Edição 1 628 -15/12/1999

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
França vai distribuir a pílula do dia seguinte na escola
Com o computador, aumentou o gasto de papel
Lipoaspiração mais segura atrai até quem não precisa
Escritórios se especializam em recorrer das multas
O herói dos golfinhos
O ultra-som em três dimensões
Estreito que vai desaparecer vira atração turística
O dicionário dos sobrenomes brasileiros
O Papai Noel a preços populares dos brasileiros
Computadores para vestir, como luvas ou óculos
Os novos conversíveis estão chegando ao país

Touro com 100.000 filhos ainda é virgem
Ervas e temperos em vasos decoram a sala
Os DJs tomam conta das festas
Enfermeiro provocou o incêndio que matou Safra
O cristianismo do novo milênio
Roberto Carlos vive o drama de sua mulher

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações

Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


Sabe com quem está falando?

Superdicionário revela as origens
e as interligações dos principais
sobrenomes brasileiros

Ronaldo França

 

Selmy Yassuda
N
ão é de hoje que o homem é curioso sobre suas origens. O interesse, essencialmente filosófico, tem sua contrapartida prática na busca da identificação dos antepassados. Quem não quer saber quem foi o avô do avô do avô, que deu início à sua linhagem – sempre na recôndita esperança de, pelo caminho, topar com algum rei, herói ou artista renomado? Estudo avançado em países de história milenar, como a Inglaterra, a genealogia vem conquistando terreno cada vez maior no Brasil. O interesse pelo assunto ganhou fôlego com a multiplicação de sites na internet e programas de computador que ensinam o bê-á-bá ao iniciante nesse tipo de pesquisa. A partir desta semana, os brasileiros contam com outro importante aliado: o Dicionário das Famílias Brasileiras, do pesquisador Carlos Eduardo Barata e do deputado federal monarquista Cunha Bueno (380 reais, 2.385 páginas). Trata-se da obra mais completa sobre o tema já publicada no país, com 17.200 verbetes, cerca de 50.000 famílias registradas e muitas surpresas.

A edição, luxuosa, consta de uma caixa com dois livros e um CD-ROM que, além de facilitar a consulta, oferece informações adicionais e 1.900 imagens, entre brasões, fotos e autógrafos. Mas a maior preciosidade está nos verbetes, que detalham a origem das famílias, a etimologia dos sobrenomes e dados sobre os diversos ramos e linhagens – resultado de um trabalho de 25 anos do pesquisador Barata e de trinta anos de dedicação ao tema por parte de Cunha Bueno, um genealogista amador mas apaixonado pelo assunto. "É uma obra aberta", avisa Cunha Bueno, que pôs no CD-ROM espaço para que o leitor escreva sua genealogia e a envie pela internet. "Vamos incluir na segunda edição todas as que nos mandarem."

 

Ricardo Stuckert

Os Cardoso – O presidente Fernando Henrique Cardoso é filho de uma linhagem de políticos e militares. No verbete de sua família no dicionário, os Espírito Santo Cardoso, não há pista do tal "pé na cozinha" que ele diz possuir. Quem adotou o sobrenome foi seu bisavô, o brigadeiro Felicíssimo Espírito Santo Cardoso, que descende de Manuel Pereira Cardoso e foi comendador e vice-presidente da província de Goiás (como se vê, instalado no Planalto Central bem antes de FHC).

Magalhães imigranteO dicionário revela ligações inesperadas e corrige alguns enganos, como mostram os resumos ao lado, que foram compostos a partir dos verbetes e em conversas com o pesquisador Barata. Não confirma, por exemplo, o tal "pé na cozinha" alardeado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, querendo dizer que tem algum antepassado negro. Mas revela que os presidentes Hermes da Fonseca e Deodoro da Fonseca eram descendentes dos índios arcoverdes, e Prudente de Moraes, dos tibiriçás e piquerobis. Também mostra que a rechonchuda contumaz Nana Caymmi é parenta da escultural Scheila Carvalho, do grupo É o Tchan, por parte da família da mulher de Dorival Caymmi, Stella. Ambas podem orgulhar-se de ser contraparentas distantes de Carlos Drummond de Andrade.

Tem mais. Podem-se considerar primos figuras tão díspares quanto o compositor Chico Buarque de Holanda, o general da reserva Nilton Cerqueira, que matou o guerrilheiro Carlos Lamarca, e, vejam só, o tesoureiro da campanha do ex- presidente Fernando Collor de Mello, Paulo César Farias. Em comum, todos eles têm a monumental família Cavalcanti, a maior do Brasil, que se fixou em Pernambuco por volta de 1535. Só o ramo principal possui cerca de 300 membros, que os casamentos e descendências multiplicaram e alastraram pelo país. Embrulhados nesse imenso emaranhado, são primos entre si todos os Cavalcanti, os Holanda Cavalcanti, os Lacerda Cavalcanti, os Albuquerque, os Albuquerque Maranhão, os Suassuna e os Buarque de Holanda. Também vem do Nordeste a origem familiar do muito paulistano empresário Antonio Ermírio de Moraes, dono da Votorantim: os Moraes que deram início ao clã são uma família pernambucana, emigrada de Portugal. Já o baianíssimo presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, tem relativo pouco tempo de Brasil – sua família, cujo patriarca foi Francisco Peixoto de Magalhães, emigrou de Portugal para Salvador no século XIX.  


Oscar Cabral
Os Loyola – Como convém a uma ricaça emergente, o sobrenome de Vera Loyola começou com ela. Batizada Vera Lúcia Santiago Barros (família originária da Argentina), era sempre citada como "a filha do seu Ignácio de Loyola", o nome de batismo do pai. Gostou, adaptou e aplicou aos filhos. Agora, pede autorização na Justiça para acrescentar "ou Vera Loyola" no RG. Vera garante que descende de Pero Vaz de Caminha, por parte da avó, Rosa Caminha Santiago. O dicionário não confirma.


Brasões e sobrenomes
"O traço mais marcante da genealogia brasileira é a consanguinidade", ensina Barata. "É possível dizer que quase todos os brasileiros são contraparentes." Sob essa lógica, nada impede – embora o dicionário não faça tal ligação – que a rainha das emergentes da Barra da Tijuca, Vera Loyola, seja em algum ponto parenta da tradicionalíssima socialite Carmen Mayrink Veiga. "Se se voltar trinta ou quarenta gerações numa família, é provável que se encontre esse tipo de coincidência", afirma Cunha Bueno. Ainda mais porque sobrenome ajuda, mas não é certeza, na identificação de ancestrais. Muitas famílias Silva, por exemplo, não têm nenhum laço de parentesco. Grande número de escravos simplesmente adotou o nome de seus senhores. Era comum no passado que a região desse identidade a seus moradores (como os Costa, que teriam vindo de localidades costeiras). Também era rotineiro no Brasil imperial que as famílias adotassem nomes de santos, como Assis, Conceição, Aquino e, claro, Loyola. A própria Vera "inventou" seu sobrenome famoso. Nascida Vera Lúcia Santiago Barros, está justamente encaminhando um pedido para que a seu nome no RG seja acrescentado "ou Vera Loyola", incorporando de vez o que era originalmente parte do nome (não sobrenome) de seu pai, Ignácio de Loyola. "Fiz um estudo e descobri que é um nome forte, melodioso e que dá sorte", garante Vera.

Ana Araujo
ACM: seu ramo dos Magalhães veio de Portugal no século XIX


Outro mito que as pesquisas genealógicas já haviam derrubado e que o dicionário enterra com provas é o de que todas as pessoas com sobrenome relacionado a animais ou árvores, como Oliveira e Pereira, são necessariamente descendentes de cristãos-novos, como eram chamados os judeus forçados a se converter ao catolicismo. Alguns desses sobrenomes existiam no século XII, muito antes de a Igreja obrigar os judeus à conversão, no final do século XV. Outro equívoco é achar que os brasões vendidos em balcões de shopping centers e aeroportos identificam as famílias dos compradores. Eles têm relação com o sobrenome, sim – uma ligação fácil de fazer, pois são abundantes os registros confirmados desta distinção feita por senhores e reis a seus cavaleiros, sobretudo na Europa feudal. Mas vai saber a qual das diversas linhagens de Carvalho, por exemplo, aquela figurinha com um cisne em cima
(veja quadro) está relacionada.  

Paulo Jares
Ana Paula Paiva
Os Lacerda – A família do ator Thiago Lacerda é procedente da cidade mineira de Recreio e remonta ao século XVIII. Não tem nada a ver com a Itália – muito provavelmente, o sobrenome está ligado a São Luís, o rei francês do tempo das Cruzadas que veio a ser canonizado. Lacerda tem laços familiares com o ex-presidente Tancredo Neves e com o cardeal dom Lucas Moreira Neves, e todos os três são prováveis descendentes comuns do bandeirante Fernão Dias Paes. Os Buarque de Holanda – O sobrenome do compositor Chico Buarque de Holanda tem origem nos Cavalcanti, de Pernambuco, de que descendem os Holanda Cavalcanti. Por causa dessa ligação, Chico Buarque, mais conhecido pela excelência dos intelectuais de sua família, tem primos inesperados. É parente, por consangüinidade, de PC (Cavalcanti) Farias e do general Nilton Cerqueira, que matou o guerrilheiro Carlos Lamarca. Menos mal que seja parente longe do jurista Evandro Lins e Silva e do escritor Ariano Suassuna.

Parentes supervalorizadosNa busca da história dos antepassados, uma legião de curiosos em todo o mundo anda percorrendo a internet, parando em sites como o www.familysearch.com. Este é o endereço eletrônico onde a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, dos mórmons (que têm entre seus princípios conhecer todos os parentescos passados de seus membros), pôs no ar, em maio, 400 milhões de registros de casamento, nascimento e óbito. Ampliando o tempo todo os seus dados, é hoje o principal site de consultas sobre genealogia. Apesar dessas modernidades, encontrar os sinais do passado continua sendo uma prova de persistência (veja quadro acima). O interessado tem de peregrinar por repartições públicas, esmiuçar documentos empoeirados e caçar dados há muito perdidos ou esquecidos. O maior desafio, segundo os genealogistas, é não se deixar enganar por excessos de vaidade. "As pessoas têm a tendência de supervalorizar seus antepassados", explica Carlos Barata. "Se um parente lutou na retaguarda de uma batalha, no relato do descendente ele aparece na primeira fileira. Isso acaba traindo o genealogista amador", ensina.

Cida Souza
Claudio Rossi

Os Fischer – O verbete Fischer registra apenas quatro famílias no Brasil, entre elas a de Blumenau, à qual pertence Vera Fischer. Todas têm origem germânica e chegaram ao Brasil neste século. Os outros três ramos de Fischer se instalaram no Rio de Janeiro e no Paraná.

Os Marinho – O nome do presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, nasceu de uma lenda: um certo dom Froyam, fidalgo espanhol, teve filhos com uma "mulher marinha". O certo é que o Marinho mais conhecido do Brasil provém da família Coelho de Barros, radicada no Rio de Janeiro.

 

Os reis da lista telefônica

Como bem sabem os Silva (68 verbetes no dicionário, sem contar suas variantes), nem todas as pessoas que têm o mesmo sobrenome provêm da mesma família. Muitos nomes indicam uma região ou situação geográfica. Outros são nomes de santos católicos que, com o passar de gerações, viraram sobrenomes. Até os brasões são variados (abaixo são mostrados os mais antigos).


SILVA

O ramo mais nobre da família tem origem na Espanha, no período de dominação romana. No Brasil, o registro mais antigo é em São Paulo, da família de Pedro da Silva, alfaiate que veio de Portugal por volta de 1600, casou-se com Luzia Sardinha, foi desembargador e ministro do Supremo Tribunal de Justiça. Entre os primeiros Silva há também degredados, como Domingas da Silva, de Évora, acusada de bruxaria e pacto com o demônio.

SANTOS

O nome era dado inicialmente às pessoas que nasciam em 1º de novembro, Dia de Todos os Santos. Outra origem é a referência geográfica à região de Sierra de Los Santos, na Andaluzia. Em sua linha sacerdotal, destaca-se o padre mineiro João Pedro dos Santos, que ao morrer, em 1850, reconhecera sete filhos. O nome Santos também foi adotado por judeus obrigados a se converter, os cristãos-novos.

SOUZA

Uma das mais antigas e ilustres famílias de Portugal, traçada até dom Sueiro Belfaguer, cavaleiro godo que viveu nos primeiros anos do século VIII. Dom Egas Gomes de Souza foi o primeiro a usar o sobrenome, por ser dono do Solar de Souza. Seu 12º neto foi Martin Afonso de Sousa, comandante da expedição que fundou o primeiro núcleo de colonização e donatário da capitania de São Vicente. Era primo de Tomé de Souza, o primeiro governador-geral do Brasil.

COSTA

Tem diversas procedências: Portugal, Espanha, Itália e Uruguai. O mais provável é que tenha sido adotado por famílias que habitavam regiões costeiras. No Brasil, uma das mais antigas de que se tem registro é a de Baltazar da Costa, que viveu no Rio de Janeiro por volta de 1565. No Piauí há registro da família de José de Oliveira Costa, provavelmente proprietário de um colégio em Teresina. Seu trineto foi o escritor Odylo de Moura Costa Filho, membro da Academia Brasileira de Letras. O nome também foi adotado por escravos, índios e cristãos-novos.

PEREIRA

A origem mais remota da família provém do conde de Forjaz Bermudez, sobrinho neto de Desidério, o último rei dos longobardos, da Itália. No Brasil, o primeiro Pereira foi o donatário Francisco Pereira Coutinho, assassinado brutalmente pelos índios tupinambás em Itaparica, em 1549. Entre seus descendentes está um dos mais importantes editores brasileiros, José Olympio (Pereira Filho). O nome também foi adotado por cristãos-novos. Em 1606, chegou ao Brasil a degredada Ana Pereira, acusada de bigamia.

CARVALHO

Originária de Coimbra, a família Carvalho tem seu primeiro registro numa doação feita a um mosteiro por Pelagius Carvalis, dono das terras posteriormente administradas por Sebastião José de Carvalho e Mello, o primeiro marquês de Pombal. Pelagius foi o primeiro a ter este sobrenome, no tempo de dom Afonso Henriques, rei de Portugal em 1128. Há também linhas de cristãos-novos e africanos com esse nome.