Desde que estourou
com A Última Ceia, em 2001, o suíço-alemão
Marc Forster tem uma agenda cheiíssima não
só porque é um diretor capaz e tem um jeito
todo especial com atores, mas porque possui uma flexibilidade
incomum. Do drama carregado de Ceia à delicadeza
de Em Busca da Terra do Nunca e ao surrealismo de Mais
Estranho que a Ficção (além da ação,
na qual vai se testar à frente do novo filme de James
Bond), o cineasta se desincumbe sempre. Em vez de "estilo",
o que ele traz para a tela é energia. Mas é
essa sua maior qualidade que se faz ausente em O Caçador
de Pipas(The Kite Runner, Estados Unidos,
2007), que estréia nesta sexta-feira no país.
O romance homônimo
do afegão Khaled Hosseini, concluído pouco depois
do 11 de Setembro, virou best-seller tanto pela janela que
abriu para a vida em um país obscuro para a maioria
dos ocidentais e demonizado quanto pelo seu
apelo humano. No livro, os garotos Amir e Hassan crescem juntos
na Cabul dos anos 70. A mãe de Amir morreu no parto
e seu pai é um homem rico, generoso e teimoso, que
detesta os ensinamentos retrógrados dos mulás.
Hassan, por sua vez, é filho de Ali, empregado da família
há quarenta anos. É um hazara, etnia tida como
inferior, e nutre verdadeira adoração por Amir.
Mas, ao mesmo tempo em que admira a retidão de Hassan,
Amir se ressente do amor que seu pai dedica ao amigo. Quando
Hassan é atacado e estuprado por um bando de meninos,
portanto, não faz nada para socorrê-lo. O desprezo
por sua própria covardia vai se transmutar em ódio
contra Hassan e precipitar acontecimentos que, décadas
mais tarde e já radicado nos Estados Unidos, Amir se
sentirá compelido a corrigir. Nesse caminho, acompanha-se
também muito das provações por que o
Afeganistão passou, da guerra com os soviéticos
à destruição final do país pelos
talibãs. É um enredo romanesco, que Hosseini
narra com grande instinto para cativar o leitor mas
que, transformado em filme, se mostra incapaz de movimentar
com igual intensidade os sentimentos do espectador.
O problema, aqui,
não é a insensibilidade cultural. Ao contrário:
habituado a saltar de gênero para gênero sem nem
um tropeço, Forster parece enamorado, com sinceridade,
da idéia de fazer seu próprio filme iraniano.
Os sinais estão no tom naturalista e despojado da narrativa,
no fascínio com o rosto dos atores (Ahmad Khan Mahmidzada,
que faz Hassan, é um achado) e na escolha do magnífico
Homayoun Ershadi o protagonista de Gosto de Cereja,
de Abbas Kiarostami para interpretar o pai de Amir.
Ficam especialmente evidentes na desdramatização
com que o diretor trata a trama. E aí o filme falha.
Forster sabe reproduzir a forma do cinema iraniano, mas lhe
falta a sua essência: seu fatalismo e sua visão
acerba das fraquezas humanas, que infundem drama mesmo a situações
triviais. Forster, como de hábito, trata seu material
com inteligência e critério. Respeita o romance,
respeita o elenco e também seu idioma (numa aposta
arriscada para o mercado americano, a maioria dos diálogos
é legendada). Mas deixou que a reverência tolhesse
a maior contribuição que ele poderia dar a essa
história sua vibração.