Luiz
Felipe de Alencastro
Admirável
Velho Mundo
"Pela
primeira vez na história, uma dúzia
de países sem guerra nem violência
abandona parte essencial de sua soberania
para criar uma moeda única visando ao
bem-estar coletivo"
Ilustração Ale Setti
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No rol de diagnósticos furados dos últimos tempos, convém
agora acrescentar muitas análises sobre a introdução
da moeda comum européia. Desde o ano passado, conjuminâncias
cerebrinas de economistas brasileiros alguns de nível ministerial
vaticinaram o irremediável fracasso do euro. Gurus da esquerda
européia também fizeram previsões de mau agouro e
consultores internacionais enveredaram pelo mesmo terreno. Nesta revista,
em 12 de dezembro de 2001, George Friedman, criador da Stratfor
a maior agência privada mundial de informações ,
teve a franqueza de reconhecer que seu estudo de 1996 sobre a inviabilidade
do euro ("Nunca acreditamos que a moeda única européia pudesse
vingar") foi a pior mancada cometida até agora por sua empresa.
A que atribuir
esses equívocos? À antipatia anglo-americana pela aliança
franco-alemã, motor essencial da União Européia?
À arrogância dos setores mais tacanhos e isolacionistas dos
Estados Unidos e de seus seguidores d'aquém e d'além-mar?
Ao confronto do neocapitalismo americano com a social-democracia européia?
Há de tudo isso um pouco, mas é ocioso desfiar as sem-razões
dos que azaram o avanço da UE. Agora, parece mais interessante
observar as mudanças de opinião e as conseqüências
da nova situação internacional.
Na verdade,
a prova cabal do sucesso do euro é oferecida pela brusca virada
de maré nos três países-membros da UE que haviam recusado
integrar-se à nova moeda. Na Suécia e na Dinamarca haverá
novos referendos nacionais em que se prenuncia uma maioria de votos favoráveis
à adesão ao euro. Na Inglaterra, os inconvenientes da não-integração
à unidade monetária apareceram de maneira cristalina. Imediatamente
após o Ano-Novo, as grandes lojas londrinas começaram a
aceitar pagamentos em euro, configurando o quadro do cotidiano inglês
a médio prazo: uma dupla circulação do euro e da
libra nas carteiras, nas caixas registradoras e nos bancos da Inglaterra.
Temendo ser empurrado para a correnteza da moeda única pela catadupa
de euros que afluirão do continente, Tony Blair redobrou suas advertências
sobre a "tragédia" representada pelo isolamento inglês diante
do avanço da unificação européia.
E o Brasil,
onde fica? É forçoso reconhecer que, malgrado a complexidade
das etapas que vêm sendo transpostas há meio século
pela unificação européia, não obstante a massa
de relatórios disponibilizados em língua portuguesa (veja
site http://europa.eu.int/index_pt.htm),
muita gente no Brasil pensa que a UE forma um simples cartel de fazendeiros
incompetentes. O significado histórico do evento escapou aos formadores
de opinião. Mesmo os observadores mais categorizados da imprensa
brasileira não atinaram para o ponto decisivo: o euro é
uma etapa crucial de um processo de unificação propulsado
desde o início por uma vontade política coletiva. Como assinalaram
os jornais mais sérios da Europa e dos Estados Unidos, pela primeira
vez na história uma dúzia de países sem guerra
nem violência, somente com negociações e entendimento
democrático abandona parte essencial de sua soberania para
criar uma moeda única visando ao bem-estar coletivo. Há
problemas no horizonte. Mas esse empreendimento admirável do Velho
Mundo já está servindo aos interesses dos brasileiros.
De fato,
se a Espanha a segunda maior investidora na Argentina (25,7% dos
investimentos estrangeiros) e no Brasil (15,6% dos investimentos)
não estivesse escorada pelo euro, a peseta e a economia espanhola
teriam rolado ladeira abaixo. No contexto pós-Guerra Fria, em que
a hegemonia americana deixa que as nações se esborrachem,
a crise argentina tomaria uma dimensão muito mais ampla, atingindo
o Brasil em cheio. Fica então a conclusão banalíssima,
que soa como um programa subversivo no contexto atual brasileiro: nem
tudo o que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo
inteiro.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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