Mudança
radical Na adolescência, a atriz
Flávia Alessandra costumava ficar horas sob o sol, com o corpo besuntado
de Coca-Cola e óleo de urucum, para ganhar cor. Há dez anos, ela
passou a defender-se dos raios solares. Agora, protegida como convém, Flávia
bronzeia-se sem riscos
Os
conhecimentos sobre a radiação ultravioleta e o aperfeiçoamento
tecnológico dos filtros possibilitaram que os banhos de sol se tornassem
um grande aliado da saúde e da estética
Carioquíssima,
a atriz Flávia Alessandra nutre pelo sol um sentimento próximo ao
da veneração. Nos seus verões adolescentes, ela se estirava
sob os raios escaldantes, com o corpo besuntado por um bronzeador caseiro à
base de Coca-Cola e óleo de urucum. "Achava um charme ficar vermelha
nos primeiros dias", lembra. Como quase todo mundo, ela encarava a ardência
e as bolhas como uma passagem obrigatória para a morenice. No fim dos anos
80, com o bombardeio de informações sobre os malefícios do
abuso da radiação ultravioleta para a pele, a atriz começou
a preocupar-se com o assunto e a refugiar-se nas sombras de varandas e guarda-sóis.
Hoje, aos 34 anos, ela está em paz com o sol. Aprendeu como tirar proveito
dos dias ensolarados, sem riscos à saúde. "Voltei aos tempos
de menina e até me permito pegar aquele solão do meio-dia",
diz. Até recentemente, o único banho de sol considerado 100% seguro
era o de bebê, aquele de antes das 10 da manhã ou de depois das 4
da tarde com duração de minutos. Com os avanços nos conhecimentos
sobre a radiação solar e seu impacto sobre o organismo e o aprimoramento
tecnológico dos protetores solares, pode-se dizer que o verão de
2008 o mais quente da última década, segundo o Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é a estação
de alforria do sol. Está liberado inclusive o "solão do meio-dia".
As pesquisas médicas mais recentes indicam que os benefícios dos
raios solares superam seus possíveis malefícios para a pele. A exposição
solar faz bem para o esqueleto, fortalece o sistema imunológico e regula
a pressão arterial. Pode, ainda, prevenir o diabetes tipo 2 e até
alguns tipos de câncer, como os de mama, próstata, pulmão
e intestino. O sol tem, inclusive, ação antidepressiva. É
uma alegria basta saber usá-lo.
Depois
de mais de dez anos relegado ao papel de vilão, o sol ascendeu ao posto
de aliado da boa saúde porque se comprovou a sua estreita relação
com a vitamina D, essencial ao funcionamento adequado do organismo. A explicação
é que, na superfície da pele, existem substâncias precursoras
desse micronutriente. Quando os raios ultravioleta, especialmente os do tipo B
(UVB), incidem sobre a derme, as moléculas de tais substâncias são
transformadas em vitamina D a qual, em seguida, cai na corrente sanguínea
e é transportada para diversos órgãos (veja o quadro na
pág. 73). Desde meados da década de 90, associa-se a vitamina
D a processos deflagrados por 200 genes. Ou seja, ela está presente na
multiplicação de certos tipos de célula, na liberação
de hormônios, na absorção de nutrientes e na manutenção
do ritmo dos batimentos cardíacos.
Uma das mais fascinantes e inovadoras linhas de pesquisa sobre as benesses do
sol para a saúde é a que investiga o papel da vitamina D na prevenção
a diversos tipos de câncer. Há pelo menos uma centena de estudos
sobre esse tema em andamento. O mais recente foi publicado pela revista da Academia
Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Liderados pelo médico Johan
Moan, da Universidade de Oslo, pesquisadores noruegueses e americanos compararam
os níveis de vitamina D no sangue de habitantes de países dos hemisférios
Norte e Sul. Entre os ingleses e os noruegueses, que habitam a porção
superior do planeta, com menos insolação, as quantidades de vitamina
D chegam a ser um quinto das registradas entre os australianos. Paralelamente,
os pesquisadores constataram que a incidência de tumores malignos de próstata,
mama, pulmão e intestino dobra nessas regiões mais frias. Segundo
dados do Inpe, a intensidade da radiação solar no verão do
Hemisfério Sul é 7% maior, em média, do que no verão
do Hemisfério Norte. Se os noruegueses se expusessem ao sol duas vezes
mais do que estão habituados a fazer, conforme o levantamento da equipe
de Moan, 3.000 mortes por câncer poderiam ser evitadas a cada ano.
Para chegar às quantidades ideais de vitamina D, é preciso muito
pouco. Basta expor as pernas ou os braços ao sol, duas vezes por semana,
de cinco a trinta minutos, conforme o tipo de pele (veja
o quadro). O aproveitamento máximo dos raios requer que não
se use protetor durante esse período de exposição
depois disso, só com protetor, é claro. Sem esse pequeno banho de
sol, aumenta exponencialmente o risco de hipovitaminose D. Calcula-se que 1 bilhão
de pessoas, ao redor do mundo, tenham o problema. Sete de cada dez americanos
com mais de 70 anos sofrem da carência do micronutriente. Os mais velhos
são mais suscetíveis porque tendem a sair menos de casa. Ou seja,
pegam menos sol. Já se verificou também que os negros são
mais propensos à doença do que os brancos. Quanto mais escura é
a pele, menor é a quantidade de radiação solar absorvida
por ela. A melanina, o pigmento que enegrece, funciona como um filtro natural.
Um negro chega a produzir 100 vezes mais melanina do que um branco de pele claríssima.
É por isso que, para produzir vitamina D nas quantidades preconizadas pelos
médicos, uma mulher como a atriz Taís Araújo tem de tomar
seis vezes mais sol do que a modelo e apresentadora Ana Hickmann, por exemplo.
Não é por causa da síntese
de vitamina D que os brasileiros se refestelam nas praias e piscinas sob o sol
de verão. Eles querem mesmo é pegar uma cor. E é aqui que
os filtros solares se fazem imprescindíveis. Os primeiros estudos que associam
os banhos de sol sem proteção aos cânceres cutâneos
datam da década de 40. O conceito de proteção contra os raios
solares começou a ser estabelecido no decorrer da II Guerra Mundial. Nos
campos de batalha, para protegerem o rosto da exposição prolongada
ao sol, alguns soldados americanos lambuzavam a face com uma graxa vermelha desenvolvida
no fundo do quintal do farmacêutico Benjamin Greene, de Miami. A partir
dessa graxa vermelha surgiram, dez anos depois, os primeiros bloqueadores físicos
produzidos em escala industrial. Feitos à base de óxido de zinco,
eles protegiam contra 90% da radiação solar. O único inconveniente
era a sua apresentação: uma pomada branca, densa, difícil
de espalhar. Até hoje há diversos bloqueadores físicos no
mercado (veja o quadro).
Como não são absorvidos pela pele, eles entram principalmente na
formulação de cosméticos fotoprotetores, como as bases de
maquiagem. Nos anos 50, surgiram os protetores químicos, cujo aperfeiçoamento
resultou nos filtros que eu, você e a torcida do Flamengo usamos atualmente.
Eles são constituídos por moléculas que captam e enfraquecem
os raios solares, anulando os seus efeitos danosos. Em termos de proteção,
não há diferença entre os bloqueadores químicos e
os físicos. A vantagem destes últimos é que eles são
fáceis de espalhar, não deixam o corpo melado ou o rosto brilhante.
Tais características, somadas à maior quantidade de informação,
aumentaram sobremaneira a adesão dos brasileiros ao uso dos filtros solares.
Em 2001, foram produzidos no país 3 milhões de toneladas de protetor
solar. A projeção para 2008 é que esse volume dobrará.
Hoje em dia, a indústria conta
com pelo menos uma centena de moléculas anti-sol. Combinadas entre si,
elas possibilitam a criação de produtos com diferentes fatores de
proteção solar, conhecidos pela sigla FPS. A tecnologia necessária
para definir o FPS de um filtro foi desenvolvida na década de 70. Até
pouco tempo atrás, acreditava-se que, quanto maior o número correspondente
ao FPS, maior seria o seu tempo de ação. Ou seja, uma pessoa de
pele morena, como a modelo Raica Oliveira, que usasse um protetor de fator 5 poderia
ficar estirada sob o sol por duas horas e cinco minutos, com uma única
aplicação. Se ela, no entanto, espalhasse pelo corpo um fotoprotetor
de fator 10, poderia, teoricamente, ficar mais de quatro horas sem ter de reaplicar
o produto. Essa aritmética revelou-se falsa. Está provado que, independentemente
do fator de proteção ou do tipo de pele, os filtros deixam de fazer
efeito depois de duas horas. "Além disso, as análises
laboratoriais mais recentes mostram que, a partir do fator 30, a capacidade de
proteção dos filtros é praticamente a mesma", diz Omar
Lupi, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Nenhum filtro é
capaz de barrar 100% dos raios solares. Um fotoprotetor de fator 30 bloqueia 97,6%
dos raios ultravioleta do tipo B (UVB), aqueles que queimam a pele e estão
relacionados ao aparecimento da maioria dos casos de câncer de pele. Um
protetor 50 filtra 98% da radiação. São os raios que escapam
à ação dos filtros que permitem o bronzeamento.
A ação benéfica do sol é um fato, mas, paradoxalmente,
ele nunca foi tão perigoso. Isso por causa dos rombos na camada de ozônio.
Localizada entre 25 e 35 quilômetros da superfície da Terra, ela
filtra dois tipos de raio ultravioleta. Um deles é o tipo A (UVA), que
acelera o envelhecimento da pele, por penetrar em camadas mais profundas. A capa
de ozônio consegue bloquear 5% da radiação UVA e 95% dos raios
UVB. De acordo com os cientistas, a cada vinte anos, 4% da camada de ozônio
é destruída pela ação de poluentes lançados
na atmosfera. Resumo de todas essas estatísticas: sim, sua impressão
está correta. O sol, a cada verão, apresenta-se mais e mais ardido.
Já pensou se não existissem os protetores?
Raios de saúde e alegria
O
sol é a principal fonte de vitamina D do organismo. Esse micronutriente
é essencial para a saúde. Alguns de seus benefícios:
Ossos
A vitamina D aumenta a absorção de cálcio pelos
ossos o que faz com que os banhos de sol sejam indicados para combater
o raquitismo na infância e a osteoporose na velhice
Sistema
imunológico A exposição ao sol ajuda a fortalecer
o sistema imunológico. Com células de defesa mais vigorosas, o risco
de infecções diminui
Pâncreas
Níveis adequados de vitamina D estão associados a uma
redução no risco de diabetes tipo 2. O micronutriente ajuda as células
pancreáticas a liberar insulina, o hormônio regulador das taxas de
açúcar no sangue
Cérebro
O sol tem ação antidepressiva. A vitamina D está
relacionada a um aumento na liberação de substâncias cerebrais
associadas à sensação de bem-estar e euforia, como as endorfinas
Próstata,
mama, pulmão e intestino Como a vitamina D tem um papel essencial
no processo de multiplicação celular, a sua falta está associada
a um aumento no risco de câncer, sobretudo de próstata, mama, pulmão
e intestino. A incidência dessas doenças chega a ser 50% inferior
em regiões ensolaradas
Rins
A vitamina D está envolvida na síntese de renina, hormônio
de controle da pressão arterial. Por isso, os hipertensos podem se beneficiar
dos banhos de sol freqüentes
A
BULA DO SOL
Para que todos esses benefícios
sejam conseguidos, basta expor os braços ou as pernas ao sol, duas vezes
por semana, por períodos de cinco a trinta minutos, dependendo do tipo
de pele de cada um (veja o quadro)