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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Admirável Velho Mundo

"Pela primeira vez na história, uma dúzia
de países – sem guerra nem violência –
abandona parte essencial de sua soberania
para criar uma moeda única visando ao
bem-estar coletivo"



Ilustração Ale Setti


No rol de diagnósticos furados dos últimos tempos, convém agora acrescentar muitas análises sobre a introdução da moeda comum européia. Desde o ano passado, conjuminâncias cerebrinas de economistas brasileiros – alguns de nível ministerial – vaticinaram o irremediável fracasso do euro. Gurus da esquerda européia também fizeram previsões de mau agouro e consultores internacionais enveredaram pelo mesmo terreno. Nesta revista, em 12 de dezembro de 2001, George Friedman, criador da Stratfor – a maior agência privada mundial de informações –, teve a franqueza de reconhecer que seu estudo de 1996 sobre a inviabilidade do euro ("Nunca acreditamos que a moeda única européia pudesse vingar") foi a pior mancada cometida até agora por sua empresa.

A que atribuir esses equívocos? À antipatia anglo-americana pela aliança franco-alemã, motor essencial da União Européia? À arrogância dos setores mais tacanhos e isolacionistas dos Estados Unidos e de seus seguidores d'aquém e d'além-mar? Ao confronto do neocapitalismo americano com a social-democracia européia? Há de tudo isso um pouco, mas é ocioso desfiar as sem-razões dos que azaram o avanço da UE. Agora, parece mais interessante observar as mudanças de opinião e as conseqüências da nova situação internacional.

Na verdade, a prova cabal do sucesso do euro é oferecida pela brusca virada de maré nos três países-membros da UE que haviam recusado integrar-se à nova moeda. Na Suécia e na Dinamarca haverá novos referendos nacionais em que se prenuncia uma maioria de votos favoráveis à adesão ao euro. Na Inglaterra, os inconvenientes da não-integração à unidade monetária apareceram de maneira cristalina. Imediatamente após o Ano-Novo, as grandes lojas londrinas começaram a aceitar pagamentos em euro, configurando o quadro do cotidiano inglês a médio prazo: uma dupla circulação do euro e da libra nas carteiras, nas caixas registradoras e nos bancos da Inglaterra. Temendo ser empurrado para a correnteza da moeda única pela catadupa de euros que afluirão do continente, Tony Blair redobrou suas advertências sobre a "tragédia" representada pelo isolamento inglês diante do avanço da unificação européia.

E o Brasil, onde fica? É forçoso reconhecer que, malgrado a complexidade das etapas que vêm sendo transpostas há meio século pela unificação européia, não obstante a massa de relatórios disponibilizados em língua portuguesa (veja site http://europa.eu.int/index_pt.htm), muita gente no Brasil pensa que a UE forma um simples cartel de fazendeiros incompetentes. O significado histórico do evento escapou aos formadores de opinião. Mesmo os observadores mais categorizados da imprensa brasileira não atinaram para o ponto decisivo: o euro é uma etapa crucial de um processo de unificação propulsado desde o início por uma vontade política coletiva. Como assinalaram os jornais mais sérios da Europa e dos Estados Unidos, pela primeira vez na história uma dúzia de países – sem guerra nem violência, somente com negociações e entendimento democrático – abandona parte essencial de sua soberania para criar uma moeda única visando ao bem-estar coletivo. Há problemas no horizonte. Mas esse empreendimento admirável do Velho Mundo já está servindo aos interesses dos brasileiros.

De fato, se a Espanha – a segunda maior investidora na Argentina (25,7% dos investimentos estrangeiros) e no Brasil (15,6% dos investimentos) – não estivesse escorada pelo euro, a peseta e a economia espanhola teriam rolado ladeira abaixo. No contexto pós-Guerra Fria, em que a hegemonia americana deixa que as nações se esborrachem, a crise argentina tomaria uma dimensão muito mais ampla, atingindo o Brasil em cheio. Fica então a conclusão banalíssima, que soa como um programa subversivo no contexto atual brasileiro: nem tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo inteiro.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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