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Edição 2043

16 de janeiro de 2008
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Carta ao leitor
A natureza é implacável

Celio Messias/AE
O reservatório da hidrelétrica de Furnas: faltou chuva

O francês Victor Hugo (1802-1885) escreveu, em um célebre ensaio sobre William Shakespeare, que "Deus se manifesta de duas maneiras – primeiro, pela natureza e, segundo, pelo engenho humano". Perfeito. Ocorre que nem sempre o encontro dessas duas manifestações divinas é muito colaborativo. Ao contrário. A história da vida civilizada nada mais é do que a sucessão de quedas-de-braço travadas entre o homem e a natureza, com vitórias parciais do primeiro. Como resultado, existem hoje amplos recursos tecnológicos para evitar que os humores naturais atormentem a vida das pessoas e das nações.

Duas reportagens da presente edição de VEJA tratam dessa questão de duas maneiras. Uma delas relata uma vitória contra a natureza. A reportagem revela como a ciência decifrou os enigmas da radiação solar e dotou as pessoas da informação e dos filtros adequados para tirar do espectro luminoso apenas o que ele pode fornecer de mais benéfico para o corpo, tornando, assim, a experiência ao ar livre no verão muito mais prazerosa e saudável. A outra, infelizmente, narra uma derrota. Ela mostra como décadas de falta de investimento em fontes geradoras de energia deixaram o Brasil com extrema dependência de suas hidrelétricas e, portanto, refém do regime de chuvas, do qual a natureza é soberana.

Fala-se agora em racionamento de energia e até no risco de apagões. Essas incertezas poderiam ter sido evitadas com planejamento adequado, marcos regulatórios capazes de atrair investimentos privados e menos burocracia na concessão de licenças ambientais. No Brasil são necessários, em média, quatro anos para obtenção da licença ambiental para construir uma usina. Em países desenvolvidos, esse processo leva a metade do tempo. Até o ano passado, essas fragilidades vinham sendo disfarçadas pela generosidade do clima. Choveu forte logo no início do verão. Isso atrapalhou as férias de muita gente, mas encheu as represas e garantiu o funcionamento do país. Neste ano o cenário está sendo justamente o oposto. O melhor a fazer nesses casos é não contar com a natureza. Ela é insondável e implacável.


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