Eu
ganho demais
O
ator conta como se tornou o maior astro
dos
anos 90, critica os cachês de Hollywood
e
diz que bom mesmo é
a vida em família
Paoula
Abou-Jaoude
O
ator americano Tom Hanks é considerado
o maior símbolo do cinema nos anos
90. O mais notável é que tenha
chegado a esse posto remando contra a atual
fórmula de sucesso de Hollywood. Seus
filmes não usam a violência e
o sexo como chamariz de bilheteria. Também
não fazem a platéia vibrar com
efeitos especiais bombásticos. Hanks,
de 43 anos, virou herói por encarnar
personagens com os quais o espectador pode
identificar-se, gente de carne e osso que
enfrenta as dificuldades com coragem e honestidade.
Ele cultiva essa mesma imagem na vida real.
Ao contrário da maioria de seus colegas,
o astro é muito simpático e
jamais recusa um autógrafo.
Protagonista
de sucessos como Sintonia
de Amor, Forrest Gump, Filadélfia
e
O
Resgate do Soldado Ryan,
dois Oscar na estante, Hanks faz parte do
exclusivo clube de atores que ganham pelo
menos 20 milhões de dólares
por filme. O mais recente deles, ainda sem
data de estréia no Brasil e sem título
em português, é The
Green Mile,
baseado no livro homônimo do escritor
de romances macabros Stephen King. Na fita,
vive um guarda carcerário encarregado
de tomar conta de condenados à morte
na cadeira elétrica. A partir desta
sexta-feira, sua voz poderá ser ouvida
nos cinemas brasileiros nas cópias
legendadas do desenho animado Toy
Story 2 (veja
reportagem),
no qual interpreta o caubói Woody.
Hanks é casado pela segunda vez com
a atriz Rita Wilson e tem quatro filhos. Por
causa da família, como já admitiu
várias vezes, deixou a maconha e a
cocaína, que consumia no início
da carreira. Na semana passada, em Los Angeles,
ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
A
maioria das pessoas acha que a vida de um astro
de cinema é maravilhosa. Essa imagem
corresponde à realidade?
Hanks
Há
três dias não consigo ver minha
mulher por causa de compromissos profissionais.
Na noite passada, mal consegui dormir, cuidando
de um filho com o nariz sangrando. Definitivamente,
não passo meus dias de óculos
escuros dando autógrafos. Mas há
uma vantagem em ser celebridade: ganho a vida
fazendo filmes. É um emprego melhor do
que qualquer outro que eu possa imaginar.
Veja
Há
quinze anos o senhor faz sucesso nesse "emprego".
Quais são os truques para permanecer
entre os grandes nomes de Hollywood?
Hanks Primeiro,
é preciso que o ator não acredite
em nada que lê a seu respeito, sejam coisas
ruins ou boas. Ele não pode se achar
o máximo nem querer sumir quando suas
atuações são espinafradas.
No começo da carreira, principalmente,
é comum que o ator procure incentivo
nas reportagens de jornais e opiniões
de colegas. É um erro. Lembro-me de que
as primeiras críticas que li sobre o
filme que me lançou Splash,
uma Sereia em Minha Vida
nem sequer mencionavam meu nome. Pensei em procurar
outra forma de subir na vida.
Veja
O
senhor costuma interpretar personagens bonzinhos,
muito simpáticos, e tem a reputação
de ser assim também fora das telas.
Isso é verdade?
Hanks
Sempre
há gente disposta a dizer coisas horríveis
sobre as celebridades. Mas não me importo.
Veja
Como
o senhor convive com a fama?
Hanks
Às
vezes fico constrangido, acho que não
mereço tudo isso. Uma das coisas mais
embaraçosas é o cachê milionário
que recebo a cada filme. Ninguém vale
tanto dinheiro assim. Fico feliz porque, até
o momento, o dinheiro investido pelos estúdios
em minha conta bancária gerou bom retorno.
Mas, se você começa a acreditar
que é melhor do que os outros por causa
disso, terá sérios problemas.
Basta eu estrelar um fracasso para tudo isso
mudar. Além do mais, para os meus filhos,
não importa a mínima o fato de
eu ser um astro. Se um deles está com
o nariz sangrando, quer apenas que eu esteja
a seu lado. Ele não vai se consolar pensando
em quanto eu ganho.
Veja
O
senhor ganha hoje 20 milhões de dólares
por filme. Aceitaria trabalhar por menos?
Hanks
Aceito
o dinheiro que me pagam. Mas vamos imaginar
que estamos num mundo diferente, em que a União
Soviética prevaleceu na Guerra Fria,
e vivemos todos num regime comunista. Eu ainda
seria um ator, iria para um estúdio empoeirado
interpretar um sujeito que, sei lá, descobre
um esquema de corrupção numa fábrica
de tratores. Se eu morasse na Coréia
do Norte, ainda assim tentaria fundar uma companhia
dramática e fazer filmes, mesmo que não
recebesse um tostão por isso.
Veja
O
senhor faz planos para sua carreira com antecedência?
Hanks
Não.
Gosto que ela seja meio improvisada. Os soviéticos
faziam planos qüinqüenais, e olhe
onde eles foram parar.
Veja
Seu
personagem no drama The
Green Mile,
seu novo filme, também é bom e
honesto, como a maioria dos outros que o senhor
fez?
Hanks
Nem
tanto. Em The
Green Mile,
interpreto um guarda de prisão que, em
1935, trabalha no corredor da morte, local onde
são confinados os prisioneiros que aguardam
a execução. Ele ganha seu salário
tirando a vida de outros homens. Acho que, se
ele fosse realmente decente, não teria
aceitado um emprego desses.
Veja
O
que o fez aceitar o convite para esse filme?
Hanks
A
ambigüidade moral do personagem e também
de toda a trama. Acho que ela mapeia um novo
tipo de território. Hoje, os filmes de
Hollywood têm obrigatoriamente um final
feliz: os bons vencem, os maus perdem, há
um momento de triunfo e a história termina.
Não se pode fugir disso. Mas essa fita
mostra que por trás de toda bênção
há um tipo de maldição,
assim como toda vitória encerra uma espécie
de tragédia. Traduzindo para a vida real:
as crianças são fantásticas,
mas elas crescem e nos deixam. Cedo ou tarde
terminamos numa cama, cuspindo sangue ou algo
do gênero.
Veja
Essa
não é uma visão pessimista
da vida?
Hanks Ninguém
é feliz para sempre.
Veja
Como
o senhor se sentiu vivendo um personagem de
caráter discutível?
Hanks
Houve
um tempo em que eu interpretava sujeitos normais
vivendo em situações extraordinárias
que alteravam sua vida para sempre. Agora,
aos 43 anos, prefiro viver seres humanos às
voltas com a realidade do que eles são,
dos seus defeitos, e que às vezes têm
de fazer coisas que desprezam. Como o capitão
John Miller, de O
Resgate do Soldado Ryan.
Ele é um sujeito decente, mas que se
viu obrigado a matar todo tipo de gente na
guerra, até mesmo inimigos que estavam
tentando se render. O interessante nesses
personagens é que eles têm uma
história que os leva a essas circunstâncias.
Isso faz os espectadores sentir que também
passaram por aquilo, que é deles que
estou falando. Não me interesso mais
por personagens de cartum. Acho-os chatos.
Veja
O
senhor espera que The
Green Mile
venha
a levantar discussões sobre a pena de
morte?
Hanks
O
filme não assume uma posição
quanto a tal tema, e esse é um de seus
pontos fortes. Mesmo Stephen King, o autor do
livro em que a fita se baseia, passa ao largo
de qualquer consideração moral
sobre a pena de morte. Ele apenas constata sua
existência. Talvez The
Green Mile
traga, isso sim, um entendimento do que significa
ver alguém ser eletrocutado até
a morte. Mas um filme ou um ator não
vão fazer ninguém mudar de idéia
sobre um assunto como esse. É ilusão
pensar que os ícones da cultura popular
possam influenciar o comportamento das pessoas
no dia-a-dia. Às vezes é possível
promover uma discussão em torno de um
determinado tema, mas não alterar a natureza
dele.
Veja
O
senhor é a favor da pena de morte?
Hanks Qualquer
ator famoso adoraria esquivar-se dessa pergunta,
mas vamos lá. Acredito que há
muitas pessoas no corredor da morte que deveriam
ser executadas por seus crimes e outras tantas
que não o merecem. É uma questão
que deve ser tratada caso a caso.
Veja
No
filme, há um prisioneiro capaz de curar
as pessoas com as mãos. O senhor acredita
em milagres?
Hanks
Acredito
que milagres acontecem a toda hora. Estamos
cercados por eles, todos os dias. Aqui estamos
nós, hoje, seguros e inteiros. Isso
é um milagre. Não estou brincando.
Mas a jornada espiritual de alguém
que está lutando contra o câncer
me impressiona mais do que a da pessoa que
se diz capaz de curar essa doença com
as mãos. Esse homem provavelmente é
um charlatão, o outro, no entanto,
está lidando com algo que um dia, talvez,
você e eu tenhamos de enfrentar.
Veja
O
senhor pensa com freqüência em fatalidades?
Hanks
O
tempo todo. Da mesma forma que qualquer outra
pessoa no mundo quando confrontada com elas.
Certa vez, estava dirigindo com pressa e por
muito pouco não atropelei duas pessoas.
Felizmente nada aconteceu, o que para mim foi
um mistério, um milagre. Não um
milagre operado por uma divindade, mas do tipo
que existe no cotidiano. Se eu tivesse saído
de casa dois minutos mais cedo, ou mais tarde,
não teria vivido esse episódio.
Veja
O
senhor já decidiu qual candidato vai
apoiar na eleição presidencial
americana do ano que vem?
Hanks
A
política me entedia até o sono
profundo. Prefiro pegar gripe a discutir política.
Veja
Por
que o senhor está usando barba?
Hanks
Deixei
crescer a barba por causa de um filme que estou
rodando, chamado Cast
Away.
Ele conta a história de um sujeito que
passa quatro anos perdido numa ilha deserta,
e quero retratar essa experiência com
o máximo de realismo. Hoje em dia, quando
se fala em náufragos, pensa-se em ficar
sem telefone, sem carro, sem conforto algum.
Para mim o fascinante é imaginar o que
acontece quando uma pessoa se ausenta da própria
vida durante quatro anos e então volta
no momento em que todos já a imaginavam
morta. Estamos fazendo o filme em duas partes,
para que a barba cresça e eu perca peso.
Veja
O
senhor costuma assistir a muitos filmes?
Hanks
Em
geral, mal tenho tempo de ver as fitas que estão
passando no cinema da esquina de minha casa.
Veja
O
senhor está sempre presente nas listas
de pessoas mais poderosas de Hollywood. Gosta
do poder?
Hanks
Essas
listas, assim como a dos astros mais bem vestidos,
são feitas para preencher páginas
de revistas. Garanto que se eu propuser a um
estúdio um filme de 120 milhões
de dólares sobre um sujeito que morre
lentamente de overdose de drogas num quarto
de hotel, vão me colocar da porta para
fora. Não vai importar nem um pouco o
fato de eu estar no ranking dos mais poderosos
do cinema.
Veja
O
senhor se considera um bom ator?
Hanks
Sim.
Acho que sou um bom ator porque dou muita importância
à maneira como me comporto em minha profissão.
Trabalho bem em equipe. Claro que às
vezes sou mal-humorado e me isolo. Várias
pessoas já sentiram minha fúria
num dia ruim. Mas estou sempre disposto a ir
até as últimas conseqüências.
O que significa fazer tudo o que o roteiro exige,
ou decorar todas as minhas falas antes de entrar
no set de filmagens, mesmo quando não
tenho a menor vontade de dizê-las da forma
como estão escritas. No geral, sou uma
pessoa relativamente agradável.
Veja
Que
outros atores o senhor admira?
Hanks
Há
sujeitos capazes de me deixar atônitos
com tudo o que fazem, como Robert Duvall. Acho
Matthew Broderick um ator surpreendente e subestimado.
Kevin Spacey é muito celebrado, e com
toda a razão. Jim Carrey faz coisas que
nem consigo compreender. Ele é uma força
da natureza.
Veja
O
senhor teve uma infância conturbada. Seus
pais se divorciaram quando tinha 5 anos. Sua
mãe ficou com seu irmão mais novo
e seu pai se casou outras duas vezes, carregando
o senhor e mais um casal de irmãos de
cidade em cidade em busca de emprego. Como essa
experiência o afetou?
Hanks
Sou
um produto das minhas experiências de
infância. Por outro lado, meu irmão
passou pelas mesmas coisas e se tornou entomologista,
um especialista em insetos. Minha infância
foi estranha, mas divertida. Meu pai trabalhava
no ramo de restaurantes e voltava para casa
tarde da noite. Fazíamos nosso jantar,
o que era cômico. Espalhávamos
ervilhas e cenouras pela cozinha para que papai
achasse que tínhamos comido vegetais.
Em vez disso, jantávamos bife queimado
com purê de batata instantâneo.
Tornamo-nos muito independentes. Não
tínhamos nenhuma supervisão, mas
raramente entrávamos em encrencas. Essas
mudanças todas me deixavam confuso, mas
eu sentia grande entusiasmo a cada nova cidade.
O que de certa forma é como viver fazendo
um filme a cada ano.
Veja
O
que o senhor pretende fazer no primeiro dia
do ano 2000?
Hanks
Jogar
cartas com meus filhos na mesa da cozinha. Há
algo mais divertido do que isso?