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Gustavo
Franco
A
vingança peronista
"Na
Argentina, tudo se passa como
se os peronistas tivessem planejado
perpetrar uma vingança definitiva
contra a
racionalidade econômica"
A leitura mais vira-lata do que se passa na Argentina é a de que
a culpa pela tragédia ora em andamento, e piorando, é do
"dogmatismo ultraliberal" ou de seu cúmplice habitual, o suspeito
de sempre, o indefectível FMI. Estariam inocentes os quatro séculos
de corporativismo, incompetência, pilhagem e corrupção
das elites patronais e laborais, coitados, vítimas indefesas desses
ventos alienígenas que vêm de Washington. Ficam restaurados
o sebastianismo peronista, as Malvinas argentinas e afastados os desígnios
modernizantes desses tecnocratas engravatados e seus insuportáveis
anglicismos.
A confusão é grande, havendo certa dificuldade em se formar
um juízo sobre o que realmente está se passando.
Para começar, tenha-se claro que o problema mais visível
é muito mais de aritmética do que ideológico. O drama
poderia ter como título "a inconsistência entre as políticas
cambial e fiscal", ou de como não pode haver déficit público
significativo sob um regime de câmbio fixo. Nada que seja inteiramente
desconhecido aqui entre nós e dos manuais de teoria econômica.
Inconsistências dessa variedade podem acometer indistintamente governos
de direita ou de esquerda. Com efeito, se a Argentina fosse uma república
socialista, teria um orçamento fiscal provavelmente furado e uma
política cambial provavelmente de controles e de câmbio fixo,
e teríamos os mesmos problemas de hoje. E com inúmeras agravantes,
como demonstra outra tragédia da espécie, infinitamente
maior, a da União Soviética.
A Argentina chegou aonde se encontra mercê de impasses provocados
pela diligência dos que trabalharam ao longo de muitos anos para
atrapalhar quaisquer mudanças que pudessem trazer modernização
e competitividade a uma economia repleta de entraves e privilégios.
Esses senhores, paradoxalmente, são exatamente os que estão
no poder hoje, e prestes a protagonizar um desastre econômico ainda
maior, talvez sem precedente neste continente.
O novo plano econômico tem sido descrito com uma benevolência
que reflete um misto de genuína compaixão e profundo temor
pelas conseqüências. O que foi anunciado constitui um verdadeiro
kama-sutra em matéria de medidas heterodoxas já implementadas
em algum momento, em algum país da América Latina, invariavelmente
sem sucesso: seqüestro de depósitos, alongamentos compulsórios,
moratórias de dívida pública, controles de preços,
gerais e seletivos, perseguição à indústria
farmacêutica, populismo com tarifas públicas quebrando as
concessionárias (quem sabe para reestatizá-las), "fiscais"
de preços oficiais e em milícias de "donas-de-casa", desordem
fiscal, desagregação monetária, "direcionamentos"
de aplicações, combinados a "descasamentos" entre ativos
e passivos provocando o virtual colapso do sistema bancário (quem
sabe para estatizá-lo), enfim, todo o bestialógico heterodoxo
conhecido. Tudo se passa como se os peronistas tivessem planejado perpetrar
uma vingança definitiva contra a racionalidade econômica.
Mas é muito provável que o desastre não seja imediato:
medidas populistas sempre conseguem seus quinze minutos de sucesso. As
autoridades argentinas, por outro lado, podem até estar certas
em argumentar que não ocorrerá uma hiperinflação
diante de tamanha repressão de liquidez. Talvez aí resida,
todavia, a singularidade dessa situação: a tragédia
poderá se expressar de forma diversa, como demonstra, por exemplo,
a experiência da Rússia, onde, em meados dos anos 90, em
decorrência da desagregação da moeda, algo entre metade
e dois terços das vendas industriais, das receitas de serviços
públicos e dos pagamentos de impostos era feito em mercadorias.
O pacotão acima descrito está produzindo um colapso no sistema
de pagamentos, a proliferação do escambo e a inadimplência
generalizada. Não há hiperinflação, é
verdade; os gases venenosos estão por toda parte, mas não
há oxigênio monetário para a combustão. Há
um envenenamento, todavia, que pode ser ainda mais letal que a inflação.
Tomara que prevaleça o bom senso e os caminhos sejam outros.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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