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Os
desafios do cristianismo
às portas do novo milênio
A doutrina de Cristo, que dominou
a vida
do Ocidente nos últimos 2 000 anos,
continua vigorosa e com capacidade
de adaptar-se ao mundo moderno
Maurício Cardoso
Ninguém
desconhece a história que se segue, crendo ou
não em sua origem sagrada. Um judeu das montanhas
da Galiléia com reputação de doutrinador e capacidade
de curar as pessoas aparece aos 33 anos em Jerusalém,
durante a Páscoa judaica. Em três dias, desenrola-se
em torno dele o drama de solidão, humilhação e
morte que acompanha a humanidade há vinte séculos.
Ele é preso, julgado, condenado por traição e
executado na cruz ao lado de criminosos comuns.
Nenhum historiador registrou inequivocamente sua
passagem pelo mundo dos homens. Mas 2.000
anos depois que os eventos acima ocorreram, segundo
os quatro evangelistas, Jesus é o personagem dominante
da vida ocidental. Mesmo entre as pessoas que
não fazem parte do rebanho atual de mais de 2
bilhões de seguidores do cristianismo, ele é um
símbolo poderoso.
A moral e os costumes, a arte e a ciência,
a política e até a economia, toda a bagagem
cultural com que a humanidade entrará no próximo
milênio foi tocada e, freqüentemente, moldada
pelo cristianismo. Nenhum poeta ou o mais genial
dos escritores conseguiu criar um personagem
tão influente como esse aprendiz de carpinteiro
que dizia a seus seguidores, sem rodeios, ser
o filho de Deus: "Eu e meu Pai somos um".
Até os séculos passaram a ser medidos a partir
do nascimento de Jesus. O cristianismo triunfou
de geração em geração, enfrentando e vencendo
desafios com uma força que para os fiéis só
pode ser de inspiração divina. Como registra
o Velho Testamento: "Até aqui nos ajudou
o Senhor". Mas como será daqui para a frente?
Como o cristianismo enfrentará os desafios que
se apresentam agora, no alvorecer do terceiro
milênio? Como serão a face e a voz de Jesus
Cristo num mundo em furiosa transformação tecnológica
e de costumes? Firmemente assentados na história
vitoriosa da religião cristã, os estudiosos
não se abalam com o gigantismo dos obstáculos
que enxergam pela frente. "Podemos mandar
câmaras fotografar os anéis de Saturno e as
luas de Júpiter, mas elas nunca vão revelar
a verdadeira face de Deus nem enviar uma imagem
do paraíso", diz o sociólogo americano
Rodney Stark, da Universidade de Washington,
autor de The Future of Religion (O Futuro
da Religião). "A religião em sua forma
mais pura sempre estará fora do alcance das
especulações racionais."
O
que impressiona na trajetória histórica dos
seguidores de Cristo é o fato de que a religião
podia muito bem ter-se estatelado. Nos primórdios
do primeiro milênio, o cristianismo sofreu bastante
até deixar a condição de seita judaica dissidente
e se tornar a religião oficial do Império Romano.
Na aurora do segundo milênio, imersos nas trevas
da Idade Média, os cristãos mandaram seus guerreiros
às cruzadas com a missão de combater em nome
de Cristo os infiéis muçulmanos, na época detentores
de uma civilização refinada com conhecimentos
de astronomia, matemática e filosofia. Entendiam
também de coisas mais prosaicas mas muito úteis
naquele tempo, como a fabricação de aço mais
resistente para as espadas da guerra santa.
Mais tarde o cristianismo escaparia da armadilha
cruel da Inquisição e da incômoda condição de
fiador de monarquias sanguinárias e corruptas
baseadas no direito divino dos reis. O ramo
mais vigoroso do cristianismo, o católico, pode
reivindicar como milagre o fato de ter sobrevivido
a um grupo de papas dissolutos, assassinos e
gananciosos que reinaram há cerca de 500 anos.
Eles faziam guerra, elegiam os filhos bispos,
tinham amantes, vendiam promessas de salvação
eterna a ricaços que se dispunham a pagar por
essa garantia. Basta examinar a ficha de um
deles para ter boa idéia do conjunto. Alexandre
VI (1492-1503), o papa Bórgia, foi eleito para
o trono de Roma por um conclave corrupto, teve
quatro filhos ilegítimos, promoveu orgias no
Vaticano. Foi acusado pelos contemporâneos de
assassinatos e complôs. "O cristianismo
em geral e a Igreja Católica, em particular,
resistiram a impactos tão brutais que acho justificável
seus seguidores acreditarem na natureza divina
de seus alicerces", diz Werner Kelber,
pesquisador do Novo Testamento, que se define
como incrédulo.
Montagem de Carlos Neri
sobre foto de Valdemir Cunha
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O
Cristianismo cresceu e se espalhou
no mundo empurrado pela força
poderosa de sua mensagem.
O mandamento de amar ao próximo
foi uma verdadeira revolução
em sua época
(Doni
Tondo, de Michelangelo,
sobre a catedral de Brasília)
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Quais são os desafios do cristianismo às portas
do novo milênio? VEJA ouviu uma dezena de teólogos
e estudiosos da religião e leu seis livros recentes
que tratam da questão em busca de uma resposta
satisfatória. O resultado da investigação é
uma lista fascinante de indagações.
Jesus
histórico Não se fala aqui
do Jesus dos altares. Tampouco daquele que cada
um traz no peito quando comunga da fé dos cristãos.
O Jesus histórico é o personagem que nasceu,
viveu e morreu na Palestina, em carne e osso,
num período histórico determinado, numa época
em que reinava o imperador romano Augusto. Este
personagem está sob intensíssima investigação.
Um grupo de pesquisadores americanos reunidos
sob o rótulo de Seminário de Jesus irrompeu
recentemente na cena dos estudos religiosos
sustentando que o trabalho dos quatro evangelistas,
Mateus, Marcos, Lucas e João, não tem valor
como prova material da existência de Cristo.
O quarteto escreveu suas versões entre quarenta
e 100 anos depois da morte de Jesus, e são as
fontes mais próximas do mestre da Galiléia.
Segundo os integrantes do Seminário de Jesus,
os evangelistas enxergariam seu retratado como
um profeta do Velho Testamento e não como o
fundador de uma nova religião revolucionária.
"Com a evolução dos mecanismos científicos
de estudo das relíquias e provas históricas
o mais certo é que, a cada ano, se vai provar
que muito pouco da narração do Novo Testamento
é confiável", diz o canadense John Dominic
Crossan, um dos mais ativos pesquisadores do
grupo. "Não podemos ter certeza de nada
que Jesus realmente disse porque não existem
testemunhos irrefutáves daquela época",
argumenta Stephen Mitchel, autor de um documentário
de televisão famoso, O Evangelho Segundo
Jesus.
Os estudiosos do Seminário de Jesus são contraditados
por uma corrente mais tradicionalista, para
a qual o fato de não brotarem evidências arqueológicas
da passagem de Cristo pela Palestina só prova
uma coisa: que é muito difícil reconstruir a
história arcaica da humanidade, especialmente
quando se buscam sinais de indivíduos particulares,
mesmo que eles tenham tido uma existência extraordinária.
Outra corrente se acha satisfeita com as provas
já existentes. Fora da Bíblia, é encontrada
apenas uma referência à passagem de um certo
Jesus pela Palestina. Flávio Josefo, historiador
judeu de cidadania romana, em seu livro Antigüidades
dos Judeus, escrito no ano de 94, fala de
um certo "Jesus, um homem sábio, que fazia
coisas extraordinárias e pregava para o povo".
Outro autor romano, Plínio, o Jovem, do fim
do século I, descreve um grupo de fiéis rezando
e cantando hinos a "Cristo, como se fosse
um deus".
Secularização
Em bom português significa
simplesmente que as pessoas tendem, pela própria
dinâmica da vida moderna, a fazer ouvidos de
mercador para os ensinamentos das igrejas. A
indiferença de quem ouve é o pavor de todos
os doutrinadores. As pessoas querem ser bons
católicos ou evangélicos sem ter de seguir à
risca cada um dos ditames dos sacerdotes e pastores.
É possível ser um bom cristão e fazer sexo antes
do casamento ou usar métodos anticoncepcionais
artificiais como a pílula? Pesquisa do Seminário
de Jesus com católicos americanos chegou a um
número avassalador: 83% das pessoas acham que
não cabe aos religiosos dar opiniões incontrastáveis
sobre tais questões do foro íntimo de cada um.
Pesquisas semelhantes feitas no Brasil, na Itália
e em outros países de forte tradição católica
apontam a mesma tendência, mesmo que os números
sejam menos contundentes.
Modernidade
No
passado, a Igreja Católica afastou as mulheres
do sacerdócio e proibiu os padres de se casarem.
Atualmente, isso começa a parecer para muitos
devotos um dogma que engessa a fé em regulamentos
ultrapassados.
Ecumenismo
É extremamente complexo o desafio
de manter a unidade da doutrina cristã ao mesmo
tempo que se fazem aberturas na direção de outras
crenças. Como admitir a existência de outros
credos sem perder a fé na hegemonia dos princípios
cristãos? Católicos e protestantes, que deveriam
ser os mais próximos, ainda não resolveram suas
divergências essenciais. Excomungado pelo papa
Leão X em 1521, o monge alemão Martinho Lutero
foi o pai da Reforma Protestante. Lutero rebelou-se
contra a venda de indulgências, uma fonte poderosa
de divisas para o papado. Foi com dinheiro arrecadado
com a venda de indulgências que a Basílica de
São Pedro foi construída. Apesar dos vários
acenos de boa vontade, essa questão central
não foi debatida a sério nos encontros ecumênicos
de alto coturno da hierarquia religiosa de ambos
os lados. Católicos e judeus, separados no berço
de suas civilizações, ainda têm um longo caminho
a percorrer para estabelecer bases mínimas de
convivência.
A
ameaça do islã
O islamismo é a religião que mais cresce no
mundo. Embora seja marcadamente étnico, identificado
com os árabes, o islamismo tem alcançado pelas
migrações uma penetração crescente na Europa,
o mais tradicional reduto cristão. "O islamismo
já é a segunda religião mais numerosa na Alemanha,
na França e na Itália", diz o padre e historiador
da Igreja, José Oscar Beozzo. O embate com o
islã traz embutida uma contradição incontornável.
O cristianismo vive hoje num ambiente da mais
ampla liberdade religiosa, o que permite, por
exemplo, que o islã construa uma de suas maiores
mesquitas em plena Roma dos santos e dos papas.
Mas os cristãos têm de disputar espaço com o
islamismo que exclui, a vertente fundamentalista
da religião criada por Maomé no século VII da
era cristã. O fundamentalismo islâmico não só
é contra a liberdade de fé como é a favor da
teocracia, do Estado religioso. A construção
de qualquer templo que não seja uma mesquita
é rigorosamente proibida nos países islâmicos.
O islamismo não se contrapõe apenas ao cristianismo.
"Com o fim do comunismo, é hoje o único
foco de resistência ao pensamento de livre mercado
ocidental. Ao se fechar dentro da prática religiosa,
procura impedir a destruição de sua identidade
religiosa e nacional", diz o filósofo Mario
Sergio Cortella, professor da Pontifícia Universidade
Católica, PUC, de São Paulo. "Com os dólares
do petróleo e as armas que herdaram da Guerra
Fria, eles se tornaram fortes o bastante para
enfrentar o pensamento dominante da civilização
cristã ocidental."
Os
pecados do cristianismo
O papa João Paulo II tem se empenhado
como nenhum outro antecessor para tirar dos
ombros da Igreja os pecados acumulados nos tempos
duros da afirmação da fé cristã. "Os cristãos
não podem dar as boas-vindas ao Terceiro Milênio
sem se arrepender de seus pecados históricos",
disse o papa. O chefe da Igreja tem feito isso
com estilo e graça. Ele desculpou-se em nome
da Igreja pela condenação de Galileu Galilei,
o sábio punido pela Inquisição por sustentar
que a Terra não era o centro do universo. João
Paulo II delimitou onde começa a fé e termina
a ciência. "A missão da Igreja não é ensinar
como o céu foi feito, mas mostrar o caminho
até lá", disse o papa. Desculpou-se também
pelo fato de a Igreja ter sido avalista ideológica
das atrocidades cometidas pelos conquistadores
europeus na América portuguesa e espanhola há
500 anos.
Todas as desnorteantes questões acima têm sido
respondidas pela hierarquia das igrejas cristãs.
Os protestantes armaram a mais fenomenal defesa
em torno da idéia de que é uma imensa perda
de tempo procurar evidências científicas da
passagem de Jesus pela Palestina. O mais ardoroso
defensor da tese de que a sacralidade da fé
se basta é o historiador americano Luke Timothy
Johnson, da Universidade Emory. Num livro inflamado,
escrito numa linguagem acessível, Johnson argumenta
que os caçadores da arca perdida do cristianismo
acabam eles próprios atacando verdades firmadas
no decorrer de séculos de adoração cristã. "Eles
estão distorcendo questões de fundamental importância
para sustentar seus pontos de vista materialistas",
diz Johnson. O papa João Paulo II deu uma contribuição
decisiva à questão em 1989. Nessa época, testes
científicos haviam sido feitos no Santo Sudário,
o manto que teria servido de mortalha para o
corpo de Jesus. Esses testes desqualificaram
a relíquia como uma tela produzida na Idade
Média. Diante dessas revelações, depois colocadas
em dúvida por testes subseqüentes, o papa não
vacilou. "Acredito que o Santo Sudário
é genuíno", disse ele. Johnson também mantém
o respeito pela relíquia. "Quando uma questão
é elevada a um mistério da fé não basta uma
medição de carbono 14 para derrubá-la de sua
glória", diz o historiador. Testes mais
recentes reabilitaram a relíquia. Ela conteria
partículas de pólen de flores que só existem
na região onde se acredita que Jesus tenha morrido.
A maioria dos teólogos vê na história do cristianismo
um permanente movimento de pêndulo entre o que
eles chamam de carisma e de poder. Ou entre
a modernidade e o dogma. Teria sido sempre assim
na história do cristianismo, de modo que as
atuais contestações sobre o celibato ou a ordenação
de mulheres seriam apenas temáticas novas de
questões que se repetem ciclicamente. Quando
nascem, as igrejas são tomadas pelo fervor religioso,
pelo encantamento dos devotos com a revelação
divina, com a liturgia e com a doutrina. Essa
força espontânea tem seus espasmos na História
ela vai e volta. Ela brota da necessidade
humana de desfrutar a possibilidade do sobrenatural.
Chega então outro momento pendular em que, além
da espontaneidade e da fé, o movimento precisa
criar ou firmar estruturas e burocracias para
sobreviver. "A história do cristianismo
reflete de maneira clara este movimento pendular",
explica Décio Passos, professor de ciência da
religião da PUC de São Paulo. Para alguns teólogos,
portanto, não há razão para preocupações. Por
esse prisma, o cristianismo estaria recuperando
neste fim de milênio parte do frescor de seus
primeiros dias, numa nova volta do pêndulo que
estaria levando os fiéis de novo às missas e
aos cultos, como de fato acontece.
No seu início, o cristianismo era uma seita
do meio rural judaico que congregava uma pequena
comunidade reunida em torno dos ensinamentos
de Jesus. Seus adeptos estavam ali mais para
ajudar uns aos outros do que em busca da salvação
eterna. O cristianismo cresceu e se espalhou
no mundo empurrado pela força poderosa de sua
mensagem. O mandamento de amar ao próximo como
a si mesmo foi uma novidade completa para a
época. A capacidade de servir ao outro foi a
mola propulsora que transformou a seita de dissidentes
judeus em religião oficial do Império Romano
no curto espaço de 300 anos. O americano Rodney
Stark apegou-se a esse detalhe para explicar
o fenômeno do crescimento vertiginoso do cristianismo,
que passou de 1.000
devotos no ano 40 para mais de 30 milhões três
séculos depois. De acordo com Stark, uma epidemia,
provavelmente de varíola, que matou um terço
da população do Império Romano por volta do
ano 165, foi a tábua de salvação do cristianismo.
Entregues à própria sorte diante da calamidade,
sem poder contar com o Estado que não se ocupava
dessas coisas, os romanos pagãos ficaram maravilhados
com a atitude dos cristãos que se encarregaram
de cuidar das vítimas sem espera de recompensa.
"A nova fé deu melhores explicações à sociedade,
os valores de amor e caridade serviram melhor
na atenção aos desvalidos", escreveu Stark
num outro livro, The Rise of Christianity
(O Crescimento da Cristandade). Foi a revolucionária
atitude de solidariedade do cristianismo primitivo
que lhe arrebanhou seguidores.
O
pêndulo da religião moderna inclina-se hoje
para seu lado carismático, para uma Igreja mais
preocupada em louvar a Deus e servir ao próximo
do que em promover a revolução, influenciar
governos, mandar nos destinos terrenos das pessoas.
Como sempre aconteceu, a Igreja se dispõe a
desempenhar sua missão recorrendo aos recursos
fornecidos pela época e ambiente peculiares.
Assim como nas origens adotou em sua
liturgia elementos do teatro para fazer sua
mensagem mais compreensível aos fiéis iletrados
, atualmente ela lança mão dos meios que
a tecnologia moderna lhe oferece. "Vivemos
na era da informação e as religiões que, como
o cristianismo, se estabeleceram por meio do
uso da palavra hoje têm de se integrar à cultura
da imagem, da televisão e dos megaeventos",
diz José Oscar Beozzo.
A época moderna, mesmo criando desafios, parece
propícia ao cristianismo, que está numa fase
oposta ao marasmo de anos atrás, quando as igrejas
se apoiavam mais nas formalidades do ritual
do que no coração dos fiéis. "A religião
institucionalizada, estruturada para conservar
sua tradição e seu modo de vida, acaba perdendo
a força", observa o padre Alberto Antoniazzi,
coordenador do curso de teologia da arquidiocese
de Belo Horizonte. O desafio da religião de
Jesus no mundo frenético no fundo seria da mesma
natureza daqueles que ela circunavegou no passado:
adaptar-se sem perder a essência. Para quem
já enfrentou dilemas abissais em outros períodos
históricos, não parece uma tarefa muito difícil.
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