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Edição 2043

16 de janeiro de 2008
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Feia, mas poderosa

Como Ugly Betty transformou um novelão
latino numa série cômica de primeira


Marcelo Marthe

Fotos divulgação
Betty (America Ferrera, de óculos): uma hecatombe ambulante

Em sua infância, na Miami dos anos 70, o roteirista Silvio Horta já era vidrado nas novelas latinas. Ao lado da mãe, o americano de ascendência cubana se deliciava com seus excessos e cafonices. Três décadas mais tarde, Horta demonstrou que tais sessões não foram em vão. O seriado Ugly Betty, sua adaptação para a TV americana do folhetim colombiano Betty, a Feia, estreou nos Estados Unidos em 2006 e virou um fenômeno instantâneo de audiência. O êxito se repete no Brasil: em exibição por aqui há apenas dois meses, Ugly Betty tornou-se uma das atrações mais cultuadas do canal Sony. A história da secretária feiosa que fisga o coração do chefe depois de passar por uma transformação radical é uma reedição da fábula do Patinho Feio, o que explica seu apelo universal. A versão americana conserva a essência, mas subverte o formato. Como no original, Betty Suarez é uma hecatombe ambulante: usa aparelho nos dentes, óculos fundo de garrafa e um poncho vermelho no qual se lê "Guadalajara" em letras enormes (na vida real, a atriz que a interpreta, a excelente America Ferrera, até que é bem bonitinha). Só que Ugly Betty tem trama com ritmo e estrutura de série cômica, e não de folhetim romântico. Horta também dotou o programa de um escancarado colorido gay. A ação se passa nos bastidores de uma revista de moda nova-iorquina – pela qual o sobrinho de Betty, o menino Justin, com uma nada disfarçada inclinação homossexual, é apaixonado.

Ao contrário do que ocorre com a Betty colombiana, a relação da protagonista com o patrão não vai além do plano profissional. Ela foi contratada para ser sua assistente pelo pai dele, para evitar que o filho dormisse com mais uma subordinada, e acaba conquistando sua afeição pela obstinação e competência. É uma latina que está ali para fazer a América, em suma. E nada indica que para isso terá de abdicar de sua feiúra. O folhetim colombiano foi submetido a tantas adaptações por uma razão simples: os espectadores americanos nunca engoliram a receita tradicional das novelas hispânicas (e brasileiras, por tabela), com suas tramas longas e sentimentais. Ugly Betty é um marco ao mostrar um caminho para vencer essa resistência. Apesar das alterações, a série se mantém fiel a certos aspectos das novelas. Como nestas últimas, há um tema social em debate: por meio do drama do pai de Betty, um mexicano que vive ilegalmente nos Estados Unidos, fala-se da questão da imigração.

Justin (Mark Indelicato): aos 13 anos, no papel de um gay livre, leve e solto

Da cenografia aos figurinos, Ugly Betty é muito camp – a variação gay do brega. E sua ala de personagens que estão fora do armário não é pequena. Ela inclui o assistente afetado da vilã da história e um transexual vivido pela ex-modelo Rebecca Romijn (mulher de verdade, saliente-se). Mas quem rouba mesmo a cena é o garoto gay. Enquanto Betty se move como uma alienígena em seu ambiente de trabalho, Justin (Mark Indelicato) flana no "mundinho" com desenvoltura. Demonstra afinidade com o assistente da vilã, que lhe dá o seguinte conselho ao vê-lo combinar uma cacharel com um coletinho azul Ralph Lauren: "Seja você mesmo e vista o que quiser. Mas esteja preparado para correr". Justin já imitou um sapateado de Gene Kelly vestido de marinheiro e executou um número do musical Hairspray dentro do metrô. Esse jeito de ser é encarado com naturalidade por Betty e pelo avô do menino. Só a mãe fica atônita ao ver Justin dizer, com as mãozinhas na cintura, frases como: "Não vou comer flã. Isso me faz engordar".

Indelicato tem origem porto-riquenha e, como entregam os colegas de elenco, ostenta modos tão extrovertidos quanto os de Justin. O personagem fez dele uma celebridade aos 13 anos. Mas é também motivo de controvérsia: enquanto o movimento gay americano o adotou como mascote, conservadores vêm acusando a série de apologia à homossexualidade. O gay assumido Horta desconversa quando o assunto é a sexua-lidade de sua criação. "Justin é muito novo para se preocupar com isso", costuma declarar.

Uma família no divã

Divulgação
Sally Field (à esq.) em Brothers & Sisters: de noviça a matriarca desiludida

Ao contrário de Ugly Betty, a série Brothers & Sisters tem DNA legitimamente americano. O que não a impede de se mover com agilidade num terreno que as telenovelas latinas dominam: o melodrama. Lançado nos Estados Unidos em 2006 e exibido no Brasil pelo canal pago Universal, o programa recolocou o gênero no mapa da TV americana. Seu enredo gira em torno dos conflitos e relacionamentos de uma família fictícia da Califórnia, os Walker. Os cinco filhos já passaram dos 30 anos e acreditam que os pais formam um casal de sonho – até que a morte do patriarca traz à luz que ele tinha uma segunda mulher. A matriarca, Nora Walker (Sally Field), hesita entre manter-se longe dos assuntos dos filhos e arregaçar as mangas para lutar pela unidade do clã.

Trata-se de uma família exemplarmente disfuncional. Nora guarda mágoa da filha Kitty (Calista Flock-hart, a advogada loirinha do seriado Ally McBeal), porque esta se tornou expoente da opinião pública conservadora, enquanto ela é uma liberal forjada na contestação dos anos 60. Não a perdoa, sobretudo, pelo fato de Kitty ter incentivado o irmão caçula a lutar no Afeganistão – depois disso, ele se tornou um drogado autodestrutivo. A outra filha, Sarah (Rachel Griffiths), faz terapia de casal para tentar salvar um casamento melancólico. Há ainda o filho que é gay e um irmão rancoroso por ter sido preterido na administração do negócio familiar. Que, se não bastasse tanta desgraça, está praticamente falido.

Brothers & Sisters não oferece trégua de seu foco principal, o de vasculhar os cacos da família tradicional. Essa característica poderia descambar facilmente para a chateação. Mas os diálogos e situações são de tal contundência que a série passa longe desse perigo. Os roteiristas contam, é verdade, com uma fera no elenco. Sally Field – que marcou a geração que cresceu entre o fim da década de 60 e o começo da de 70 como a protagonista da série A Noviça Voadora chega aos 61 anos em plena forma. Com um mero baixar de olhos, ela é capaz de sintetizar toda a desilusão que paira sobre os Walker.

 

 




 

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