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Daniela
Pinheiro
A independência feminina promoveu mudanças em diversos aspectos da sociedade sobretudo no que diz respeito ao mercado de trabalho e à organização familiar. Isso se sabe há muito tempo. O que poucos imaginam é que o fenômeno atingiu também um improvável terreno: o da infidelidade conjugal, tanto masculina quanto feminina. Dos consultórios médicos e de terapeutas vem a notícia de que os homens estão traindo com culpa. E as mulheres, traindo como nunca. O fenômeno já é conhecido como "vingança da Amélia", em referência ao estereótipo da mulher submissa. O fato é que, para eles, a ressaca moral do adultério nunca foi tão pesada. Apesar de manterem casos extraconjugais, os homens estão ressabiados por medo de ser abandonados ou traídos por vingança por suas mulheres. Eles continuam traindo, mas a consciência pesa. Por isso, foram bater na porta dos especialistas. Boa parte dos homens chega estressada, arrependida e, em casos extremos, apresenta disfunções sexuais, como perda de libido e impotência. "A maioria dos que traem se remói de culpa, não dorme direito e gela quando o telefone toca", afirma o terapeuta Nelson Vitiello, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. Desde que os casamentos se tornaram mais simétricos, com maridos e mulheres dividindo contas e responsabilidades em pé de igualdade, o homem passou a ter uma sensação incômoda ao trair. A explicação é que, pela primeira vez, eles parecem ter se dado conta do que estão fazendo. "Os casais são mais cúmplices, construindo e provendo o lar em igual proporção. Ao trair, o homem sente destruir o vínculo de lealdade com alguém que divide tudo com ele", diz a psicanalista Magdalena Ramos, do Núcleo de Casal e Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E não é só isso. Para piorar o stress, somem-se a possibilidade de a mulher sair de casa e abandoná-lo se souber do caso o que era uma atitude improvável alguns anos atrás e a mudança na relação com os filhos. Diferentemente do passado, quando era natural ter a "casa civil" e a "casa militar", como era chamada em tom de blague a residência da amante, encarnar o machão conquistador perante os filhos hoje causa vergonha. "O drama é porque agora o homem que trai sente que faz algo errado. Antes, isso não era nem colocado em questão", afirma o psiquiatra Eduardo Ferreira dos Santos, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A culpa masculina é um fenômeno quase exclusivo de uma geração mais nova. Em geral, dizem os especialistas, os homens com mais de 50 anos, criados sob velhos preceitos, continuam a trair de cabeça fresca como se fazia desde que o mundo é mundo. Em comum, a nova e a antiga geração apresentam o fato de terem dado novos contornos ao caso extraconjugal. Nos últimos tempos, a figura da amante fixa praticamente desapareceu. O sexo casual é a forma mais usual de relacionamento por não estabelecer vínculos entre os parceiros. Estimativas empíricas dos médicos dão conta de que os casos, ao contrário do que ocorria no passado, duram em média de três a quatro meses. Na grande maioria dessas histórias, o romance acontece entre colegas de trabalho. "Costumam ser casos rápidos e sem envolvimento emocional maior. É sexo pelo sexo", diz a psicóloga Aparecida Favorêto, diretora do Instituto Paulista de Sexualidade. O vereador de Magé (RJ) Dejair Correa, do PSDB, afirma ter uma crise de consciência tremenda. Aos 40 anos, casado com sua ex-amante, ele admite também já tê-la traído algumas vezes. "Eu detestava chegar em casa e ter de inventar um monte de histórias bizarras para disfarçar minhas saídas. Cansei de estar com o casamento sempre por um fio." Historicamente, o fardo da traição sempre pesou mais do lado delas. Eram as mulheres que morriam de medo e culpa, martirizando-se ao pensar na família, no parceiro, no que o mundo iria falar se descobrisse sua pulada de cerca. Com a agravante de que, como dependiam financeiramente dos maridos, a infidelidade poderia significar morar no olho da rua. Ainda hoje, admitir uma traição é um tremendo tabu para as mulheres. "O que mudou é que agora elas pensam: 'Se ele pode, eu também posso'. Essa coragem, mais que uma permissão social, é uma questão de poder aquisitivo", explica Ailton Amélio da Silva, professor de relacionamento amoroso do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Ainda ganhando menos que os homens e, proporcionalmente, ocupando menos postos importantes na carreira, muitas mulheres derrubaram o estigma de depender do marido. Atualmente, cerca de 27% dos lares brasileiros são mantidos por mulheres. E, na maioria deles, as contas são divididas entre o casal. Sair de casa ficou viável. Conhecer novos parceiros também ficou mais fácil para as mulheres, expostas ao convívio com outros homens no ambiente de trabalho. Os terapeutas observam que não só elas estão contando mais sobre as traições como parecem estar dispostas a separar sexo de amor, uma atitude própria do sexo masculino. A antropóloga carioca Cynthia Dorneles, 42 anos, é defensora da tese de que as mulheres devem realizar seus desejos sexuais, mesmo que seja com outra pessoa que não o marido. Casada pela terceira vez, em uma relação que diz não ser "aberta", ela chegou a escrever o livro A Amante Ideal (Editora Record), no qual prega a liberdade sexual no casamento. "Nunca traí para me vingar. Mas também nunca deixei de trair por pena ou pudor", afirma. "Quando você nega o desejo, você cobra do outro. É muito pior", emenda. Tédio do casamento No último ano, duas importantes pesquisas sobre infidelidade foram produzidas no país. Ambas revelam que a maioria dos homens é infiel, mas divergem sobre o número de mulheres que traem. A antropóloga Miriam Goldenberg, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ouviu 1 300 pessoas, entre 20 e 50 anos. O resultado de seu levantamento mostra que 47% das mulheres e 60% dos homens são infiéis. Já a psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas de São Paulo, entrevistou 3 000 pessoas na mesma faixa etária e constatou que 67% dos homens e 23% das mulheres já traíram o parceiro. Mensurar dados sobre infidelidade é tarefa espinhosa. Não há como verificar se quem responde às pesquisas está mesmo dizendo a verdade. Também não há como garantir que a presença do entrevistador não influencia a resposta do entrevistado. Muitas vezes, o questionário é respondido na frente do parceiro. Quem admitiria na caradura ser infiel? Daí pode vir a divergência dos números sobre a infidelidade feminina. Por isso, alguns especialistas acreditam que os porcentuais sejam muito maiores. Especificamente no quesito "você já traiu?", as respostas devem ser vistas com cuidado. Mesmo nos EUA, as discrepâncias são alardeadas. Dependendo dos estudos, podem variar de 15% a 70% da população. No entanto, existem outros dados sobre os quais não há por que o entrevistado mentir. E é aí que os resultados são muito úteis. O questionário aplicado por Miriam Goldenberg tinha 37 perguntas, das quais oito diziam respeito à infidelidade. A pesquisa também mostra que:
Um dos porcentuais mais altos de respostas na pesquisa diz respeito à vontade dos entrevistados de ter um romance fora do casamento: cerca de 60% dos homens e 55% das mulheres. As razões pelas quais ambos evitam o adultério são curiosas. Elas não querem que o marido faça o mesmo. Eles não querem confusão. Desde os primeiros meses de casamento, a gaúcha Bernadete Alves, 42 anos, desconfiava dos casos do marido, com quem ficou casada por quinze anos. Ela chegou a receber telefonemas e cartas anônimas com fotos do marido em companhia de mulheres, mas nunca quis acreditar. Até o dia em que deu de cara com ele e a outra em uma festa. "Mantive a classe, não fiz escândalo, e o casamento acabou ali", diz. Passados seis anos, Bernadete ainda não se envolveu com outra pessoa. "Eu fiquei traumatizada com a traição." Trauma da infidelidade Por ser polêmica até a raiz, a infidelidade suscita uma série de mitos infundados. Um deles: o de que a maioria das traições destrói os casamentos. De acordo com a pesquisa de Miriam Goldenberg, cerca de 30% dos traídos terminaram a relação. O resultado revela que a maioria absoluta de homens e mulheres briga, chora, xinga, mas depois procura esquecer o que passou. O maior obstáculo é, sem dúvida, conseguir ultrapassar o choque inicial. Os empresários Valdemar e Marli Cunha, ambos de 46 anos, superaram o trauma da infidelidade. Dono de uma das maiores produtoras de eventos do país, Valdemar calcula ter traído a mulher com pelo menos trinta mulheres. A lista incluía desconhecidas e amigas íntimas de Marli. "Eu até me sentia culpado. Mas achava que era tão perfeito nas outras coisas que fechava os olhos", lembra. Há sete anos, depois de ter reforçado sua crença religiosa, resolveu contar tudo. Marli ouviu impassível. "Eu nunca tinha desconfiado de nada. Mesmo assim, não tive raiva. Vi que ele estava arrependido", diz ela. No mesmo dia, Valdemar passou seu telefone celular para a mulher. Era ela quem dispensava as amantes que insistiam em procurar o marido. "Aquilo foi uma catarse. Agradeço a Deus por ter me livrado desse passado", afirma ele.
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