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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

O carnavalesco,
o técnico e o marqueteiro

Uma avaliação de três profissões
que deixaram os bastidores para
roubar o espetáculo

Que há em comum entre o carnavalesco, o técnico de futebol e o marqueteiro político? Primeiro: eles não entram em campo. São, por natureza, profissionais de ensaios e bastidores. Segundo: não se prendem à cor da camisa. Podem defender um time, escola ou candidato hoje, e amanhã o time, escola ou candidato oposto. Terceiro: cada vez mais, roubam o espetáculo. Os imperativos de discrição e de silêncio que seriam de supor em quem ali está para preparar e coordenar o espetáculo, mas não é o espetáculo, têm sido largamente superados pela compulsão da exposição e pela sofreguidão dos egos. Este é um ano de técnicos de futebol e marqueteiros e, como todos os outros, de carnavalescos. Haverá Copa do Mundo e eleições e, como todos os anos, salvo imprevisto de última hora, haverá Carnaval. Examinemos o presente status de cada um desses profissionais, por ordem de entrada no calendário.

O carnavalesco, até alguns anos atrás, era um desconhecido. Um pobre funcionário de segundo plano, mais desconhecido que a mais humilde das integrantes da ala das baianas, mais ainda que o gari que limpa a pista depois da passagem da escola. Foi então que, em 1976, com um primor de desfile, na Beija-Flor de Nilópolis, e a frase que lhe foi atribuída ("Pobre gosta de luxo. Quem gosta de pobreza é intelectual"), Joãosinho Trinta deu corpo e alma à profissão. Certas atividades devem tudo a uma só pessoa. Pense-se na de industrial. Que era o industrial, antes de Henry Ford? Ao inventar a linha de montagem e a produção em massa, ele inventou de quebra a profissão de industrial. Pense-se, num outro extremo, na atividade de padre dublê de cantor e bailarino. Quem se atrevia a cantar e dançar enquanto rezava a missa, antes do padre Marcelo Rossi? Pois Joãosinho Trinta criou a categoria de carnavalesco. Hoje se dá valor ao carnavalesco. Virou um profissional mais observado que o mestre-sala, mais festejado que a porta-bandeira. Joãosinho Trinta tem mudado de time, o que prova que a profissão é inconstante como a de técnico de futebol. Hoje está na escola Grande Rio. E neste ano seu enredo será o Maranhão. "Epa!", dirá o leitor. Maranhão!? Roseana Sarney!? Sim, Maranhão e Roseana. O que prova que entre o carnavalesco e o marqueteiro as coincidências vão muito além do que sonha nossa vã filosofia.

O técnico de futebol nunca foi um desconhecido. Sempre foi profissional prestigiado. Mas era um participante discreto no conjunto do espetáculo. Mais propriamente, era invisível. Seus grandes momentos eram o treino e as instruções no vestiário, ambas atividades exercidas fora das vistas do público. Durante o jogo, ficava confinado à boca de um túnel, em certos estádios, e em outros a um triste banquinho, onde se impunha que ficasse quieto. O técnico da seleção de 1958, Vicente Feola, desempenhava tão humilde papel que, dizia-se, até dormia durante o jogo. De uns anos para cá, desde que o técnico foi liberado para ficar junto ao campo e dar instruções durante o jogo, a profissão mudou de natureza. O técnico virou parte do show. As câmaras de TV grudam nele mais do que no centroavante, captando-lhe o mais mínimo dos gestos, as efusões e desesperos, bem como, pela leitura labial que a proximidade das tomadas permite, o repertório de palavrões. Com a subida do técnico às culminâncias do estrelato, surgiu uma novidade na galeria de tipos do futebol: o técnico de terno e gravata. O tipo é estranho. Parece surgido da imaginação de um carnavalesco. Ou das instruções de um marqueteiro, ao maquiar seu candidato. Faz figura tão deslocada quanto seria a de um executivo de chuteira na reunião de diretoria.

Os marqueteiros... Bem, se os carnavalescos e os técnicos adquiriram tais culminâncias, que dizer dos marqueteiros? Seu prestígio é tal que aumenta a cada dia o reclamo de que Duda Mendonça e Nizan Guanaes se enfrentem diretamente nas urnas. "Chega de intermediários!" Guanaes, como um técnico campeão, é disputado entre Roseana Sarney, atual detentora de seu passe, e o pretendente José Serra. Não é à toa. Trata-se de profissional que fez decolar uma candidata com base em uma única qualidade: a de ser mulher. Roseana, diga-se, nesse ponto tem todo o merecimento, pois realmente é mulher. Não está fingindo, como tantos políticos fazem. De qualquer forma, é uma proeza sustentar um candidato com base nos azares do percurso dos cromossomos dos pais. Já Duda Mendonça foi além do que iria um técnico. Ao mudar de Paulo Maluf para Lula, não é que tenha trocado o Corinthians pelo Palmeiras, o Flamengo pelo Vasco ou o Atlético pelo Cruzeiro. É muito mais. Trocou Deus pelo diabo. Ou o diabo por Deus – decida o leitor quem, entre os destinatários da troca, merece o papel de Deus e quem o do diabo. Uma campanha política, desde que passou à condução dos marqueteiros, pode chegar a uma explosão de festa e fantasia, um delírio de cores e embriaguez de formas dignos da imaginação de um carnavalesco. E a eleição pode virar um vertiginoso carnaval.

   
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