BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2043

16 de janeiro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Ioschpe
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
Não empina

A adaptação do best-seller O Caçador de Pipas
tem inteligência e critério. O que lhe falta é vibração


Isabela Boscov

VEJA TAMBÉM
Na internet
Trailer do filme

Desde que estourou com A Última Ceia, em 2001, o suíço-alemão Marc Forster tem uma agenda cheiíssima – não só porque é um diretor capaz e tem um jeito todo especial com atores, mas porque possui uma flexibilidade incomum. Do drama carregado de Ceia à delicadeza de Em Busca da Terra do Nunca e ao surrealismo de Mais Estranho que a Ficção (além da ação, na qual vai se testar à frente do novo filme de James Bond), o cineasta se desincumbe sempre. Em vez de "estilo", o que ele traz para a tela é energia. Mas é essa sua maior qualidade que se faz ausente em O Caçador de Pipas (The Kite Runner, Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país.

O romance homônimo do afegão Khaled Hosseini, concluído pouco depois do 11 de Setembro, virou best-seller tanto pela janela que abriu para a vida em um país obscuro para a maioria dos ocidentais – e demonizado – quanto pelo seu apelo humano. No livro, os garotos Amir e Hassan crescem juntos na Cabul dos anos 70. A mãe de Amir morreu no parto e seu pai é um homem rico, generoso e teimoso, que detesta os ensinamentos retrógrados dos mulás. Hassan, por sua vez, é filho de Ali, empregado da família há quarenta anos. É um hazara, etnia tida como inferior, e nutre verdadeira adoração por Amir. Mas, ao mesmo tempo em que admira a retidão de Hassan, Amir se ressente do amor que seu pai dedica ao amigo. Quando Hassan é atacado e estuprado por um bando de meninos, portanto, não faz nada para socorrê-lo. O desprezo por sua própria covardia vai se transmutar em ódio contra Hassan e precipitar acontecimentos que, décadas mais tarde e já radicado nos Estados Unidos, Amir se sentirá compelido a corrigir. Nesse caminho, acompanha-se também muito das provações por que o Afeganistão passou, da guerra com os soviéticos à destruição final do país pelos talibãs. É um enredo romanesco, que Hosseini narra com grande instinto para cativar o leitor – mas que, transformado em filme, se mostra incapaz de movimentar com igual intensidade os sentimentos do espectador.

O problema, aqui, não é a insensibilidade cultural. Ao contrário: habituado a saltar de gênero para gênero sem nem um tropeço, Forster parece enamorado, com sinceridade, da idéia de fazer seu próprio filme iraniano. Os sinais estão no tom naturalista e despojado da narrativa, no fascínio com o rosto dos atores (Ahmad Khan Mahmidzada, que faz Hassan, é um achado) e na escolha do magnífico Homayoun Ershadi – o protagonista de Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami – para interpretar o pai de Amir. Ficam especialmente evidentes na desdramatização com que o diretor trata a trama. E aí o filme falha. Forster sabe reproduzir a forma do cinema iraniano, mas lhe falta a sua essência: seu fatalismo e sua visão acerba das fraquezas humanas, que infundem drama mesmo a situações triviais. Forster, como de hábito, trata seu material com inteligência e critério. Respeita o romance, respeita o elenco e também seu idioma (numa aposta arriscada para o mercado americano, a maioria dos diálogos é legendada). Mas deixou que a reverência tolhesse a maior contribuição que ele poderia dar a essa história – sua vibração.


 

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |