O reservatório da hidrelétrica
de Furnas: faltou chuva
O
francês Victor Hugo (1802-1885) escreveu, em um célebre
ensaio sobre William Shakespeare, que "Deus se manifesta
de duas maneiras primeiro, pela natureza e, segundo,
pelo engenho humano". Perfeito. Ocorre que nem sempre
o encontro dessas duas manifestações divinas
é muito colaborativo. Ao contrário. A história
da vida civilizada nada mais é do que a sucessão
de quedas-de-braço travadas entre o homem e a natureza,
com vitórias parciais do primeiro. Como resultado,
existem hoje amplos recursos tecnológicos para evitar
que os humores naturais atormentem a vida das pessoas e das
nações.
Duas reportagens
da presente edição de VEJA tratam dessa questão
de duas maneiras. Uma delas relata uma vitória contra
a natureza. A reportagem revela como a ciência decifrou
os enigmas da radiação solar e dotou as pessoas
da informação e dos filtros adequados para tirar
do espectro luminoso apenas o que ele pode fornecer de mais
benéfico para o corpo, tornando, assim, a experiência
ao ar livre no verão muito mais prazerosa e saudável.
A outra, infelizmente, narra uma derrota. Ela mostra como
décadas de falta de investimento em fontes geradoras
de energia deixaram o Brasil com extrema dependência
de suas hidrelétricas e, portanto, refém do
regime de chuvas, do qual a natureza é soberana.
Fala-se agora em
racionamento de energia e até no risco de apagões.
Essas incertezas poderiam ter sido evitadas com planejamento
adequado, marcos regulatórios capazes de atrair investimentos
privados e menos burocracia na concessão de licenças
ambientais. No Brasil são necessários, em média,
quatro anos para obtenção da licença
ambiental para construir uma usina. Em países desenvolvidos,
esse processo leva a metade do tempo. Até o ano passado,
essas fragilidades vinham sendo disfarçadas pela generosidade
do clima. Choveu forte logo no início do verão.
Isso atrapalhou as férias de muita gente, mas encheu
as represas e garantiu o funcionamento do país. Neste
ano o cenário está sendo justamente o oposto.
O melhor a fazer nesses casos é não contar com
a natureza. Ela é insondável e implacável.