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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Muitos talentos

Ficção científica, policial, saga
familiar. Há
de tudo no novo
romance de Margaret Atwood

Ana Maria Machado


A canadense Margaret Atwood é uma autora bem cotada para ser a próxima mulher a ganhar o Nobel de Literatura. A leitura de seu romance mais recente, O Assassino Cego (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco; 495 páginas; 45 reais), ajuda a entender por quê. Embora o prêmio sueco contemple o conjunto da obra de um escritor e não apenas um texto isolado, esse livro é um excelente cartão de visitas. Em 2000, ele foi o ganhador do Booker Prize, a maior consagração para um romance escrito em língua inglesa. Além disso, é uma boa síntese do que Margaret construiu em mais de trinta anos de carreira, inclusive por fundir alguns dos gêneros em que ela se tem destacado.

As quase 500 páginas do livro contam uma história densa, que vem do entreguerras até o fim do século XX. Nelas há algo de ficção científica, como em A História da Aia, uma obra anterior de Margaret. Há também muito do olhar poético sem pieguice com que a autora é capaz de examinar os pequenos momentos do cotidiano (como fez, por exemplo, em A Noiva Ladra). E mais: elas trazem vastos panoramas sociais, miúdas observações realistas, diálogos perfeitos, muito senso de humor – e a coragem de questionar idéias feitas.

A moldura de O Assassino Cego é a de uma saga familiar. A narradora fala sobre a I Guerra Mundial, sobre a depressão econômica dos anos 30, sobre lutas sindicais e perseguições políticas, sobre casamentos arranjados, traições e rebeldia jovem. Ao mesmo tempo, mostra o processo de desenvolvimento de sua própria consciência, dos tempos de menina, em que era joguete em mãos alheias, até a velhice, quando ela resolve registrar seu testemunho sobre o mundo que conheceu.

Ao descrever dessa forma o livro, porém, nem sequer começamos a dar uma idéia de toda a sua riqueza. Numa entrevista recente, Margaret Atwood disse ter pensado nas caixas chinesas ao projetá-lo: "Você abre uma caixa e encontra outra lá dentro". Da mesma forma, O Assassino Cego traz, dentro da saga familiar, uma história policial escrita por uma das personagens. E, dentro dessa história, um terceiro enredo, de ficção científica, que se passa num planeta distante onde sacrifícios são feitos em nome de antigos deuses e onde assassinatos cruéis são realizados (aqui está ele finalmente) por um assassino cego. Trata-se, sim, de um romance de estrutura complexa. Mas não há como se perder nele. O Assassino Cego é perfeitamente claro e fluente. O propósito de Margaret Atwood não é mistificar com artifícios literários, mas levar o leitor a, quem sabe, perder sua própria cegueira, mostrando-lhe verdades psicológicas nem sempre agradáveis, nem sempre fáceis de encarar. Um belíssimo livro.

   
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