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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Outro folclore em torno do adultério é que ter um caso pode reacender o casamento. De fato, o que pode ocorrer é um dos parceiros (o traidor, óbvio) se sentir "reaceso". Dificilmente quem foi traído ficará animado com a notícia. É quase impossível um dos parceiros ser condescendente com a traição. Infidelidade é um dos poucos assuntos sobre o qual a civilização ocidental é tão intolerante. Porque envolve mentira, decepção, o rompimento de um pacto muito forte entre o casal. "Mexe com os sentimentos mais profundos das pessoas. A sensação é de que seu parceiro entrou em uma sala com alguém e você ficou do lado de fora sem poder entrar. Seu pacto foi rompido e foi estabelecido outro, no qual você está excluído. É muito duro", diz a psicoterapeuta paulista Lídia Aratangy. No entanto, é possível superar o trauma e, em muitos casos, até sair do problema com a relação fortalecida. "Na traição, o ideal de casamento desmorona. Aí, você passa a enxergar o marido e ele a mulher como na vida real. E não mais como um príncipe perfeito e uma princesa imaculada", completa. Na avaliação dos terapeutas, a melhor forma de tratar o assunto é tentar enxergar exatamente as razões da infidelidade. "Não adianta o infiel declarar-se culpado ou tentar convencer o parceiro de que não sabia onde estava com a cabeça", afirma a psicóloga Maria Helena Gherpelli, do Instituto Kaplan, de São Paulo. A atitude mais correta, segundo ela, é assumir que estava, de fato, em busca de satisfação fora do relacionamento e reconhecer que magoou o cônjuge. "O traído, por sua vez, aprenderá alguma coisa se entrar em contato com sua profunda ferida, com seu sentimento de indignação e se conseguir reavaliar o modo como escolhe suas parcerias amorosas."

Há também casos particulares, como o observado pela psicanalista gaúcha Lorena Valentim. "Tive um paciente que, depois de ser promovido na firma, passou a achar que na posição que ocupava era preciso ter uma amante. Pessoalmente, ele sofria, pois não queria trair a mulher", conta. Quando o marido da paulista Dilma Vianna, 48 anos, quis se separar, ela imaginou tudo, menos traição. "Ele era o melhor marido do mundo. Eu não colocava a mão no fogo por ele. Eu entrava na fogueira", afirma. Durante um ano, ela se martirizou esperando o marido voltar. "Até hoje não consigo entender o que o tirou de casa."

É muito comum entre pessoas traídas assumir a responsabilidade pelo fracasso da relação. Perguntar-se "onde eu errei?", "por que eu o pressionei tanto?" é uma válvula de escape para enxergar o problema. Na infidelidade, não existem culpados nem vítimas. Mas o empresário Paulo De Lauro, 52 anos, culpa-se até hoje pela traição da mulher. "Eu viajava muito, trabalhava demais, não lhe dei atenção suficiente", diz. Em 1997, descobriu que ela mantinha um caso com um homem também casado. Até então, De Lauro considerava seu casamento um modelo. "Fiquei um caco. Emagreci 10 quilos, achei que não ia suportar." Precisou recorrer a um grupo de ajuda para poder superar o fato. "Mesmo quem foi traído carrega um fardo enorme. A terapia é muito importante para dividir muito bem a responsabilidade de cada um na história", afirma a psicóloga Jacy Torres Lima, do Grupo de Orientação de Descasados, em São Paulo. É impossível dizer por que um dos parceiros trai. É outro aspecto a ser desmitificado: o de que o adultério só atinge casais em crise. Não é verdade. Há casos de relações muito bem-sucedidas nas quais um dos parceiros pulou a cerca. É impossível dizer se foi por atração sexual, por vontade de correr riscos ou por paixão. No fundo, não é nem porque o outro é mais bonito ou mais interessante. Mas é que sempre representa uma novidade.

 
Leo Feltran

"Depois de 25 anos casado, eu só tinha olhos para minha mulher. Eu era de dedicar músicas no rádio, comprar os melhores presentes, sempre fui um marido apaixonado. Mas trabalhava demais, e por isso acho que ela arrumou um amante. Até então, eu nunca a havia traído. No fim do casamento, resolvi ter uns casos só por vingança. Dava o telefone de casa para as mulheres ligarem para ver se ela ficava com ciúme. Mas estava absorta em seu novo relacionamento, com um homem também casado. Acho que a deixei escapar. Eu deveria ter feito mais, dado mais, ter sido mais presente. Quando vejo o que houve, sinto um misto de raiva e desprezo. Mas quase sempre ainda penso nela."
Paulo De Lauro, 52 anos,
empresário paulista

Evitar o adultério parece tarefa impossível. Ele acontece por razões diversas e em circunstâncias que não obedecem a regras. No entanto, virou um filão rentabilíssimo nos Estados Unidos. Os livros do psicoterapeuta Gary Neuman, figurinha fácil em programas populares de TV como o de Oprah Winfrey, vendem feito água, apesar de propor teses que mais se aproximam de um guia de auto-ajuda divertido. Um de seus principais conselhos é evitar contato com o sexo oposto a qualquer custo. "Se você já riu da piada com sua atraente colega e já fez a fofoca do dia com outra, não vai querer repetir a mesma coisa com sua mulher em casa", disse Neuman a VEJA. Entre as advertências, há conselhos inverossímeis, como "evitar encontrar pessoas do sexo oposto fora do ambiente do escritório", "evitar beijinhos, abraços e danças em festas de trabalho", "não beber quando houver sexo oposto por perto" e "nunca falar de sua vida pessoal". "O ser humano trai por natureza. Mas é possível domar essa natureza", garante.

 
Mitos da infidelidade

Futebol e traição são assuntos sobre os quais todo mundo adora dar palpite. E assim se constroem os mitos que se tornam argumentos indiscutíveis. Veja exemplos do que é real e do que é imaginário:

"Ter um caso pode reacender o casamento."
Não é verdade. Se o casamento já anda mal, pode ser o empurrão que falta para acabar de vez. A traição pode até reacender o ânimo de um dos parceiros (o traidor, óbvio), mas pode destruir o do outro.

"Trair é normal."
Não é. Muitas pessoas acreditam que, pelo fato de se estar vivendo mais, é melhor casar várias vezes. Contudo, o mais importante é ter uma relação que garanta felicidade, conforto e proteção. E um caso extraconjugal proporciona exatamente o contrário.

"Trair é da natureza humana."
Há muitos estudos que tentam provar a tese de que mamíferos, ovíparos e até insetos são infiéis por natureza. Mas não existe comprovação científica.

"Homens traem mais do que as mulheres."
É uma das únicas verdades absolutas no que diz respeito à infidelidade. Nos últimos tempos, no entanto, chama a atenção o porcentual de mulheres infiéis.

"Só casamentos em crise estão sujeitos ao adultério."
Não. Acontece também em relações muito bem-sucedidas. Como é impossível manter um relacionamento perfeito o tempo todo, os casos costumam ocorrer no que eles chamam de "entressafra".

"Eu tenho culpa por ter sido traído(a)."
Claro que não. O parceiro tem outros caminhos para resolver problemas no casamento. Mas é importante prestar atenção em seu comportamento e no da pessoa amada. Em que momento vocês permitiram que o casamento desandasse?

Fonte: Divorce Wizards

 

Os genes da traição

Nos últimos tempos, uma série de explicações biológicas tem aparecido para justificar a infidelidade. Para muitos, era o que faltava para ser incluído no rol das desculpas esfarrapadas. Um livro recém-lançado nos Estados Unidos defende a tese de que a traição, seja entre humanos, pássaros e até pulgas, é regra. Na natureza, a monogamia é rara. O Mito da Monogamia: Fidelidade e Infidelidade em Animais e Humanos, escrito pelo zoólogo e psicólogo David P. Barash e pela psiquiatra Judith Eve Lipton, gerou certo mal-estar na comunidade acadêmica por pregar que até mesmo os cisnes são infiéis. Os autores, casados, juram manter uma relação monogâmica, mas apresentam uma série de estudos comprovando não haver evidências "biológicas e antropológicas" de que a monogamia é algo natural entre os seres vivos. "Ao contrário, as evidências são de que todos tendem a ter uma multiplicidade de parceiros sexuais", escreveram. Para eles, na sociedade humana ou na animal, fêmeas e machos são biologicamente predispostos a trair seus parceiros. Por meio de exames de DNA, descobriram que mesmo certas espécies de aves – como os cisnes – traem. Ao examinar filhotes de pássaros de espécies consideradas modelo de monogamia, os cientistas constataram que até 30% da prole não era conectada geneticamente com o suposto pai.

Outra tese polêmica no meio acadêmico é a do médico Stephen Emlen, da Universidade Cornell. Em um inflamado artigo publicado na revista Science, uma das mais respeitadas do mundo, Emlen afirma que nove entre dez mamíferos são infiéis. "A verdadeira monogamia é muito rara", diz. Segundo ele, há dois tipos de monogamia: a genética e a social. No primeiro caso, a fidelidade é uma exceção. Segundo Emlen, apenas uma espécie de macaco é fiel. No caso da monogamia social, o casal está junto com um objetivo definido: criar os filhos. É uma decisão deliberada dos parceiros. Especialistas acreditam que a fidelidade se mantém graças ao mito de que espécies cujas proles foram criadas por pais casados vivem melhor. Seria uma justificativa da monogamia humana.

 

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