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Muitos
talentos
Ficção científica, policial, saga
familiar. Há
de tudo no novo
romance de Margaret Atwood
Ana
Maria Machado
A
canadense Margaret Atwood é uma autora bem cotada para ser a próxima
mulher a ganhar o Nobel de Literatura. A leitura de seu romance mais recente,
O Assassino Cego (tradução de Léa Viveiros
de Castro; Rocco; 495 páginas; 45 reais), ajuda a entender por
quê. Embora o prêmio sueco contemple o conjunto da obra de
um escritor e não apenas um texto isolado, esse livro é
um excelente cartão de visitas. Em 2000, ele foi o ganhador do
Booker Prize, a maior consagração para um romance escrito
em língua inglesa. Além disso, é uma boa síntese
do que Margaret construiu em mais de trinta anos de carreira, inclusive
por fundir alguns dos gêneros em que ela se tem destacado.
As quase 500 páginas do livro contam uma história densa,
que vem do entreguerras até o fim do século XX. Nelas há
algo de ficção científica, como em A História
da Aia, uma obra anterior de Margaret. Há também muito
do olhar poético sem pieguice com que a autora é capaz de
examinar os pequenos momentos do cotidiano (como fez, por exemplo, em
A Noiva Ladra). E mais: elas trazem vastos panoramas sociais, miúdas
observações realistas, diálogos perfeitos, muito
senso de humor e a coragem de questionar idéias feitas.
A moldura de O Assassino Cego é a de uma saga familiar.
A narradora fala sobre a I Guerra Mundial, sobre a depressão econômica
dos anos 30, sobre lutas sindicais e perseguições políticas,
sobre casamentos arranjados, traições e rebeldia jovem.
Ao mesmo tempo, mostra o processo de desenvolvimento de sua própria
consciência, dos tempos de menina, em que era joguete em mãos
alheias, até a velhice, quando ela resolve registrar seu testemunho
sobre o mundo que conheceu.
Ao descrever dessa forma o livro, porém, nem sequer começamos
a dar uma idéia de toda a sua riqueza. Numa entrevista recente,
Margaret Atwood disse ter pensado nas caixas chinesas ao projetá-lo:
"Você abre uma caixa e encontra outra lá dentro". Da mesma
forma, O Assassino Cego traz, dentro da saga familiar, uma história
policial escrita por uma das personagens. E, dentro dessa história,
um terceiro enredo, de ficção científica, que se
passa num planeta distante onde sacrifícios são feitos em
nome de antigos deuses e onde assassinatos cruéis são realizados
(aqui está ele finalmente) por um assassino cego. Trata-se, sim,
de um romance de estrutura complexa. Mas não há como se
perder nele. O Assassino Cego é perfeitamente claro e fluente.
O propósito de Margaret Atwood não é mistificar com
artifícios literários, mas levar o leitor a, quem sabe,
perder sua própria cegueira, mostrando-lhe verdades psicológicas
nem sempre agradáveis, nem sempre fáceis de encarar. Um
belíssimo livro.
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