Para aprovar pacote,
o governo desiste de cortes, acelera as nomeações e cogita recriar
a CPMF
Otávio
Cabral
No pano verde...
O
governo voltou a sentar-se à mesa de
negociação com os aliados para tentar aprovar o pacote de impostos
Montagem
sobre ilustração de Baptistão com fotos de Fabio Pozzebom/ABR, Dida Sampaio/AE,
Antonio Cruz/ABR e Roosevelt Pinheiro/ABR
LUCIANO
CASTRO O líder do PR quer cargos no Dnit em troca da recriação
da CPMF
JOSÉ SARNEY O ex-presidente conseguiu emplacar o aliado Lobão nas Minas e Energia
JOSÉ
MÚCIO ministro tem cargos na manga para conseguir aprovar pacote
JADER
BARBALHO Preso por desvios na Sudam, o deputado vai dar as cartas na Sudam
RENAN
CALHEIROS Após escapar da cassação, joga com mais
discrição, mas com o mesmo apetite
Para
aprovar o pacote de aumento de impostos e compensar os 40 bilhões de reais
que deixarão de ser arrecadados com o fim da CPMF, o governo anunciou que
pretendia cortar despesas e elegeu as bilionárias emendas parlamentares
como um dos primeiros alvos da tesoura oficial. A promessa durou pouco mais de
uma semana. A turma de sempre senadores e deputados da base aliada
se apressou em lembrar que, para aprovar o aumento dos impostos, o governo vai
precisar de votos, e os congressistas poderiam ficar muito irritados e até
rebeldes se houvesse algum atraso na liberação do dinheiro reservado
para atender a seus interesses políticos. Aliás, a turma de sempre
lembrou também que uma parte dos congressistas já estava bastante
insatisfeita com a demora do governo em preencher cargos na máquina federal.
O blefe surtiu efeito. Não haverá mais cortes radicais de emendas
e, para tapar o buraco que continua aberto, já se discute até a
recriação da CPMF. Em nome da aprovação do pacote
de impostos, como se previa, o governo vai aos poucos abrindo mão de cortar
as despesas. Ao assumir compromissos com a turma de sempre, o governo topa um
jogo cujo resultado pode até ser uma vitória contábil, mas
será, sem dúvida, um retrocesso político.
Na
semana passada, o resultado mais visível desses acertos foi a confirmação
do senador Edison Lobão, do PMDB do Maranhão, para o Ministério
de Minas e Energia, um afago à turma ligada ao senador José Sarney.
Desde que a Polícia Federal passou a navalha no ministério, há
oito meses, cortando a cabeça de um grupo de altos funcionários
envolvidos em corrupção, o PMDB aguarda o sinal verde para recolocar
seus prepostos nos cargos. Lobão, leigo no campo da energia, assume o posto
por suas habilidades e conexões políticas (veja reportagem na
pág. 46). Além de voltar a comandar um ministério de
alto poder gastador, o PMDB conseguiu garantir outros quinze cargos estratégicos.
O deputado Jader Barbalho, que chegou a ser preso por desviar dinheiro da velha
Sudam, emplacou um afilhado, adivinha onde? Ora, na direção da nova
Sudam. O indefectível Renan Calheiros, aquele que renunciou à presidência
do Senado em troca da preservação do mandato, mostra que ainda é
influente nos bastidores. Ele quer nomear toda a direção da nova
Sudene. Afinal, qual a diferença entre as velhas e novas
Sudam e Sudene? A diferença é que as velhas acabaram em escândalo
e as novas ainda não. Ainda.
Só
o Ministério de Minas e Energia tem 5,5 bilhões de reais em investimentos.
Somados aos outros cargos já definidos, o PMDB terá sob sua batuta
mais de 9 bilhões de reais. Não há uma única alma
em Brasília capaz de acreditar que os novos gestores peemedebistas estão
de olho nesse orçamento gigantesco com o objetivo de economizar. O PR também
pegou uma carona no jogo, pressionou e levou as diretorias do Dnit na Paraíba
e em Santa Catarina. Em tempos de ameaça de apagão, o líder
do partido na Câmara, Luciano Castro, disse que também quer um cargo
na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). "O pacote
do governo tinha duas pernas: aumento de arrecadação e corte de
despesas. Pelo jeito, o governo já abriu mão de uma parte, que é
o corte. Não vai cortar nos gastos correntes, como pessoal, que são
o grosso da despesa. Diz que vai cortar em investimentos, mas mantendo o PAC,
que tem as obras mais caras. E, para aprovar o pacote, ainda pode aumentar os
gastos, com nomeações e liberações de emendas. É
uma conta que não fecha", afirma o economista Raul Velloso, especialista
em finanças públicas.
Sem
disposição para podar as despesas, é natural que surjam alternativas
estapafúrdias, como a recriação da CPMF. O líder do
governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), anunciou que é
consenso na base aliada a apresentação de um projeto de recriação
do imposto do cheque, com alíquota de 0,20% e com toda a arrecadação
destinada à saúde. "O governo percebeu que não é
fácil cortar recursos", reconhece o líder. Em outras palavras,
é mais fácil aumentar impostos. "O governo para gastar tem
a mesma cabeça de um obeso para comer. Mesmo depois de fazer cirurgia de
redução de estômago, o gordo continua abrindo a geladeira
100 vezes por dia para comer. E agora joga com esse blefe que é a recriação
da CPMF. Se colar, colou. Mas não vamos permitir", diz o deputado
Paulo Bornhausen, do DEM de Santa Catarina. Para a turma de sempre, nada é
impossível.