Edição 1 628 -15/12/1999

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Eu ganho demais

O ator conta como se tornou o maior astro
dos anos 90, critica os cachês de Hollywood
e diz que bom mesmo é a vida em família

Paoula Abou-Jaoude

O ator americano Tom Hanks é considerado o maior símbolo do cinema nos anos 90. O mais notável é que tenha chegado a esse posto remando contra a atual fórmula de sucesso de Hollywood. Seus filmes não usam a violência e o sexo como chamariz de bilheteria. Também não fazem a platéia vibrar com efeitos especiais bombásticos. Hanks, de 43 anos, virou herói por encarnar personagens com os quais o espectador pode identificar-se, gente de carne e osso que enfrenta as dificuldades com coragem e honestidade. Ele cultiva essa mesma imagem na vida real. Ao contrário da maioria de seus colegas, o astro é muito simpático e jamais recusa um autógrafo.

Protagonista de sucessos como Sintonia de Amor, Forrest Gump, Filadélfia e O Resgate do Soldado Ryan, dois Oscar na estante, Hanks faz parte do exclusivo clube de atores que ganham pelo menos 20 milhões de dólares por filme. O mais recente deles, ainda sem data de estréia no Brasil e sem título em português, é The Green Mile, baseado no livro homônimo do escritor de romances macabros Stephen King. Na fita, vive um guarda carcerário encarregado de tomar conta de condenados à morte na cadeira elétrica. A partir desta sexta-feira, sua voz poderá ser ouvida nos cinemas brasileiros nas cópias legendadas do desenho animado Toy Story 2 (veja reportagem), no qual interpreta o caubói Woody. Hanks é casado pela segunda vez com a atriz Rita Wilson e tem quatro filhos. Por causa da família, como já admitiu várias vezes, deixou a maconha e a cocaína, que consumia no início da carreira. Na semana passada, em Los Angeles, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

 
Veja – A maioria das pessoas acha que a vida de um astro de cinema é maravilhosa. Essa imagem corresponde à realidade?
Hanks – Há três dias não consigo ver minha mulher por causa de compromissos profissionais. Na noite passada, mal consegui dormir, cuidando de um filho com o nariz sangrando. Definitivamente, não passo meus dias de óculos escuros dando autógrafos. Mas há uma vantagem em ser celebridade: ganho a vida fazendo filmes. É um emprego melhor do que qualquer outro que eu possa imaginar.
 
Veja – Há quinze anos o senhor faz sucesso nesse "emprego". Quais são os truques para permanecer entre os grandes nomes de Hollywood?
Hanks –
Primeiro, é preciso que o ator não acredite em nada que lê a seu respeito, sejam coisas ruins ou boas. Ele não pode se achar o máximo nem querer sumir quando suas atuações são espinafradas. No começo da carreira, principalmente, é comum que o ator procure incentivo nas reportagens de jornais e opiniões de colegas. É um erro. Lembro-me de que as primeiras críticas que li sobre o filme que me lançou – Splash, uma Sereia em Minha Vida – nem sequer mencionavam meu nome. Pensei em procurar outra forma de subir na vida.

Veja – O senhor costuma interpretar personagens bonzinhos, muito simpáticos, e tem a reputação de ser assim também fora das telas. Isso é verdade?
H
anks –
Sempre há gente disposta a dizer coisas horríveis sobre as celebridades. Mas não me importo.

Veja – Como o senhor convive com a fama?
Hanks – Às vezes fico constrangido, acho que não mereço tudo isso. Uma das coisas mais embaraçosas é o cachê milionário que recebo a cada filme. Ninguém vale tanto dinheiro assim. Fico feliz porque, até o momento, o dinheiro investido pelos estúdios em minha conta bancária gerou bom retorno. Mas, se você começa a acreditar que é melhor do que os outros por causa disso, terá sérios problemas. Basta eu estrelar um fracasso para tudo isso mudar. Além do mais, para os meus filhos, não importa a mínima o fato de eu ser um astro. Se um deles está com o nariz sangrando, quer apenas que eu esteja a seu lado. Ele não vai se consolar pensando em quanto eu ganho.
 
Veja – O senhor ganha hoje 20 milhões de dólares por filme. Aceitaria trabalhar por menos?
Hanks – Aceito o dinheiro que me pagam. Mas vamos imaginar que estamos num mundo diferente, em que a União Soviética prevaleceu na Guerra Fria, e vivemos todos num regime comunista. Eu ainda seria um ator, iria para um estúdio empoeirado interpretar um sujeito que, sei lá, descobre um esquema de corrupção numa fábrica de tratores. Se eu morasse na Coréia do Norte, ainda assim tentaria fundar uma companhia dramática e fazer filmes, mesmo que não recebesse um tostão por isso.
 
Veja – O senhor faz planos para sua carreira com antecedência?
Hanks – Não. Gosto que ela seja meio improvisada. Os soviéticos faziam planos qüinqüenais, e olhe onde eles foram parar.
 
Veja – Seu personagem no drama The Green Mile, seu novo filme, também é bom e honesto, como a maioria dos outros que o senhor fez?
Hanks – Nem tanto. Em The Green Mile, interpreto um guarda de prisão que, em 1935, trabalha no corredor da morte, local onde são confinados os prisioneiros que aguardam a execução. Ele ganha seu salário tirando a vida de outros homens. Acho que, se ele fosse realmente decente, não teria aceitado um emprego desses.
 
Veja – O que o fez aceitar o convite para esse filme?
Hanks – A ambigüidade moral do personagem e também de toda a trama. Acho que ela mapeia um novo tipo de território. Hoje, os filmes de Hollywood têm obrigatoriamente um final feliz: os bons vencem, os maus perdem, há um momento de triunfo e a história termina. Não se pode fugir disso. Mas essa fita mostra que por trás de toda bênção há um tipo de maldição, assim como toda vitória encerra uma espécie de tragédia. Traduzindo para a vida real: as crianças são fantásticas, mas elas crescem e nos deixam. Cedo ou tarde terminamos numa cama, cuspindo sangue ou algo do gênero.
 
Veja – Essa não é uma visão pessimista da vida?
Hanks –
Ninguém é feliz para sempre.

Veja – Como o senhor se sentiu vivendo um personagem de caráter discutível?
Hanks –
Houve um tempo em que eu interpretava sujeitos normais vivendo em situações extraordinárias que alteravam sua vida para sempre. Agora, aos 43 anos, prefiro viver seres humanos às voltas com a realidade do que eles são, dos seus defeitos, e que às vezes têm de fazer coisas que desprezam. Como o capitão John Miller, de O Resgate do Soldado Ryan. Ele é um sujeito decente, mas que se viu obrigado a matar todo tipo de gente na guerra, até mesmo inimigos que estavam tentando se render. O interessante nesses personagens é que eles têm uma história que os leva a essas circunstâncias. Isso faz os espectadores sentir que também passaram por aquilo, que é deles que estou falando. Não me interesso mais por personagens de cartum. Acho-os chatos.

Veja – O senhor espera que The Green Mile venha a levantar discussões sobre a pena de morte?
Hanks – O filme não assume uma posição quanto a tal tema, e esse é um de seus pontos fortes. Mesmo Stephen King, o autor do livro em que a fita se baseia, passa ao largo de qualquer consideração moral sobre a pena de morte. Ele apenas constata sua existência. Talvez The Green Mile traga, isso sim, um entendimento do que significa ver alguém ser eletrocutado até a morte. Mas um filme ou um ator não vão fazer ninguém mudar de idéia sobre um assunto como esse. É ilusão pensar que os ícones da cultura popular possam influenciar o comportamento das pessoas no dia-a-dia. Às vezes é possível promover uma discussão em torno de um determinado tema, mas não alterar a natureza dele.
 
Veja – O senhor é a favor da pena de morte?
Hanks –
Qualquer ator famoso adoraria esquivar-se dessa pergunta, mas vamos lá. Acredito que há muitas pessoas no corredor da morte que deveriam ser executadas por seus crimes e outras tantas que não o merecem. É uma questão que deve ser tratada caso a caso.

Veja – No filme, há um prisioneiro capaz de curar as pessoas com as mãos. O senhor acredita em milagres?
Hanks –
Acredito que milagres acontecem a toda hora. Estamos cercados por eles, todos os dias. Aqui estamos nós, hoje, seguros e inteiros. Isso é um milagre. Não estou brincando. Mas a jornada espiritual de alguém que está lutando contra o câncer me impressiona mais do que a da pessoa que se diz capaz de curar essa doença com as mãos. Esse homem provavelmente é um charlatão, o outro, no entanto, está lidando com algo que um dia, talvez, você e eu tenhamos de enfrentar.

Veja – O senhor pensa com freqüência em fatalidades?
Hanks – O tempo todo. Da mesma forma que qualquer outra pessoa no mundo quando confrontada com elas. Certa vez, estava dirigindo com pressa e por muito pouco não atropelei duas pessoas. Felizmente nada aconteceu, o que para mim foi um mistério, um milagre. Não um milagre operado por uma divindade, mas do tipo que existe no cotidiano. Se eu tivesse saído de casa dois minutos mais cedo, ou mais tarde, não teria vivido esse episódio.
 
Veja – O senhor já decidiu qual candidato vai apoiar na eleição presidencial americana do ano que vem?
Hanks – A política me entedia até o sono profundo. Prefiro pegar gripe a discutir política.
 
Veja – Por que o senhor está usando barba?
Hanks – Deixei crescer a barba por causa de um filme que estou rodando, chamado Cast Away. Ele conta a história de um sujeito que passa quatro anos perdido numa ilha deserta, e quero retratar essa experiência com o máximo de realismo. Hoje em dia, quando se fala em náufragos, pensa-se em ficar sem telefone, sem carro, sem conforto algum. Para mim o fascinante é imaginar o que acontece quando uma pessoa se ausenta da própria vida durante quatro anos e então volta no momento em que todos já a imaginavam morta. Estamos fazendo o filme em duas partes, para que a barba cresça e eu perca peso.
 
Veja – O senhor costuma assistir a muitos filmes?
Hanks – Em geral, mal tenho tempo de ver as fitas que estão passando no cinema da esquina de minha casa.
 
Veja – O senhor está sempre presente nas listas de pessoas mais poderosas de Hollywood. Gosta do poder?
Hanks – Essas listas, assim como a dos astros mais bem vestidos, são feitas para preencher páginas de revistas. Garanto que se eu propuser a um estúdio um filme de 120 milhões de dólares sobre um sujeito que morre lentamente de overdose de drogas num quarto de hotel, vão me colocar da porta para fora. Não vai importar nem um pouco o fato de eu estar no ranking dos mais poderosos do cinema.
 
Veja – O senhor se considera um bom ator?
Hanks – Sim. Acho que sou um bom ator porque dou muita importância à maneira como me comporto em minha profissão. Trabalho bem em equipe. Claro que às vezes sou mal-humorado e me isolo. Várias pessoas já sentiram minha fúria num dia ruim. Mas estou sempre disposto a ir até as últimas conseqüências. O que significa fazer tudo o que o roteiro exige, ou decorar todas as minhas falas antes de entrar no set de filmagens, mesmo quando não tenho a menor vontade de dizê-las da forma como estão escritas. No geral, sou uma pessoa relativamente agradável.
 
Veja – Que outros atores o senhor admira?
Hanks – Há sujeitos capazes de me deixar atônitos com tudo o que fazem, como Robert Duvall. Acho Matthew Broderick um ator surpreendente e subestimado. Kevin Spacey é muito celebrado, e com toda a razão. Jim Carrey faz coisas que nem consigo compreender. Ele é uma força da natureza.
 
Veja – O senhor teve uma infância conturbada. Seus pais se divorciaram quando tinha 5 anos. Sua mãe ficou com seu irmão mais novo e seu pai se casou outras duas vezes, carregando o senhor e mais um casal de irmãos de cidade em cidade em busca de emprego. Como essa experiência o afetou?
Hanks – Sou um produto das minhas experiências de infância. Por outro lado, meu irmão passou pelas mesmas coisas e se tornou entomologista, um especialista em insetos. Minha infância foi estranha, mas divertida. Meu pai trabalhava no ramo de restaurantes e voltava para casa tarde da noite. Fazíamos nosso jantar, o que era cômico. Espalhávamos ervilhas e cenouras pela cozinha para que papai achasse que tínhamos comido vegetais. Em vez disso, jantávamos bife queimado com purê de batata instantâneo. Tornamo-nos muito independentes. Não tínhamos nenhuma supervisão, mas raramente entrávamos em encrencas. Essas mudanças todas me deixavam confuso, mas eu sentia grande entusiasmo a cada nova cidade. O que de certa forma é como viver fazendo um filme a cada ano.
 
Veja – O que o senhor pretende fazer no primeiro dia do ano 2000?
Hanks – Jogar cartas com meus filhos na mesa da cozinha. Há algo mais divertido do que isso?