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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Entre o bebê e a carreira

Pesquisa revela que mulheres se
sentem pressionadas a reduzir
a licença-maternidade

Maurício Oliveira


Claudia Jaguaribe

A gravidez e o trabalho: entre a letra da lei e a realidade


A presença da mulher na linha de frente das corporações tornou a opção pela maternidade uma escolha cada vez mais difícil, sobretudo para aquelas que disputam posição de comando. Enquete feita pela consultoria KPMG com quarenta altas executivas, das quais 25 têm filhos, revela que as mulheres estão se sentindo pressionadas a reduzir o tempo de licença-maternidade, estipulado por lei em quatro meses. Muitas passaram a antecipar espontaneamente a volta. Como o exemplo vem de cima, a tendência aos poucos vai se espalhando também pelos cargos médios das empresas. "Estão se tornando freqüentes os casos de funcionárias que se dispõem a retomar o trabalho antes da hora, mesmo que isso ocorra de forma extra-oficial para não afrontar a legislação", descreve Cristina Almeida, diretora da KPMG. Trata-se de um acordo com supostas vantagens para ambas as partes. A pesquisa demonstra, no entanto, que na maioria das vezes a mulher se submete à estratégia por receio de perder espaço na empresa ou de ficar desatualizada (veja o fichário abaixo).

Executivas compõem um bom exemplo porque vivem no meio do fogo cruzado: ao mesmo tempo que são ou pretendem ser mães, estão habituadas a fazer contratações para as empresas. Diante da obrigação de conciliar interesses, 65% afirmaram que o período de afastamento por licença-maternidade deveria ser reduzido para três ou até dois meses. Opiniões como essas estão na contramão das conquistas trabalhistas. O período de licença-maternidade foi ampliado de três para quatro meses em 1988, o que colocou o Brasil no grupo dos países que oferecem as melhores condições para a profissional gestante. Ironicamente, muita gente acha que tanta proteção mais atrapalha que ajuda, uma vez que as mulheres seriam freqüentemente prejudicadas na carreira pelo simples fato de estar em idade fértil. Na maioria dos países, o período de afastamento é menor e o salário é pago apenas parcialmente enquanto a funcionária não volta ao trabalho. Nos Estados Unidos, a profissional tem direito a uma licença de doze semanas, mas não recebe um tostão enquanto não retorna ao batente.

Uma alternativa que parece conciliar os interesses da profissional com os da empresa é antecipar a volta ao trabalho com um esquema especial de horários. Em troca, a mulher desfruta essas condições por um tempo superior a quatro meses. É o que está fazendo a presidente no Brasil da consultoria de recursos humanos Hewitt Associates, Andrea Huggard-Caine. Menos de um mês depois do parto de seu terceiro filho, Andrea já ia ao escritório uma vez por semana. O bebê está com 6 meses e a executiva consegue ficar em casa duas vezes por semana. Nos outros dias, ainda amamentando, leva o filho e a babá para o escritório, onde providenciou acomodações e brinquedos. "Pretendo continuar com esse esquema por mais dois meses", diz Andrea. "Foi sem dúvida a melhor solução para mim, para o bebê e para a empresa", assegura. Nem todas as profissionais podem fazer o mesmo. Para essas, resta a esperança de que a licença-maternidade de quatro meses não se transforme em uma daquelas leis revogadas pela vida real.

 
 
   
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