliciava com seus excessos e cafonices. Três décadas mais
tarde, Horta demonstrou que tais sessões não foram em vão.
O seriado Ugly Betty, sua adaptação para a TV americana do
folhetim colombiano Betty, a Feia, estreou nos Estados Unidos em 2006 e
virou um fenômeno instantâneo de audiência. O êxito se
repete no Brasil: em exibição por aqui há apenas dois meses,
Ugly Betty tornou-se uma das atrações mais cultuadas do canal
Sony. A história da secretária feiosa que fisga o coração
do chefe depois de passar por uma transformação radical é
uma reedição da fábula do Patinho Feio, o que explica seu
apelo universal. A versão americana conserva a essência, mas subverte
o formato. Como no original, Betty Suarez é uma hecatombe ambulante: usa
aparelho nos dentes, óculos fundo de garrafa e um poncho vermelho no qual
se lê "Guadalajara" em letras enormes (na vida real, a atriz que
a interpreta, a excelente America Ferrera, até que é bem bonitinha).
Só que Ugly Betty tem trama com ritmo e estrutura de série
cômica, e não de folhetim romântico. Horta também dotou
o programa de um escancarado colorido gay. A ação se passa nos bastidores
de uma revista de moda nova-iorquina pela qual o sobrinho de Betty, o menino
Justin, com uma nada disfarçada inclinação homossexual, é
apaixonado.
Ao contrário
do que ocorre com a Betty colombiana, a relação da protagonista
com o patrão não vai além do plano profissional. Ela foi
contratada para ser sua assistente pelo pai dele, para evitar que o filho dormisse
com mais uma subordinada, e acaba conquistando sua afeição pela
obstinação e competência. É uma latina que está
ali para fazer a América, em suma. E nada indica que para isso terá
de abdicar de sua feiúra. O folhetim colombiano foi submetido a tantas
adaptações por uma razão simples: os espectadores americanos
nunca engoliram a receita tradicional das novelas hispânicas (e brasileiras,
por tabela), com suas tramas longas e sentimentais. Ugly Betty é
um marco ao mostrar um caminho para vencer essa resistência. Apesar das
alterações, a série se mantém fiel a certos aspectos
das novelas. Como nestas últimas, há um tema social em debate: por
meio do drama do pai de Betty, um mexicano que vive ilegalmente nos Estados Unidos,
fala-se da questão da imigração.
Justin
(Mark Indelicato): aos 13 anos, no papel de um gay livre, leve e solto
Da cenografia aos figurinos, Ugly Betty é muito camp a
variação gay do brega. E sua ala de personagens que estão
fora do armário não é pequena. Elainclui o assistente
afetado da vilã da história e um transexual vivido pela ex-modelo
Rebecca Romijn (mulher de verdade, saliente-se). Mas quem rouba mesmo a cena é
o garoto gay. Enquanto Betty se move como uma alienígena em seu ambiente
de trabalho, Justin (Mark Indelicato) flana no "mundinho" com desenvoltura.
Demonstra afinidade com o assistente da vilã, que lhe dá o seguinte
conselho ao vê-lo combinar uma cacharel com um coletinho azul Ralph Lauren:
"Seja você mesmo e vista o que quiser. Mas esteja preparado para correr".
Justin já imitou um sapateado de Gene Kelly vestido de marinheiro e executou
um número do musical Hairspray dentro do metrô. Esse jeito
de ser é encarado com naturalidade por Betty e pelo avô do menino.
Só a mãe fica atônita ao ver Justin dizer, com as mãozinhas
na cintura, frases como: "Não vou comer flã. Isso me faz engordar".
Indelicato tem origem
porto-riquenha e, como entregam os colegas de elenco, ostenta modos tão
extrovertidos quanto os de Justin. O personagem fez dele uma celebridade aos 13
anos. Mas é também motivo de controvérsia: enquanto o movimento
gay americano o adotou como mascote, conservadores vêm acusando a série
de apologia à homossexualidade. O gay assumido Horta desconversa quando
o assunto é a sexua-lidade de sua criação. "Justin é
muito novo para se preocupar com isso", costuma declarar.
Uma família no divã
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Sally
Field (à esq.) em Brothers & Sisters: de noviça
a matriarca desiludida
Ao
contrário de Ugly Betty, a série Brothers & Sisters
tem DNA legitimamente americano. O que não a impede de se mover com
agilidade num terreno que as telenovelas latinas dominam: o melodrama. Lançado
nos Estados Unidos em 2006 e exibido no Brasil pelo canal pago Universal, o programa
recolocou o gênero no mapa da TV americana. Seu enredo gira em torno dos
conflitos e relacionamentos de uma família fictícia da Califórnia,
os Walker. Os cinco filhos já passaram dos 30 anos e acreditam que os pais
formam um casal de sonho até que a morte do patriarca traz à
luz que ele tinha uma segunda mulher. A matriarca, Nora Walker (Sally Field),
hesita entre manter-se longe dos assuntos dos filhos e arregaçar as mangas
para lutar pela unidade do clã.
Trata-se de uma família exemplarmente disfuncional. Nora guarda mágoa
da filha Kitty (Calista Flock-hart, a advogada loirinha do seriado Ally McBeal),
porque esta se tornou expoente da opinião pública conservadora,
enquanto ela é uma liberal forjada na contestação dos anos
60. Não a perdoa, sobretudo, pelo fato de Kitty ter incentivado o irmão
caçula a lutar no Afeganistão depois disso, ele se tornou
um drogado autodestrutivo. A outra filha, Sarah (Rachel Griffiths), faz terapia
de casal para tentar salvar um casamento melancólico. Há ainda o
filho que é gay e um irmão rancoroso por ter sido preterido na administração
do negócio familiar. Que, se não bastasse tanta desgraça,
está praticamente falido.
Brothers
& Sisters não oferece trégua de seu foco principal, o de
vasculhar os cacos da família tradicional. Essa característica poderia
descambar facilmente para a chateação. Mas os diálogos e
situações são de tal contundência que a série
passa longe desse perigo. Os roteiristas contam, é verdade, com uma fera
no elenco. Sally Field que marcou a geração que cresceu entre
o fim da década de 60 e o começo da de 70 como a protagonista da
série A Noviça Voadora chega aos 61 anos em
plena forma. Com um mero baixar de olhos, ela é capaz de sintetizar toda
a desilusão que paira sobre os Walker.