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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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É melhor calar

"O rapper MV Bill acredita ter antepassado branco. FHC tem um pé na cozinha, ele tem um pé na sala de jantar. Apesar disso, ridiculariza o 'preto ignorante pensando que é moreninho'. Para ele, negro é negro"

Cidade de Deus é um complexo de favelas na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Cresceu em torno de um conjunto habitacional erguido em 1965, apelidado pelos moradores de AP. Além da AP, o complexo de favelas é composto pelas áreas Pantanal, 13, Ratolândia, Rocinha II, Mangueirinha e Karatê. Entrevistei o rapper MV Bill na frente de seu prédio, na praça central da AP. Os muros da praça são cobertos por citações bíblicas. Só de vez em quando se encontram grafites do Comando Vermelho, a organização criminosa que domina a favela. No meio da praça há uma boca-de-fumo. Enquanto eu entrevistava MV Bill, quatro jovens munidos de telefone celular, walkie-talkie e pit bull recebiam e despachavam abertamente sacos plásticos com maconha e cocaína. São os chamados passistas. No alto de um morro, via-se um garoto encarregado de soltar rojões em caso de blitz da polícia. No jargão do tráfico, essa função é conhecida como olheiro ou atividade, faturando de 250 a 300 reais por semana, segundo MV Bill.

Embora o CD Traficando Informação lhe tenha rendido dinheiro suficiente para se mudar da Cidade de Deus, MV Bill prefere continuar morando ali. Acha que tem uma missão a cumprir. Considera-se muito mais um ativista político-social do que um simples rapper. Em suas músicas tenta convencer os favelados a abandonar as armas, a parar de se drogar, a largar a cachaça, a evitar a gravidez precoce, a usar camisinha, a estudar. Algum tempo atrás, ele até estrelou uma campanha oficial contra a depredação de telefones públicos. Perguntei se os traficantes da favela não reclamavam de sua cruzada moralizadora. MV Bill disse que não. Perguntei o nome do chefe do tráfico da Cidade de Deus. Ele disse que não podia responder. Um dos melhores raps de MV Bill, Como Sobreviver na Favela, descreve leis e punições impostas pela criminalidade aos moradores do lugar: os estupradores perdem a mão e o pênis, quem comete três furtos fica marcado para morrer, quem se atreve a falar mal de um bandido é executado, numa demonstração de que em boca fechada "não entra mosca e também não entra bala". Perguntei o que ele achava dessa justiça sumária dos traficantes. Ele disse que não estava apto a julgar.

MV Bill acredita ter algum antepassado branco. Se Fernando Henrique Cardoso tem um pé na cozinha, então MV Bill tem um pé na sala de jantar. Apesar disso, em Pare de Babar ele ridiculariza a figura do "preto ignorante pensando que é moreninho". Para ele, negro é negro, independentemente de ter a pele mais clara ou escura. Por não se sentir representado pelos políticos brancos, MV Bill acaba de fundar, juntamente com outros líderes da comunidade, o PPPomar, que não é o pppartido dos fruticultores gagos, mas o Partido Popular pelo Poder da Maioria. O objetivo é assegurar moradia, emprego, saúde e educação aos negros. Perguntei como pretendem fazer isso. Sua resposta foi vaga. Perguntei em quem ele votará para presidente. Ele disse que não sabia. Perguntei se, em vez de fundar um partido, os moradores locais não deveriam reunir-se para expulsar os traficantes da favela. Ele mudou de assunto. Em seus raps, MV Bill fala sem parar, como uma metralhadora. Até tatuou um microfone no braço direito com a inscrição "Minha arma". Mas ele não é bobo e sabe que, diante de uma arma de verdade, às vezes é melhor se calar, porque em boca fechada não entra mosca nem bala.

 
 
   
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