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Edição 1 734 - 16 de janeiro de 2002
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Gustavo Franco

A vingança peronista

"Na Argentina, tudo se passa como
se os peronistas tivessem
planejado
perpetrar uma vingança
definitiva
contra
a racionalidade econômica"


A leitura mais vira-lata do que se passa na Argentina é a de que a culpa pela tragédia ora em andamento, e piorando, é do "dogmatismo ultraliberal" ou de seu cúmplice habitual, o suspeito de sempre, o indefectível FMI. Estariam inocentes os quatro séculos de corporativismo, incompetência, pilhagem e corrupção das elites patronais e laborais, coitados, vítimas indefesas desses ventos alienígenas que vêm de Washington. Ficam restaurados o sebastianismo peronista, as Malvinas argentinas e afastados os desígnios modernizantes desses tecnocratas engravatados e seus insuportáveis anglicismos.

A confusão é grande, havendo certa dificuldade em se formar um juízo sobre o que realmente está se passando.

Para começar, tenha-se claro que o problema mais visível é muito mais de aritmética do que ideológico. O drama poderia ter como título "a inconsistência entre as políticas cambial e fiscal", ou de como não pode haver déficit público significativo sob um regime de câmbio fixo. Nada que seja inteiramente desconhecido aqui entre nós e dos manuais de teoria econômica.

Inconsistências dessa variedade podem acometer indistintamente governos de direita ou de esquerda. Com efeito, se a Argentina fosse uma república socialista, teria um orçamento fiscal provavelmente furado e uma política cambial provavelmente de controles e de câmbio fixo, e teríamos os mesmos problemas de hoje. E com inúmeras agravantes, como demonstra outra tragédia da espécie, infinitamente maior, a da União Soviética.

A Argentina chegou aonde se encontra mercê de impasses provocados pela diligência dos que trabalharam ao longo de muitos anos para atrapalhar quaisquer mudanças que pudessem trazer modernização e competitividade a uma economia repleta de entraves e privilégios. Esses senhores, paradoxalmente, são exatamente os que estão no poder hoje, e prestes a protagonizar um desastre econômico ainda maior, talvez sem precedente neste continente.

O novo plano econômico tem sido descrito com uma benevolência que reflete um misto de genuína compaixão e profundo temor pelas conseqüências. O que foi anunciado constitui um verdadeiro kama-sutra em matéria de medidas heterodoxas já implementadas em algum momento, em algum país da América Latina, invariavelmente sem sucesso: seqüestro de depósitos, alongamentos compulsórios, moratórias de dívida pública, controles de preços, gerais e seletivos, perseguição à indústria farmacêutica, populismo com tarifas públicas quebrando as concessionárias (quem sabe para reestatizá-las), "fiscais" de preços oficiais e em milícias de "donas-de-casa", desordem fiscal, desagregação monetária, "direcionamentos" de aplicações, combinados a "descasamentos" entre ativos e passivos provocando o virtual colapso do sistema bancário (quem sabe para estatizá-lo), enfim, todo o bestialógico heterodoxo conhecido. Tudo se passa como se os peronistas tivessem planejado perpetrar uma vingança definitiva contra a racionalidade econômica.

Mas é muito provável que o desastre não seja imediato: medidas populistas sempre conseguem seus quinze minutos de sucesso. As autoridades argentinas, por outro lado, podem até estar certas em argumentar que não ocorrerá uma hiperinflação diante de tamanha repressão de liquidez. Talvez aí resida, todavia, a singularidade dessa situação: a tragédia poderá se expressar de forma diversa, como demonstra, por exemplo, a experiência da Rússia, onde, em meados dos anos 90, em decorrência da desagregação da moeda, algo entre metade e dois terços das vendas industriais, das receitas de serviços públicos e dos pagamentos de impostos era feito em mercadorias.

O pacotão acima descrito está produzindo um colapso no sistema de pagamentos, a proliferação do escambo e a inadimplência generalizada. Não há hiperinflação, é verdade; os gases venenosos estão por toda parte, mas não há oxigênio monetário para a combustão. Há um envenenamento, todavia, que pode ser ainda mais letal que a inflação. Tomara que prevaleça o bom senso e os caminhos sejam outros.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com - www.gfranco.com.br)


 
 
   
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