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Outro
folclore em torno do adultério é que ter um caso pode reacender
o casamento. De fato, o que pode ocorrer é um dos parceiros (o
traidor, óbvio) se sentir "reaceso". Dificilmente quem foi traído
ficará animado com a notícia. É quase impossível
um dos parceiros ser condescendente com a traição. Infidelidade
é um dos poucos assuntos sobre o qual a civilização
ocidental é tão intolerante. Porque envolve mentira, decepção,
o rompimento de um pacto muito forte entre o casal. "Mexe com os sentimentos
mais profundos das pessoas. A sensação é de que seu
parceiro entrou em uma sala com alguém e você ficou do lado
de fora sem poder entrar. Seu pacto foi rompido e foi estabelecido outro,
no qual você está excluído. É muito duro",
diz a psicoterapeuta paulista Lídia Aratangy. No entanto, é
possível superar o trauma e, em muitos casos, até sair do
problema com a relação fortalecida. "Na traição,
o ideal de casamento desmorona. Aí, você passa a enxergar
o marido e ele a mulher como na vida real. E não mais como um príncipe
perfeito e uma princesa imaculada", completa. Na avaliação
dos terapeutas, a melhor forma de tratar o assunto é tentar enxergar
exatamente as razões da infidelidade. "Não adianta o infiel
declarar-se culpado ou tentar convencer o parceiro de que não sabia
onde estava com a cabeça", afirma a psicóloga Maria Helena
Gherpelli, do Instituto Kaplan, de São Paulo. A atitude mais correta,
segundo ela, é assumir que estava, de fato, em busca de satisfação
fora do relacionamento e reconhecer que magoou o cônjuge. "O traído,
por sua vez, aprenderá alguma coisa se entrar em contato com sua
profunda ferida, com seu sentimento de indignação e se conseguir
reavaliar o modo como escolhe suas parcerias amorosas."
Há também casos particulares, como o observado pela psicanalista
gaúcha Lorena Valentim. "Tive um paciente que, depois de ser promovido
na firma, passou a achar que na posição que ocupava era
preciso ter uma amante. Pessoalmente, ele sofria, pois não queria
trair a mulher", conta. Quando o marido da paulista Dilma Vianna, 48 anos,
quis se separar, ela imaginou tudo, menos traição. "Ele
era o melhor marido do mundo. Eu não colocava a mão no fogo
por ele. Eu entrava na fogueira", afirma. Durante um ano, ela se martirizou
esperando o marido voltar. "Até hoje não consigo entender
o que o tirou de casa."
É
muito comum entre pessoas traídas assumir a responsabilidade pelo
fracasso da relação. Perguntar-se "onde eu errei?", "por
que eu o pressionei tanto?" é uma válvula de escape para
enxergar o problema. Na infidelidade, não existem culpados nem
vítimas. Mas o empresário Paulo De Lauro, 52 anos, culpa-se
até hoje pela traição da mulher. "Eu viajava muito,
trabalhava demais, não lhe dei atenção suficiente",
diz. Em 1997, descobriu que ela mantinha um caso com um homem também
casado. Até então, De Lauro considerava seu casamento um
modelo. "Fiquei um caco. Emagreci 10 quilos, achei que não ia suportar."
Precisou recorrer a um grupo de ajuda para poder superar o fato. "Mesmo
quem foi traído carrega um fardo enorme. A terapia é muito
importante para dividir muito bem a responsabilidade de cada um na história",
afirma a psicóloga Jacy Torres Lima, do Grupo de Orientação
de Descasados, em São Paulo. É impossível dizer por
que um dos parceiros trai. É outro aspecto a ser desmitificado:
o de que o adultério só atinge casais em crise. Não
é verdade. Há casos de relações muito bem-sucedidas
nas quais um dos parceiros pulou a cerca. É impossível dizer
se foi por atração sexual, por vontade de correr riscos
ou por paixão. No fundo, não é nem porque o outro
é mais bonito ou mais interessante. Mas é que sempre representa
uma novidade.
Leo Feltran
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"Depois
de 25 anos casado, eu só tinha olhos para minha mulher. Eu era de
dedicar músicas no rádio, comprar os melhores presentes, sempre
fui um marido apaixonado. Mas trabalhava demais, e por isso acho
que ela arrumou um amante. Até então, eu nunca a havia traído. No
fim do casamento, resolvi ter uns casos só por vingança. Dava o
telefone de casa para as mulheres ligarem para ver se ela ficava
com ciúme. Mas estava absorta em seu novo relacionamento, com um
homem também casado. Acho que a deixei escapar. Eu deveria ter feito
mais, dado mais, ter sido mais presente. Quando vejo o que houve,
sinto um misto de raiva e desprezo. Mas quase sempre ainda penso
nela."
Paulo De Lauro, 52 anos, empresário paulista
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Evitar
o adultério parece tarefa impossível. Ele acontece por razões
diversas e em circunstâncias que não obedecem a regras. No
entanto, virou um filão rentabilíssimo nos Estados Unidos.
Os livros do psicoterapeuta Gary Neuman, figurinha fácil em programas
populares de TV como o de Oprah Winfrey, vendem feito água, apesar
de propor teses que mais se aproximam de um guia de auto-ajuda divertido.
Um de seus principais conselhos é evitar contato com o sexo oposto
a qualquer custo. "Se você já riu da piada com sua atraente
colega e já fez a fofoca do dia com outra, não vai querer
repetir a mesma coisa com sua mulher em casa", disse Neuman a VEJA. Entre
as advertências, há conselhos inverossímeis, como
"evitar encontrar pessoas do sexo oposto fora do ambiente do escritório",
"evitar beijinhos, abraços e danças em festas de trabalho",
"não beber quando houver sexo oposto por perto" e "nunca falar
de sua vida pessoal". "O ser humano trai por natureza. Mas é possível
domar essa natureza", garante.
| Mitos
da infidelidade |
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Futebol
e traição são assuntos sobre os quais todo
mundo adora dar palpite. E assim se constroem os mitos que se tornam
argumentos indiscutíveis. Veja exemplos do que é real
e do que é imaginário:
"Ter um caso pode reacender o casamento."
Não é verdade. Se o casamento já anda
mal, pode ser o empurrão que falta para acabar de vez. A
traição pode até reacender o ânimo de
um dos parceiros (o traidor, óbvio), mas pode destruir o
do outro.
"Trair é normal."
Não é. Muitas pessoas acreditam que, pelo fato
de se estar vivendo mais, é melhor casar várias vezes.
Contudo, o mais importante é ter uma relação
que garanta felicidade, conforto e proteção. E um
caso extraconjugal proporciona exatamente o contrário.
"Trair é da natureza humana."
Há muitos estudos que tentam provar a tese de que mamíferos,
ovíparos e até insetos são infiéis por
natureza. Mas não existe comprovação científica.
"Homens traem mais do que as mulheres."
É uma das únicas verdades absolutas no que diz
respeito à infidelidade. Nos últimos tempos, no entanto,
chama a atenção o porcentual de mulheres infiéis.
"Só casamentos em crise estão sujeitos ao adultério."
Não. Acontece também em relações
muito bem-sucedidas. Como é impossível manter um relacionamento
perfeito o tempo todo, os casos costumam ocorrer no que eles chamam
de "entressafra".
"Eu tenho culpa por ter sido traído(a)."
Claro que não. O parceiro tem outros caminhos para resolver
problemas no casamento. Mas é importante prestar atenção
em seu comportamento e no da pessoa amada. Em que momento vocês
permitiram que o casamento desandasse?
Fonte:
Divorce Wizards
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| Os
genes da traição |
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Nos
últimos tempos, uma série de explicações
biológicas tem aparecido para justificar a infidelidade.
Para muitos, era o que faltava para ser incluído no rol das
desculpas esfarrapadas. Um livro recém-lançado nos
Estados Unidos defende a tese de que a traição, seja
entre humanos, pássaros e até pulgas, é regra.
Na natureza, a monogamia é rara. O Mito da Monogamia:
Fidelidade e Infidelidade em Animais e Humanos, escrito pelo
zoólogo e psicólogo David P. Barash e pela psiquiatra
Judith Eve Lipton, gerou certo mal-estar na comunidade acadêmica
por pregar que até mesmo os cisnes são infiéis.
Os autores, casados, juram manter uma relação monogâmica,
mas apresentam uma série de estudos comprovando não
haver evidências "biológicas e antropológicas"
de que a monogamia é algo natural entre os seres vivos. "Ao
contrário, as evidências são de que todos tendem
a ter uma multiplicidade de parceiros sexuais", escreveram. Para
eles, na sociedade humana ou na animal, fêmeas e machos são
biologicamente predispostos a trair seus parceiros. Por meio de
exames de DNA, descobriram que mesmo certas espécies de aves
como os cisnes traem. Ao examinar filhotes de pássaros
de espécies consideradas modelo de monogamia, os cientistas
constataram que até 30% da prole não era conectada
geneticamente com o suposto pai.
Outra
tese polêmica no meio acadêmico é a do médico
Stephen Emlen, da Universidade Cornell. Em um inflamado artigo publicado
na revista Science, uma das mais respeitadas do mundo, Emlen
afirma que nove entre dez mamíferos são infiéis.
"A verdadeira monogamia é muito rara", diz. Segundo ele,
há dois tipos de monogamia: a genética e a social.
No primeiro caso, a fidelidade é uma exceção.
Segundo Emlen, apenas uma espécie de macaco é fiel.
No caso da monogamia social, o casal está junto com um objetivo
definido: criar os filhos. É uma decisão deliberada
dos parceiros. Especialistas acreditam que a fidelidade se mantém
graças ao mito de que espécies cujas proles foram
criadas por pais casados vivem melhor. Seria uma justificativa da
monogamia humana.
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Veja também |
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