Operação policial
revela o impressionante domínio do tráfico na favela da Mangueira
Ronaldo
Soares
Bruno
Gonzalez/AGIF/AFP
Fortaleza
erguida por bandidos na Mangueira: defesa contra policiais e grupos invasores
"Mnha
Mangueira, esta sala de recepção / Aqui se abraça inimigo
como se fosse irmão." Assim o genial Cartola exaltou, em Sala de
Recepção, o clima de cordialidade na favela que abriga a escola
de samba carioca mais conhecida fora do Rio de Janeiro. Hoje, a realidade da Mangueira,
na Zona Norte do Rio, é bem diferente. Lá vivem 14 000 pessoas
subjugadas por traficantes. Inimigo dos bandidos é executado e tem o corpo
incinerado em uma espécie de crematório clandestino, conhecido como
"forno microondas". Em uma operação na semana passada,
policiais encontraram ossadas humanas e um muro, semelhante a uma fortaleza, usado
pelos bandidos para se proteger de ataques de grupos rivais e de incursões
policiais. A descoberta foi casual. O objetivo da operação era prender
a quadrilha de traficantes que manda na favela.
Acabou-se
por escancarar uma situação há muito conhecida: o domínio
do tráfico sobre a escola de samba. É um crime de muitas vítimas.
O crime cultural é imperdoável. A Mangueira é uma instituição
brasileira que produziu Nelson Cavaquinho ("Tire seu sorriso do caminho /
que eu quero passar com a minha dor", com Guilherme de Brito), Carlos Cachaça
("Parece que os males todos desse mundo / Foram feitos só pra mim"),
Xangô da Mangueira e Nelson Sargento ("Nosso amor é tão
bonito / ela finge que me ama / eu finjo que acredito"), além do grande
Cartola ("Alvorada lá no morro, que beleza / ninguém chora,
não há tristeza / ninguém sente dissabor", com Carlos
Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho).
Andrea
Farias/Ag. O Dia
Tuchinha:
autor de samba e procurado pela polícia por tráfico de drogas
O
principal alvo dos policiais era Francisco Paulo Testas Monteiro, o "Tuchinha",
que vem a ser um dos autores do samba que a Mangueira defenderá no Carnaval.
A polícia descobriu que o traficante vinha utilizando a escola de samba
como uma extensão de seus negócios. Chegava a marcar encontros na
quadra para acertar a venda de drogas. O local, aliás, virou território
livre da bandidagem. Não é difícil encontrar traficantes
armados circulando nos ensaios da Mangueira, os mais badalados entre as escolas
cariocas, por reunir artistas, políticos e turistas. A quadra é
a predileta dos moradores da Zona Sul do Rio, região de maior poder aquisitivo.
Em suma, é a escola preferida dos bacanas e também dos patrocinadores
de projetos sociais. Não por acaso, a Mangueira foi a favela escolhida
para recepcionar Bill Clinton, em visita presidencial ao Brasil em 1997. "Por
ter influência em vários meios, do artístico ao político,
a Mangueira adquiriu uma espécie de blindagem. É muito complicado
para a polícia mexer ali, e isso dá maior tranqüilidade para
o tráfico atuar", disse a VEJA o delegado Márcio Caldas, que
investiga o bando de Tuchinha. Os ensaios vinham servindo como chamariz para o
comércio de drogas. Do total arrecadado semanalmente pelo tráfico
cerca de 1 milhão de reais , mais de 60% correspondem ao movimento
dos fins de semana, quando ocorrem os ensaios. A operação da semana
passada mostra que a polícia pode estar, finalmente, disposta a romper
um círculo vicioso que usou o que a cultura carioca produziu de melhor
para esconder o que a sociedade tem de pior.