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Roberto
Pompeu de Toledo
O carnavalesco,
o técnico e o marqueteiro
Uma
avaliação de
três profissões
que deixaram os bastidores para
roubar o espetáculo
Que há em comum entre o carnavalesco, o técnico de futebol
e o marqueteiro político? Primeiro: eles não entram em campo.
São, por natureza, profissionais de ensaios e bastidores. Segundo:
não se prendem à cor da camisa. Podem defender um time,
escola ou candidato hoje, e amanhã o time, escola ou candidato
oposto. Terceiro: cada vez mais, roubam o espetáculo. Os imperativos
de discrição e de silêncio que seriam de supor em
quem ali está para preparar e coordenar o espetáculo, mas
não é o espetáculo, têm sido largamente
superados pela compulsão da exposição e pela sofreguidão
dos egos. Este é um ano de técnicos de futebol e marqueteiros
e, como todos os outros, de carnavalescos. Haverá Copa do Mundo
e eleições e, como todos os anos, salvo imprevisto de última
hora, haverá Carnaval. Examinemos o presente status de cada um
desses profissionais, por ordem de entrada no calendário.
O carnavalesco, até alguns anos atrás, era um desconhecido.
Um pobre funcionário de segundo plano, mais desconhecido que a
mais humilde das integrantes da ala das baianas, mais ainda que o gari
que limpa a pista depois da passagem da escola. Foi então que,
em 1976, com um primor de desfile, na Beija-Flor de Nilópolis,
e a frase que lhe foi atribuída ("Pobre gosta de luxo. Quem gosta
de pobreza é intelectual"), Joãosinho Trinta deu corpo e
alma à profissão. Certas atividades devem tudo a uma só
pessoa. Pense-se na de industrial. Que era o industrial, antes de Henry
Ford? Ao inventar a linha de montagem e a produção em massa,
ele inventou de quebra a profissão de industrial. Pense-se, num
outro extremo, na atividade de padre dublê de cantor e bailarino.
Quem se atrevia a cantar e dançar enquanto rezava a missa, antes
do padre Marcelo Rossi? Pois Joãosinho Trinta criou a categoria
de carnavalesco. Hoje se dá valor ao carnavalesco. Virou um profissional
mais observado que o mestre-sala, mais festejado que a porta-bandeira.
Joãosinho Trinta tem mudado de time, o que prova que a profissão
é inconstante como a de técnico de futebol. Hoje está
na escola Grande Rio. E neste ano seu enredo será o Maranhão.
"Epa!", dirá o leitor. Maranhão!? Roseana Sarney!? Sim,
Maranhão e Roseana. O que prova que entre o carnavalesco e o marqueteiro
as coincidências vão muito além do que sonha nossa
vã filosofia.
O técnico de futebol nunca foi um desconhecido. Sempre foi profissional
prestigiado. Mas era um participante discreto no conjunto do espetáculo.
Mais propriamente, era invisível. Seus grandes momentos eram o
treino e as instruções no vestiário, ambas atividades
exercidas fora das vistas do público. Durante o jogo, ficava confinado
à boca de um túnel, em certos estádios, e em outros
a um triste banquinho, onde se impunha que ficasse quieto. O técnico
da seleção de 1958, Vicente Feola, desempenhava tão
humilde papel que, dizia-se, até dormia durante o jogo. De uns
anos para cá, desde que o técnico foi liberado para ficar
junto ao campo e dar instruções durante o jogo, a profissão
mudou de natureza. O técnico virou parte do show. As câmaras
de TV grudam nele mais do que no centroavante, captando-lhe o mais mínimo
dos gestos, as efusões e desesperos, bem como, pela leitura labial
que a proximidade das tomadas permite, o repertório de palavrões.
Com a subida do técnico às culminâncias do estrelato,
surgiu uma novidade na galeria de tipos do futebol: o técnico de
terno e gravata. O tipo é estranho. Parece surgido da imaginação
de um carnavalesco. Ou das instruções de um marqueteiro,
ao maquiar seu candidato. Faz figura tão deslocada quanto seria
a de um executivo de chuteira na reunião de diretoria.
Os marqueteiros... Bem, se os carnavalescos e os técnicos adquiriram
tais culminâncias, que dizer dos marqueteiros? Seu prestígio
é tal que aumenta a cada dia o reclamo de que Duda Mendonça
e Nizan Guanaes se enfrentem diretamente nas urnas. "Chega de intermediários!"
Guanaes, como um técnico campeão, é disputado entre
Roseana Sarney, atual detentora de seu passe, e o pretendente José
Serra. Não é à toa. Trata-se de profissional que
fez decolar uma candidata com base em uma única qualidade: a de
ser mulher. Roseana, diga-se, nesse ponto tem todo o merecimento, pois
realmente é mulher. Não está fingindo, como tantos
políticos fazem. De qualquer forma, é uma proeza sustentar
um candidato com base nos azares do percurso dos cromossomos dos pais.
Já Duda Mendonça foi além do que iria um técnico.
Ao mudar de Paulo Maluf para Lula, não é que tenha trocado
o Corinthians pelo Palmeiras, o Flamengo pelo Vasco ou o Atlético
pelo Cruzeiro. É muito mais. Trocou Deus pelo diabo. Ou o diabo
por Deus decida o leitor quem, entre os destinatários da
troca, merece o papel de Deus e quem o do diabo. Uma campanha política,
desde que passou à condução dos marqueteiros, pode
chegar a uma explosão de festa e fantasia, um delírio de
cores e embriaguez de formas dignos da imaginação de um
carnavalesco. E a eleição pode virar um vertiginoso carnaval.
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