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Sabe com
quem está falando?
Superdicionário
revela as origens
e as interligações
dos principais
sobrenomes brasileiros
Ronaldo França
Selmy
Yassuda
Não
é de hoje que o homem é curioso
sobre suas origens. O interesse, essencialmente
filosófico, tem sua contrapartida prática
na busca da identificação dos antepassados.
Quem não quer saber quem foi o avô
do avô do avô, que deu início
à sua linhagem sempre na recôndita
esperança de, pelo caminho, topar com algum
rei, herói ou artista renomado? Estudo
avançado em países de história
milenar, como a Inglaterra, a genealogia vem conquistando
terreno cada vez maior no Brasil. O interesse
pelo assunto ganhou fôlego com a multiplicação
de sites na internet e programas de computador
que ensinam o bê-á-bá ao iniciante
nesse tipo de pesquisa. A partir desta semana,
os brasileiros contam com outro importante aliado:
o Dicionário
das Famílias Brasileiras,
do pesquisador Carlos Eduardo Barata e do deputado
federal monarquista Cunha Bueno (380 reais, 2.385
páginas). Trata-se da obra mais completa
sobre o tema já publicada no país,
com 17.200
verbetes, cerca de 50.000
famílias registradas e muitas surpresas.
A
edição, luxuosa, consta de uma caixa
com dois livros e um CD-ROM que, além de
facilitar a consulta, oferece informações
adicionais e 1.900
imagens, entre brasões, fotos e autógrafos.
Mas a maior preciosidade está nos verbetes,
que detalham a origem das famílias, a etimologia
dos sobrenomes e dados sobre os diversos ramos
e linhagens resultado de um trabalho de
25 anos do pesquisador Barata e de trinta anos
de dedicação ao tema por parte de
Cunha Bueno, um genealogista amador mas apaixonado
pelo assunto. "É uma obra aberta", avisa
Cunha Bueno, que pôs no CD-ROM espaço
para que o leitor escreva sua genealogia e a envie
pela internet. "Vamos incluir na segunda edição
todas as que nos mandarem."
Ricardo Stuckert
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Os
Cardoso
O presidente Fernando
Henrique Cardoso
é filho de uma linhagem de políticos
e militares. No verbete de sua família
no dicionário, os Espírito
Santo Cardoso, não há pista
do tal "pé na cozinha" que ele diz
possuir. Quem adotou o sobrenome foi seu
bisavô, o brigadeiro Felicíssimo
Espírito Santo Cardoso, que descende
de Manuel Pereira Cardoso e foi comendador
e vice-presidente da província de
Goiás (como se vê, instalado
no Planalto Central bem antes de FHC).
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Magalhães imigrante O
dicionário revela ligações
inesperadas e corrige alguns enganos, como mostram
os resumos ao lado, que foram compostos a partir
dos verbetes e em conversas com o pesquisador
Barata. Não confirma, por exemplo, o tal
"pé na cozinha" alardeado pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso, querendo dizer que
tem algum antepassado negro. Mas revela que os
presidentes Hermes da Fonseca e Deodoro da Fonseca
eram descendentes dos índios arcoverdes,
e Prudente de Moraes, dos tibiriçás
e piquerobis. Também mostra que a rechonchuda
contumaz Nana Caymmi é parenta da escultural
Scheila Carvalho, do grupo É o Tchan, por
parte da família da mulher de Dorival Caymmi,
Stella. Ambas podem orgulhar-se de ser contraparentas
distantes de Carlos Drummond de Andrade.
Tem
mais. Podem-se considerar primos figuras tão
díspares quanto o compositor Chico Buarque
de Holanda, o general da reserva Nilton Cerqueira,
que matou o guerrilheiro Carlos Lamarca, e, vejam
só, o tesoureiro da campanha do ex- presidente
Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias.
Em comum, todos eles têm a monumental família
Cavalcanti, a maior do Brasil, que se fixou em
Pernambuco por volta de 1535. Só o ramo
principal possui cerca de 300 membros, que os
casamentos e descendências multiplicaram
e alastraram pelo país. Embrulhados nesse
imenso emaranhado, são primos entre si
todos os Cavalcanti, os Holanda Cavalcanti, os
Lacerda Cavalcanti, os Albuquerque, os Albuquerque
Maranhão, os Suassuna e os Buarque de Holanda.
Também vem do Nordeste a origem familiar
do muito paulistano empresário Antonio
Ermírio de Moraes, dono da Votorantim:
os Moraes que deram início ao clã
são uma família pernambucana, emigrada
de Portugal. Já o baianíssimo presidente
do Senado, Antonio Carlos Magalhães, tem
relativo pouco tempo de Brasil sua família,
cujo patriarca foi Francisco Peixoto de Magalhães,
emigrou de Portugal para Salvador no século
XIX.
Oscar Cabral
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| Os
Loyola
Como convém a uma ricaça emergente,
o sobrenome de Vera
Loyola
começou
com ela. Batizada Vera Lúcia Santiago
Barros (família originária da
Argentina), era sempre citada como "a filha
do seu Ignácio de Loyola", o nome de
batismo do pai. Gostou, adaptou e aplicou
aos filhos. Agora, pede autorização
na Justiça para acrescentar "ou Vera
Loyola" no RG. Vera garante que descende de
Pero Vaz de Caminha, por parte da avó,
Rosa Caminha Santiago. O dicionário
não confirma. |
Brasões e sobrenomes
"O
traço mais marcante da genealogia brasileira
é a consanguinidade", ensina Barata. "É
possível dizer que quase todos os brasileiros
são contraparentes." Sob essa lógica,
nada impede embora o dicionário
não faça tal ligação
que a rainha das emergentes da Barra da
Tijuca, Vera Loyola, seja em algum ponto parenta
da tradicionalíssima socialite Carmen Mayrink
Veiga. "Se se voltar trinta ou quarenta gerações
numa família, é provável
que se encontre esse tipo de coincidência",
afirma Cunha Bueno. Ainda mais porque sobrenome
ajuda, mas não é certeza, na identificação
de ancestrais. Muitas famílias Silva, por
exemplo, não têm nenhum laço
de parentesco. Grande número de escravos
simplesmente adotou o nome de seus senhores. Era
comum no passado que a região desse identidade
a seus moradores (como os Costa, que teriam vindo
de localidades costeiras). Também era rotineiro
no Brasil imperial que as famílias adotassem
nomes de santos, como Assis, Conceição,
Aquino e, claro, Loyola. A própria Vera
"inventou" seu sobrenome famoso. Nascida Vera
Lúcia Santiago Barros, está justamente
encaminhando um pedido para que a seu nome no
RG seja acrescentado "ou Vera Loyola", incorporando
de vez o que era originalmente parte do nome (não
sobrenome) de seu pai, Ignácio de Loyola.
"Fiz um estudo e descobri que é um nome
forte, melodioso e que dá sorte", garante
Vera.
Ana Araujo
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| ACM: seu ramo dos Magalhães veio
de Portugal no século XIX |
Outro mito que as pesquisas genealógicas
já haviam derrubado e que o dicionário
enterra com provas é o de que todas as
pessoas com sobrenome relacionado a animais ou
árvores, como Oliveira e Pereira, são
necessariamente descendentes de cristãos-novos,
como eram chamados os judeus forçados a
se converter ao catolicismo. Alguns desses sobrenomes
existiam no século XII, muito antes de
a Igreja obrigar os judeus à conversão,
no final do século XV. Outro equívoco
é achar que os brasões vendidos
em balcões de shopping centers e aeroportos
identificam as famílias dos compradores.
Eles têm relação com o sobrenome,
sim uma ligação fácil
de fazer, pois são abundantes os registros
confirmados desta distinção feita
por senhores e reis a seus cavaleiros, sobretudo
na Europa feudal. Mas vai saber a qual das diversas
linhagens de Carvalho, por exemplo, aquela figurinha
com um cisne em cima (veja
quadro)
está relacionada.
Paulo Jares
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Ana Paula Paiva
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| Os
Lacerda
A família do ator Thiago
Lacerda
é procedente da cidade mineira de Recreio
e remonta ao século XVIII. Não
tem nada a ver com a Itália
muito provavelmente, o sobrenome está
ligado a São Luís, o rei francês
do tempo das Cruzadas que veio a ser canonizado.
Lacerda tem laços familiares com o
ex-presidente Tancredo Neves e com o cardeal
dom Lucas Moreira Neves, e todos os três
são prováveis descendentes comuns
do bandeirante Fernão Dias Paes. |
Os
Buarque de Holanda
O sobrenome do compositor Chico
Buarque de Holanda
tem origem nos Cavalcanti, de Pernambuco,
de que descendem os Holanda Cavalcanti. Por
causa dessa ligação, Chico Buarque,
mais conhecido pela excelência dos intelectuais
de sua família, tem primos inesperados.
É parente, por consangüinidade,
de PC (Cavalcanti) Farias e do general Nilton
Cerqueira, que matou o guerrilheiro Carlos
Lamarca. Menos mal que seja parente longe
do jurista Evandro Lins e Silva e do escritor
Ariano Suassuna. |
Parentes
supervalorizados Na
busca da história dos antepassados, uma
legião de curiosos em todo o mundo anda
percorrendo a internet, parando em sites como
o www.familysearch.com.
Este é o endereço eletrônico
onde a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos
Dias, dos mórmons (que têm entre
seus princípios conhecer todos os parentescos
passados de seus membros), pôs no ar, em
maio, 400 milhões de registros de casamento,
nascimento e óbito. Ampliando o tempo todo
os seus dados, é hoje o principal site
de consultas sobre genealogia. Apesar dessas modernidades,
encontrar os sinais do passado continua sendo
uma prova de persistência (veja
quadro acima).
O interessado tem de peregrinar por repartições
públicas, esmiuçar documentos empoeirados
e caçar dados há muito perdidos
ou esquecidos. O maior desafio, segundo os genealogistas,
é não se deixar enganar por excessos
de vaidade. "As pessoas têm a tendência
de supervalorizar seus antepassados", explica
Carlos Barata. "Se um parente lutou na retaguarda
de uma batalha, no relato do descendente ele aparece
na primeira fileira. Isso acaba traindo o genealogista
amador", ensina.
Cida Souza
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Claudio Rossi
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Os
Fischer
O verbete Fischer registra apenas quatro
famílias no Brasil, entre elas a
de Blumenau, à qual pertence Vera
Fischer.
Todas têm origem germânica e
chegaram ao Brasil neste século.
Os outros três ramos de Fischer se
instalaram no Rio de Janeiro e no Paraná.
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Os
Marinho
O nome do presidente das Organizações
Globo, Roberto
Marinho,
nasceu de uma lenda: um certo dom Froyam,
fidalgo espanhol, teve filhos com uma "mulher
marinha". O certo é que o Marinho mais
conhecido do Brasil provém da família
Coelho de Barros, radicada no Rio de Janeiro.
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Os
reis da lista telefônica
Como
bem sabem os Silva (68 verbetes no dicionário,
sem contar suas variantes), nem todas
as pessoas que têm o mesmo sobrenome
provêm da mesma família.
Muitos nomes indicam uma região
ou situação geográfica.
Outros são nomes de santos católicos
que, com o passar de gerações,
viraram sobrenomes. Até os brasões
são variados (abaixo são
mostrados os mais antigos).
SILVA
O
ramo mais nobre da família tem
origem na Espanha, no período
de dominação romana. No
Brasil, o registro mais antigo é
em São Paulo, da família
de Pedro da Silva, alfaiate que veio
de Portugal por volta de 1600, casou-se
com Luzia Sardinha, foi desembargador
e ministro do Supremo Tribunal de Justiça.
Entre os primeiros Silva há também
degredados, como Domingas da Silva,
de Évora, acusada de bruxaria
e pacto com o demônio.
SANTOS
O
nome era dado inicialmente às
pessoas que nasciam em 1º de
novembro, Dia de Todos os Santos.
Outra origem é a referência
geográfica à região
de Sierra de Los Santos, na Andaluzia.
Em sua linha sacerdotal, destaca-se
o padre mineiro João Pedro
dos Santos, que ao morrer, em 1850,
reconhecera sete filhos. O nome Santos
também foi adotado por judeus
obrigados a se converter, os cristãos-novos.
SOUZA
Uma
das mais antigas e ilustres famílias
de Portugal, traçada até
dom Sueiro Belfaguer, cavaleiro
godo que viveu nos primeiros anos
do século VIII. Dom Egas
Gomes de Souza foi o primeiro a
usar o sobrenome, por ser dono do
Solar de Souza. Seu 12º neto
foi Martin Afonso de Sousa, comandante
da expedição que fundou
o primeiro núcleo de colonização
e donatário da capitania
de São Vicente. Era primo
de Tomé de Souza, o primeiro
governador-geral do Brasil.
COSTA
Tem
diversas procedências: Portugal,
Espanha, Itália e Uruguai.
O mais provável é
que tenha sido adotado por famílias
que habitavam regiões costeiras.
No Brasil, uma das mais antigas
de que se tem registro é
a de Baltazar da Costa, que viveu
no Rio de Janeiro por volta de
1565. No Piauí há
registro da família de
José de Oliveira Costa,
provavelmente proprietário
de um colégio em Teresina.
Seu trineto foi o escritor Odylo
de Moura Costa Filho, membro da
Academia Brasileira de Letras.
O nome também foi adotado
por escravos, índios e
cristãos-novos.
PEREIRA
A
origem mais remota da família
provém do conde de Forjaz
Bermudez, sobrinho neto de Desidério,
o último rei dos longobardos,
da Itália. No Brasil, o
primeiro Pereira foi o donatário
Francisco Pereira Coutinho, assassinado
brutalmente pelos índios
tupinambás em Itaparica,
em 1549. Entre seus descendentes
está um dos mais importantes
editores brasileiros, José
Olympio (Pereira Filho). O nome
também foi adotado por
cristãos-novos. Em 1606,
chegou ao Brasil a degredada Ana
Pereira, acusada de bigamia.
CARVALHO
Originária
de Coimbra, a família Carvalho
tem seu primeiro registro numa
doação feita a um
mosteiro por Pelagius Carvalis,
dono das terras posteriormente
administradas por Sebastião
José de Carvalho e Mello,
o primeiro marquês de Pombal.
Pelagius foi o primeiro a ter
este sobrenome, no tempo de dom
Afonso Henriques, rei de Portugal
em 1128. Há também
linhas de cristãos-novos
e africanos com esse nome.
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