BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado








REVISTAS
VEJA
Edição 2043

16 de janeiro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Claudio de Moura Castro
Millôr
Gustavo Ioschpe
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Brasil
Droga no samba

Operação policial revela o impressionante
domínio do tráfico na favela da Mangueira


Ronaldo Soares

Bruno Gonzalez/AGIF/AFP
Fortaleza erguida por bandidos na Mangueira: defesa contra policiais e grupos invasores

"Mnha Mangueira, esta sala de recepção / Aqui se abraça inimigo como se fosse irmão." Assim o genial Cartola exaltou, em Sala de Recepção, o clima de cordialidade na favela que abriga a escola de samba carioca mais conhecida fora do Rio de Janeiro. Hoje, a realidade da Mangueira, na Zona Norte do Rio, é bem diferente. Lá vivem 14 000 pessoas subjugadas por traficantes. Inimigo dos bandidos é executado e tem o corpo incinerado em uma espécie de crematório clandestino, conhecido como "forno microondas". Em uma operação na semana passada, policiais encontraram ossadas humanas e um muro, semelhante a uma fortaleza, usado pelos bandidos para se proteger de ataques de grupos rivais e de incursões policiais. A descoberta foi casual. O objetivo da operação era prender a quadrilha de traficantes que manda na favela.

Acabou-se por escancarar uma situação há muito conhecida: o domínio do tráfico sobre a escola de samba. É um crime de muitas vítimas. O crime cultural é imperdoável. A Mangueira é uma instituição brasileira que produziu Nelson Cavaquinho ("Tire seu sorriso do caminho / que eu quero passar com a minha dor", com Guilherme de Brito), Carlos Cachaça ("Parece que os males todos desse mundo / Foram feitos só pra mim"), Xangô da Mangueira e Nelson Sargento ("Nosso amor é tão bonito / ela finge que me ama / eu finjo que acredito"), além do grande Cartola ("Alvorada lá no morro, que beleza / ninguém chora, não há tristeza / ninguém sente dissabor", com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho).

Andrea Farias/Ag. O Dia
Tuchinha: autor de samba e procurado pela polícia por tráfico de drogas


O principal alvo dos policiais era Francisco Paulo Tes–tas Monteiro, o "Tuchinha", que vem a ser um dos autores do samba que a Mangueira defenderá no Carnaval. A polícia descobriu que o traficante vinha utilizando a escola de samba como uma extensão de seus negócios. Chegava a marcar encontros na quadra para acertar a venda de drogas. O local, aliás, virou território livre da bandidagem. Não é difícil encontrar traficantes armados circulando nos ensaios da Mangueira, os mais badalados entre as escolas cariocas, por reunir artistas, políticos e turistas. A quadra é a predileta dos moradores da Zona Sul do Rio, região de maior poder aquisitivo. Em suma, é a escola preferida dos bacanas e também dos patrocinadores de projetos sociais. Não por acaso, a Mangueira foi a favela escolhida para recepcionar Bill Clinton, em visita presidencial ao Brasil em 1997. "Por ter influência em vários meios, do artístico ao político, a Mangueira adquiriu uma espécie de blindagem. É muito complicado para a polícia mexer ali, e isso dá maior tranqüilidade para o tráfico atuar", disse a VEJA o delegado Márcio Caldas, que investiga o bando de Tuchinha. Os ensaios vinham servindo como chamariz para o comércio de drogas. Do total arrecadado semanalmente pelo tráfico – cerca de 1 milhão de reais –, mais de 60% correspondem ao movimento dos fins de semana, quando ocorrem os ensaios. A operação da semana passada mostra que a polícia pode estar, finalmente, disposta a romper um círculo vicioso que usou o que a cultura carioca produziu de melhor para esconder o que a sociedade tem de pior.




 

Publicidade

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |