Com Eu Sou
a Lenda, Will Smith demonstra sua estratégia para uma carreira
de sucesso ímpar: cercar-se de roteiro, direção e imagens
de qualidade e deixar muito espaço para si no centro de tudo
Isabela
Boscov
Divulgação
Alice:
daqui a pouco, Sonia Braga é que terá de se conformar em ser conhecida
como a sua tia
Will Smith já
cometeu erros, claro. Errou no sumamente estúpido As
Loucas Aventuras de James West, em Bad Boys II
(bem mais irritante ainda do que o primeiro, se possível)
e no insípido Lendas da Vida. Mas faz algum
tempo que ele perdeu esse hábito. Smith tem acertado
sistematicamente na escolha de projetos que evidenciem sua
capacidade inata para provocar empatia, como Hitch
Conselheiro Amoroso. E se sai melhor ainda quando o filme
o faz aliar essa característica a uma outra, à
qual ele nem sempre deu a devida importância: seu talento
dramático, bem conhecido dos poucos que o viram, em
início de carreira, em Seis Graus de Separação.
No ano passado, Smith colheu tanto elogios como dólares
graças a essa boa combinação, em À
Procura da Felicidade. Agora, ele a repete, com mais sucesso
ainda, em Eu Sou a Lenda(I Am Legend,
Estados Unidos, 2007), que estréia nesta sexta-feira
no país.
Refeitura de A Última Esperança da Terra, um pequeno clássico
da ficção científica estrelado por Charlton Heston em 1971,
o filme traz o ator como Robert Neville, um cientista que, até onde ele
próprio sabe, é o único ser humano a ter sobrevivido inalterado
a uma epidemia deflagrada por um vírus modificado para o tratamento do
câncer. Os que não eram imunes, como ele, morreram em decorrência
da infecção ou foram mortos, de maneira selvagem, pelos homens
e mulheres que, contaminados, se metamorfosearam em criaturas assemelhadas a vampiros.
Como os vampiros, esses mutantes reagem até ao mais sutil cheiro de sangue.
E, como eles também, não toleram a luz solar. Durante o dia, portanto,
Neville circula em companhia de Sam, a inseparável fêmea de pastor
alemão que o protege, por uma Nova York deserta, destruída e que
está rapidamente sendo devolvida à natureza. Antes que a noite comece
a cair, ele se recolhe à sua casa em Washington Square, que transformou
numa espécie de fortaleza, da qual nenhum sinal de existência humana
pode escapar. À parte alguns flashbacks, isso significa que, na prática,
Smith está absolutamente só em cena durante mais de uma hora. Até
que a brasileira Alice Braga entre na história (veja
o quadro), já muito perto do desfecho, ele tem de gerar sozinho
toda a ação dramática; tem de falar consigo mesmo sem parecer
louco nem soar aparvalhado como um personagem do noveleiro Manoel Carlos; tem,
enfim, de manter o interesse da platéia e a tensão do enredo contando
apenas com os próprios recursos. É uma tarefa e tanto. Que Smith
a cumpra de forma tão bem-sucedida é prova de sua competência
e da argúcia com que tem selecionado os projetos que melhor ressaltem seus
pontos fortes.
Um desses
fortes, notoriamente, está no atletismo de Smith e na facilidade com que
ele se deixa cercar por efeitos especiais sem ser ofuscado por eles. Eu Sou
a Lenda calibra com cuidado esses elementos. Durante semanas, a produção
transtornou o trânsito de Nova York, para rodar não com paisagens
digitais, mas em locação, as cenas em que Neville circula pelas
ruas abandonadas uma decisão ideal do ponto de vista da verossimilhança
e também do espaço que proporciona a um ator que quase sempre encontra
o caminho para seus personagens por meio da ação física.
O resultado é, por vezes, espantoso. Neville caça antílopes
numa Times Square coberta de mato, disputando-os com leões (os animais,
presume-se, escaparam do zoológico e agora correm soltos). Volta sempre
a uma videolocadora em que vários manequins colocados nos corredores, para
efeito de decoração, o consolam pela ausência de qualquer
outra forma humana. Vive regido por cronômetros e alarmes, acertados segundo
os horários diários do nascente e do poente, e transpira um medo
palpável a cada vez que deixa escapar um minuto que seja. Durante a noite,
quando os gritos dos mutantes chegam perto demais, ele tenta se esconder dentro
da banheira, abraçado à sua cadela. E, o tempo todo, procura descobrir
uma vacina para a infecção o que, numa das seqüências
mais eletrizantes do filme, o leva a montar uma armadilha num dos "ninhos"
de mutantes, a fim de capturar um espécime vivo e levá-lo para seu
laboratório.
Não
é só pelo artesanato eficaz e pela presença de Smith
um dos maiores chamarizes de bilheteria de que Hollywood dispõe
que Eu Sou a Lenda já acumulou 400 milhões de dólares
em menos de quatro semanas de exibição. O astro tem participação
decisiva no desenvolvimento de seus projetos e demonstra aqui outro tipo de instinto
para os temas que estão mais à tona na imaginação
do público em um dado momento. Eu Sou a Lenda recupera o enredo
de A Última Esperança da Terra, mas toma muito mais ainda
emprestado de Extermínio, o sucesso-surpresa lançado por
Danny Boyle em 2002. Como no filme do diretor inglês, a manipulação
biológica é o gatilho para um novo holocausto (em substituição
à ameaça nuclear que imperou durante os tempos de Guerra Fria).
As criaturas que surgem da contaminação ainda são seres humanos
mas seres humanos em que os traços mais violentos e agressivos enterraram
todos os outros comportamentos. E a cidade deserta é, da mesma forma, um
personagem crucial. O que Smith faz, com a colaboração do diretor
Francis Lawrence, de Constantine, é ampliar esse cenário
para dimensões apropriadas às de um astro de seu porte e colocá-lo
para orbitar em torno de si. Nada aqui, nem as imagens e nem sequer as criaturas
que, a certa altura, se revelam em mais detalhe do que seria necessário
, tem mais relevância do que o protagonista, ou do que o ator que
o interpreta. Para qualquer outro astro, à exceção já
testada de Tom Hanks, essa seria uma direção arriscada. Smith, porém,
usou seus erros para tomar as medidas exatas de seu carisma. Este é ainda
maior do que se supunha. E, quanto menos houver em seu caminho, maior é
o seu poder de magnetizar.
PRONTA
PARA FAZER A AMÉRICA
Na
Nova York pós-apocalíptica em que se passa Eu Sou a Lenda,
o protagonista Robert Neville interage com apenas dois outros seres humanos: um
menino, com o qual não troca palavra, e Anna, uma paulista que conseguiu
escapar do holocausto genético num navio, rumo à Costa Leste americana.
Com o papel de Anna, Alice Braga tirou um bilhete premiado a oportunidade
de ser a única atriz a contracenar com Will Smith numa produção
de imenso sucesso. E, o melhor, recebendo elogios e sem ter de agüentar comentários
sobre o excesso de gestos e de maquiagem, como os que sobraram para Rodrigo Santoro
em 300. Mais até do que o colega (com o qual trabalha em Redbelt,
o próximo filme do dramaturgo David Mamet), a paulistana Alice, com 24
anos passados quase todos no pedaço formado pelos bairros de Vila Madalena,
Vila Ida e Vila Beatriz, está fazendo a América. Revelada por Fernando
Meirelles com uma participação em Cidade de Deus, ela volta
a trabalhar com o diretor em Blindness, adaptado de Ensaio sobre a Cegueira,
de José Saramago. Estará em Crossing Over, como uma imigrante
ilegal. O papel é pequeno, mas os atores com os quais divide as cenas
Sean Penn e Harrison Ford não. E já concluiu a filmagem de
Repossession Mambo, em que é o segundo nome do elenco, entre Jude
Law e Forest Whitaker. Alice continua firme também no cinema brasileiro:
no segundo semestre, deve ser dirigida pelo ator e amigo Marco Ricca (com quem
fez A Via Láctea) em Cabeça a Prêmio. "Não
mudo daqui de jeito nenhum", diz a atriz, que, quando viaja ao exterior,
torra fortunas em telefonemas para a família.
Alice está cumprindo o que é quase um destino anunciado. Seu pai,
Ninho Moraes, foi durante anos diretor do programa de Marília Gabriela
e hoje dá aulas de cinema e de jornalismo. Sua mãe, Ana, é
montadora. Sua irmã, Rita, é produtora e assistente de direção.
Vários primos e tios também trabalham no meio. Entre os quais Sonia
Braga, de quem sua mãe é irmã mais nova. Mas desde seu desempenho
surpreendente em Cidade Baixa, há dois anos, Alice vem rapidamente
deixando de ser designada como "a sobrinha de Sonia". Talentosa, dona
de um sorriso cativante e dedicada como se pode aferir pelo inglês
excelente que fala em Eu Sou a Lenda , ela está muito perto
de inverter os termos. Se continuar nessa ascendente, daqui a pouquinho Sonia
é que terá de se conformar em ser chamada de "a tia de Alice".